OPINIÃO | Os desafios de Joinville em um momento bom

Por Felipe Silveira
Foto: Mauro Artur Schlieck/CVJ

Existem duas formas básicas de analisar a política. Uma delas é a macro, na qual contam as grandes obras, os grandes movimentos, os grandes acordos e as linhas ideológicas. Quando olhamos para o passado, são os elementos que observamos. Em tal governo foi inaugurada tal obra, fulano trouxe a instituição para a cidade, ciclano criou uma nova empresa pública, beltrano deu início a um programa revolucionário… e por aí vai. E há, claro, a política micro. O remédio que falta no posto de saúde, a falta de vagas nos CEIs, a censura em uma escola etc. As duas formas são importantíssimas e eventualmente se fundem.

Do ponto de vista macro, Joinville vive um bom momento. Há muitas obras em um horizonte próximo. O ex-prefeito Udo Döhler, que havia deixado parte da casa em ordem (construiu boas unidades de saúde e CEIs), assinou contratos que vão permitir ao prefeito Adriano Silva uma série de inaugurações. São centenas de ruas médias e pequenas a asfaltar, algo que influencia diretamente no bem-estar das pessoas, e uma ponte gigantesca que pode revolucionar a mobilidade da zona sul — e, como consequência, transformar a historicamente abandonada região depois do trilho.

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Noutra frente, temos um governo do estado que aproveitou um momento singular da economia e abriu a mão para os municípios. Assim, se tudo ocorrer conforme a expectativa, Joinville pode ter um boom de obras relevantes. Duplicações, pontes, abertura de vias e requalificações estão no pacote. Algumas podem ter pouca relevância, sendo boas apenas para um ou outro, mas outras podem transformar bairros inteiros.

Há, ainda, os investimentos privados. O grupo Hansen está construindo uma espécie de “bairro inteligente” na zona oeste, a UniSociesc abriu mais espaço para a comunidade no campus da zona leste, a Fiesc vai investir em complexo educacional em uma área semi-abandonada no centro, entre outras.

Por uma frente ou outra, Joinville vive um bom momento do ponto de vista macro. Se parte dessas obras forem concluídas nos próximos anos, a cidade terá um salto de qualidade de vida, com resultados econômicos e sociais. Porém, este não é único ponto de vista pelo qual se analisa a política. Do ponto de vista micro, há uma imensidão de problemas a resolver e desafios a enfrentar. São tantos, inclusive, que não cabem na coluna ou são sabidos de cabeça. Mesmo assim, vou listar alguns exemplos para refletirmos:

Serviços públicos

Até mesmo pelos elementos citados acima, Joinville passa por um processo de expansão populacional. Há quem projete que a cidade terá 1 milhão de habitantes nas próximas décadas, dado o fluxo migratório para uma cidade que tem atrativos. Cabe lembrar que a imigração é o processo formador de Joinville. Há 171 anos chegaram os imigrantes de uma Europa partida pela guerra e pela fome. Na maior parte do século 20, gente do interior da região sul veio construir a urbanidade da cidade. Nas últimas décadas, o município tem recebido bastante gente do norte país, das américas do Sul e Central e também da África.

O fato de ser o processo formador de Joinville não significa que seja um processo sem conflito. Muito pelo contrário. Com mais gente disputando os recursos disponíveis (empregos, serviços), mais escassos eles ficam. Se há muita gente querendo emprego, o contratante pode pagar salários mais baixos e exigir mais dedicação dos trabalhadores. Assim, mais lucro o empresário tem, de modo que fica mais fácil empreender. Talvez esta seja a verdadeira história de Joinville. Olhe para trás, para a sua história e da sua família, e veja se não faz sentido.

Mas tergiverso. A questão aqui é que o boom populacional vai exigir cada vez mais serviços públicos, algo que os governos não conseguem ou não querem expandir conforme a necessidade, arrochando os trabalhadores. É algo que já está acontecendo. Recentemente, a Secretaria de Educação teve que reabrir o turno intermediário em uma comunidade de baixa renda do município. Nas entrelinhas de entrevistas de autoridades ficou claro que a expansão populacional daquela comunidade foi a causa. Em vez de ensino em tempo integral, que é ideal, estamos reabrindo o intermediário, algo que só deve ser feito em extrema necessidade.

Outro problema é na saúde. A cidade sofre com falta de remédios, de cirurgias eletivas, de tratamento adequado para algumas doenças, de suporte para os mais velhos. Há coisa mais cruel do que deixar uma pessoa com dor por não ter remédio? Do que deixar agravar um problema fatal por não conseguir fazer cirurgias simples? Consigo pensar em pouca coisa, mas este é o cenário posto que tende a se agravar.

Joinville vai crescer, claro. Terá grandes vias públicas, bairros inteligentes e serviços melhores. Talvez melhore bastante a vida de construtores, de industriais farmacêuticos e de outros beneficiários de uma uma cidade em expansão. Mas nós, joinvilenses, temos que pensar na outra ponta. Vamos precisar de cada vez mais serviços públicos e isso não virá de mão beijada.

Racismo, machismo e outras violências

O problema é planetário, mas sabemos que o sul do país tem algo mais acentuado nas questões sócio-culturais e comportamentais. Como sociedade, somos mais racistas, machistas, misóginos e xenofóbicos. Podemos ver esse tipo de coisa em capa de revista. Sem contar as células neonazistas que se multiplicam na região.

Essa “questão comportamental” se reflete em violências cotidianas. Somo um estado “campeão” em feminicídios, com número alarmantes de abusos, de espancamentos e de assédio contra mulheres. Há também violência contra a população negra, contra indígenas e contra a comunidade LGBTQIA+. Há violência na prática e há a violência velada. Há mulheres (inclusive) que não podem sair na rua sem serem assediadas pelos assovios dos “homens de bem”.

Podemos aceitar que seja assim, como muitos tentam normalizar, alegando uma naturalidade pela história? Não dá. O Estado (os governos e outras instituições) tem a obrigação de fazer algo. Uma força-tarefa para caçar neonazis é o urgente, por exemplo. Além disso, é preciso criar sistemas de segurança, educacionais e assistenciais para enfrentar todos esses problemas. Se há dinheiro para pavimentação e para elevados, há dinheiro para todas essas tarefas.

Provincianismo

Em dias como o 9 de março, o caráter provinciano de Joinville fica mais explícito. Nas homenagens, nos discursos, nos tipos de celebrações. Não que fique escondido nos outros dias, mas no aniversário aparece mais. E esta é, também, uma das razões dos nossos preconceitos que resultam em violências.

Temos, portanto, o desafio de construir uma cidade mais cosmopolita. Talvez abrir cursos públicos de ciências sociais e humanas possa ser um bom começo. Além de dar oportunidade para o desenvolvimento de outras aptidões, a cidade passa também a atrair talentos, em vez de expulsá-los, como historicamente vem acontecendo.

Mobilidade vs asfalto

O asfalto na frente de casa realmente muda a vida, mas a mobilidade é um problema bem maior que não se resolve asfaltando a cidade toda. A resposta é o transporte público. Se há milhões de reais para a construção de pontes, também há dinheiro para construir e subsidiar um robusto sistema de transporte público que vai beneficiar muito mais gente. E muita gente que precisa.

Em vez de pagar R$ 20 para uma corrida de aplicativo, eu quero pagar bem menos para andar em um ônibus, compartilhando a corrida com outras pessoas. Para isso, eu preciso confiar no sistema. Que será pontual, confortável e seguro. Quando todo mundo se sentir assim, preferindo deixar o carro em casa para ir de ônibus, o problema da mobilidade estará resolvido.

E o oposto também vale. Se ninguém confiar no sistema de transporte público, todo mundo vai fazer de tudo para ter um meio de transporte individual e motorizado. Aí não tem ponte, elevado e duplicação que resolva o sistema.

Meio ambiente ou o fim

Se você tem um pouquinho de bom senso e alguma informação, já sabe que o destino nos reserva dias e surpresas terríveis, já que o planeta está fervendo e não temos para onde correr. Nossa esperança é criar mecanismos de proteção e redução de danos.

Como faremos isso em uma cidade que investe quase todos os milhões disponíveis em obras de pavimentação, com deputados que se esforçam para permitir o avanço sobre rios, com um estado que cada vez mais investe em monoculturas, com empreendedores que querem derrubar morros protegidos para fazer prédios e grandes lojas e com todo mundo querendo andar de carro o tempo todo?

Não vai dar certo. Se a sociedade não rechaçar esse tipo de coisa, não encontrar soluções melhores e não fizer sacrifícios para salvar a vida no planeta, nem tempo teremos para aproveitar as grandes obras que os governos vêm anunciando.

Feliz 171

Como eu disse na introdução, estes são apenas alguns problemas que, embora pareçam um pouco maiores, são bem joinvilenses. É aqui na cidade que precisamos encontrar soluções para resolver nossos preconceitos, nossa falta de mobilidade, nossos problemas ambientais e nosso déficit de serviços públicos. Fácil não será, talvez nem seja possível, mas certamente é um bom desafio desses que a gente se propõe no dia do aniversário.