Opinião | Operação Susto

Texto: Felipe Silveira
Foto: Prefeitura

A Polícia Civil, a Polícia Militar e a Secretaria de Proteção Civil e Segurança Pública (Seprot) realizaram, na segunda-feira (21), uma coletiva de imprensa para falar de uma inédita operação conjunta entre as três forças de segurança. O objetivo da “Operação Vastum” é combater o furto de cabos elétricos no município, algo que causa imensos prejuízos à administração pública, à sociedade e às empresas, conforme foi bastante frisado no encontro.

É um objetivo bastante justo, pois os prejuízos são grandes, existe um crime organizado e também há risco de vida para os criminosos, que mexem com fios de alta tensão. A vida, vocês sabem, é prioridade. Há, no entanto, algumas questões curiosas acerca da operação. A principal delas é que o real objetivo é dar um susto nos agentes. Outra é a conclusão. Do meu ponto de vista, é um caso sem solução, pelo menos no tipo de sociedade que vivemos. Explico:

As forças de segurança realizaram batidas em sucateiros na manhã de segunda-feira, com o objetivo de apreender material roubado com sucateiros, os principais alvos da operação, que, se flagrados com os materiais, seriam acusados do crime de receptação. A estratégia parece correta, visto que os receptadores são intermediadores e a chave da operação criminosa.

Aconteceu, no entanto, que não foram encontrados materiais roubados nas primeiras batidas e mesmo assim foi chamada a coletiva de imprensa para divulgar a operação. Como não é nada comum que as forças de segurança chamem a imprensa para divulgar algo sem resultado, podemos interpretar que a própria coletiva faz parte da operação. É por isso que a chamei de “Operação Susto”.

O objetivo real é mostrar aos receptadores que “a casa pode cair” se continuarem a fazer vista grossa para vendedores suspeitos. Assim, ao recusarem as ofertas, os próprios sucateiros acabam com o negócio nas ruas, já que, sem ter para quem vender, os ladrões de cabos evitariam o crime. Sobraria o crime organizado de furto de fios e receptação, que a polícia civil daria conta de desmanchar a partir da investigação.

Esta é uma impressão deste jornalista, reforçada por um comentário do tenente-coronel Celso Mlanarczyki, comandante do 8º Batalhão de Polícia Militar. Ele pediu o engajamento da sociedade para denunciar criminosos e pontos de receptação. Segundo ele, há muitos casos em que a comunidade conhece, mas não denuncia. Com a operação conjunta da PM, da Civil e do município, a ideia é reverter o quadro, identificando suspeitos e acuando os receptadores.

Sendo assim, o aspecto mais importante da Operação Vastum, carinhosamente apelidada por mim de Operação Susto, é o barulho. Foi preciso chamar a atenção para a operação, mesmo sem resultados a apresentar. Ao mostrar a cooperação entre as forças de segurança, somada à cooperação da sociedade, espera-se a diminuição desse tipo de crime.

Sem fim

A estratégia pode ser boa, mas tenho uma má notícia para os envolvidos. Os furtos de cabos elétricos, provavelmente, vão continuar. Afinal, não precisa ser muito esperto para saber que os ladrões de fios são, de modo geral, usuários de drogas em situação de miséria que estão atrás de trocados e encontraram um filão de baixa periculosidade para atuar. Na coletiva, eu confirmei a informação com o delegado Fábio Baja, da 1ª Delegacia de Polícia Civil de Joinville. A maior parte dos detidos se encaixava no perfil.

Furtar cabos elétricos é um crime bastante simples. O material está espalhado por toda a cidade, sem vigilância, e é rapidamente substituído. Também não é preciso usar violência, coisa que nem todos os ladrões de fios querem ou conseguem usar, e é necessária em outros crimes. Assaltar um comércio, invadir uma casa para furtar ou roubar uma pessoa na rua é muito mais complicado. Por fim, o mercado absorve o material muito facilmente.

Novamente, não precisa ser um gênio para descobrir que um crime de tamanha simplicidade não vai acabar tão cedo. Pode haver alguma redução ou algum esquema desbaratado, mas o mais provável é que os criminosos substituam, temporariamente, este crime por outro.

Outro caminho

Não estou criticando a operação. Acho que algo precisa ser visto para reduzir os prejuízos decorrentes desses furtos. Contudo, é preciso ter clareza sobre as dinâmicas sociais. Em uma sociedade tão desigual, que aprofunda o fosso entre pobres e ricos e acentua a miséria, será cada vez maior o número de pessoas em situação de rua e de usuários de drogas em situação de miséria que se envolvem com este tipo de crime. O fenômeno é visível no Brasil e no mundo.

Dessa forma, o trabalho das forças de segurança é equivalente a enxugar gelo. Os crimes serão cometidos porque este é o resultado direto da acentuação da miséria. Não há polícia, guarda municipal, segurança privada e equipamento de vigilância que dê conta do volume atual de crimes decorrentes da situação social caótica.

O caminho correto, portanto, é reduzir as desigualdades e a miséria. E isso se faz com impostos progressivos (cobrar mais dos mais ricos e menos dos pobres); com investimentos públicos que geram emprego; com educação e esporte; com políticas públicas de habitação, de assistência social, de saúde (álcool e drogas é questão de saúde); com direitos trabalhistas e muito mais.

Sem isso, só aumentaremos mais o fosso e faremos operações barulhentas que não vão resolver o problema.

Números

Só no ano passado, a Celesc registrou mais de 8 mil boletins de ocorrência e relatou o furto de mais de 20 quilômetros de fios em Santa Catarina. Em Joinville, a estimativa da Secretaria de Infraestrutura Urbana (Seinfra), é que o prejuízo tenha sido de cerca de R$ 100 mil em 2021. Em 2020 e 2021, foram 56 detenções e 41 pessoas presas pelo furto de cabos elétricos em Joinville.

Em janeiro desse ano, Joinville registrou mais de 30 ocorrências em espaços públicos. O furto acontece em diversos lugares, porém, alguns de forma mais recorrente como o Parque da Cidade, Rua das Palmeiras, Ponte do Trabalhador, rua Tuiuti e avenida Beira Rio.

Denúncias

As denúncias podem ser feitas pelos telefones da Polícia Militar (190), da Polícia Civil (181) e também da Guarda Municipal (153).