A política em Joinville: Prefeitura responde trollagem de vereador que tenta, sem sucesso, difamar vacinação

Por Felipe Silveira
Foto: Governo de SP

Troll é um personagem do folclore escandinavo que, na internet, ganhou outra definição. Trata-se de um avacalhador, de alguém que não quer contribuir, mas simplesmente sacanear. E esta é uma boa maneira para descrever o vereador Wilian Tonezi (Patriota) quando o assunto é vacina contra a covid-19. Surfando na onda da extrema-direita antivacina, ele tem ocupado nosso tempo com papo furado sobre o tema.

Na segunda-feira (31), o parlamentar bolsonarista apresentou alguns números de internações em Joinville para dizer que a vacinação não funciona. Segundo ele, a partir de um raciocínio torpe, como metade dos internados tomou a vacina, o imunizante não funciona.

O raciocínio está errado por duas razões. Uma delas por uma questão de proporcionalidade, que, como engenheiro, o parlamentar deveria compreender melhor. Em uma sociedade com mais vacinados do que não vacinados, como a joinvilense, é possível e até esperado que vacinados continuem a ocupar os leitos de hospitais, mas a proporção é diferente. Se não houvesse a vacina, o número de internados e de mortes teria explodido, como aconteceu no passado. Hoje é um número relativamente baixo porque a vacina está fazendo a parte dela.

Como no início da pandemia, há pessoas não vacinadas que mal sentem os sintomas, há aqueles que sentem sintomas leves, há quem fique muito mal e há ainda um percentual de gente que morre por causa da doença. Também há vacinados que morrem por causa doença, infelizmente, mas o percentual de óbitos neste grupo é muito menor do que no primeiro. É uma questão muito simples de ser compreendida.

O vereador bolsonarista também está errado quando analisamos os números que ele mesmo trouxe à tona. Ainda na segunda-feira, logo após o comentário infeliz de Tonezi, a prefeitura enviou o texto com os dados dos internados relacionados à vacinação. Fica claríssimo que a vacina faz efeito, já que, dos 28 internados em UTI, 22 pessoas (78,6%) não haviam recebido a dose de reforço da vacina.

De fato, metade dos internados havia se vacinado e metade não havia. Porém, dos 14 que estavam vacinados, só seis haviam tomado a importantíssima dose de reforço, sendo que os seis apresentavam quadro de comorbidade, um fator que aumenta exponencialmente os riscos de agravamento da doença. Os oito pacientes restantes estavam vacinados com primeira ou segunda dose, o que só reforça a importância da dose de reforço.

Tonezi está errado. Seja por não compreender proporção, seja por não entender que a vacinação completa é um redutor poderoso dos sintomas graves da doença, que ainda assim é séria e pode matar. Mas a grande questão não é se Tonezi está errado, porque isso é evidente para qualquer pessoa com bom senso. O importante é entendermos a motivação do parlamentar bolsonarista. Qual é o seu objetivo ao tentar, sem sucesso, difamar a vacinação?

A resposta está na pergunta. Wilian Tonezi é um radical bolsonarista cuja eleição está totalmente ligada ao sucesso de Jair Bolsonaro. O joinvilense precisa defender as pautas do presidente sob risco de não lhe sobrar capital político. Não é um problema para ele, que aparentemente acredita em tudo que Bolsonaro diz, mas explica parte da obsessão contra as vacinas, já que Bolsonaro é um dos maiores antivacina do mundo hoje.

Se o Brasil tem mais de 628 mil mortes pela covid-19, boa parte da responsabilidade é de Jair Bolsonaro. Por omissão, já que não decretou o isolamento necessário na primeira fase e não comprou as vacinas assim que foi possível, e pela atuação intensa contra as políticas públicas mais séries para evitar a doença. Muita gente morreu porque acreditou em Bolsonaro, que insistentemente difamou a vacinação. E tudo isso sem qualquer grande motivo aparente. Tonezi difama a vacinação porque Bolsonaro difama, apesar de toda insensatez que isso evidencia.

E se a pergunta acima foi fácil de responder, agora deixo uma mais difícil. Por que Wilian Tonezi goza de tanto prestígio junto aos colegas da câmara e junto à prefeitura, como importante membro da base aliada do prefeito? Além de ser pouco criticado pelas posições funestas, ainda recebe boas relatorias e tem boas funções no parlamento. É uma conivência que não faz sentido. Mas, mesmo sem sentido, é uma amostra de que a prefeitura e o parlamento também têm responsabilidade por políticas antivacina estimuladas em Joinville.

A foto usada no topo deste texto é da primeira criança vacinada no Brasil, o indígena Davi Seremramiwe Xavante, que recebeu o imunizante em São Paulo, em cerimônia do governo paulista. É o registro de um bom momento para o país, que dá esperança em um futuro com mais saúde, pois a imunização funciona.


A política em Joinville é uma das colunas de opinião do jornal O Mirante Joinville.