A política em Joinville: Tem um antivacina na saúde, mas ele não chegou lá sozinho

Por Felipe Silveira
Foto: Mauro Artur Schlieck/CVJ

O Brasil tem um tipo curioso de antivacina. O sujeito alega que não é contra, mas reproduz todo o discurso antivacina e apoia políticas contrárias à expansão da vacinação. É o caso de Wilian Tonezi (Patriota), vereador bolsonarista que acaba de assumir a presidência da Comissão de Saúde da Câmara de Vereadores de Joinville (CVJ). Trata-se de um escândalo, de algo que pode ser muito perigoso para a saúde dos joinvilenses, mas é um escândalo que não aconteceu pela vontade da natureza. Neste texto, vamos falar dos responsáveis pela aberração.

Todos os anos, parlamentares se reorganizam nas comissões, nas quais ocorre boa parte do trabalho na câmara. Quando há uma mudança relevante na conjuntura, como a criação de um novo bloco parlamentar, a dança das cadeiras pode ser agitada, mas não foi o caso de 2022. Com predomínio da situação (vereadores aliados ao governo), tudo continuou mais ou menos como estava. A maior mudança foi mesmo a troca de comando na Comissão de Saúde.

Em 2021, a comissão foi presidida por Kiko do Restaurante (PSD). O parlamentar, que não se destaca pela oratória ou pela articulação, ganhou uma vaga na cobiçada Comissão de Legislação e abriu mão da cadeira na saúde. Assim, outro parlamentar da situação, Brandel Júnior (Podemos), entrou e assumiu a secretaria, função que era de Tonezi, que passou à presidência. O médico Cassiano Ucker (Cidadania), da oposição, seguiu como membro.

Wilian Tonezi alega que não é contra a vacina, mas é apenas um truque retórico, uma forma de se blindar das críticas. Além de ser o único parlamentar que não se vacinou, o bolsonarista é um reprodutor de discursos antivacina. No mesmo dia que foi escolhido presidente da Comissão de Saúde, fez o seguinte discurso:

“As pessoas que dizem que a vacinação tem comprovação científica, por favor, protocolem na CVJ o estudo científico, a prova científica, que a vacinação contra covid-19 funciona […] Não existe prova científica”.

É antivacina ou não é quem faz esse tipo de desafio?

O desafio, que não passa de trollagem social, foi a introdução da apresentação de um projeto de lei contra o passaporte vacinal, que o vereador apresentou no final do ano passado. O objetivo, segundo ele, é impedir que empresas demitam quem não quer se vacinar. Curiosamente, está interferindo no “livre mercado”, mas parece que seus apoiadores “liberais” fecharam os olhos para este detalhe. No mesmo discurso, Tonezi chamou a mídia de mentirosa, sugerindo que mentimos sobre a eficácia da vacina. Ele não diz, no entanto, qual é o estranho fenômeno que está salvando vidas e não é a vacina.

Não tenho a menor esperança de que Wilian Tonezi, um radical bolsonarista, pare de falar e de fazer bobagens, mas preciso confiar em um sistema democrático que impeça o avanço de suas ideias para que elas não prejudiquem o todo. E este sistema está falhando. Eis o tema do nosso texto. Quem deveria brecá-lo está incentivando.

No ano passado, quando escrevi sobre a distribuição dos cargos, disse que o “blocão de Peixer” havia ficado com todos os cargos importantes. Neste ano, como você já sabe que nenhuma mudança estrutural houve, pode deduzir que o dedo da presidência novamente teve seu efeito. A distribuição dos cargos é toda costurada por Maurício Peixer (PL), que por sua vez nada costura sem o fio cedido pelo prefeito Adriano Silva.

Peixer e Adriano são políticos conservadores. O primeiro está na política há três décadas e sempre sonhou com a presidência do legislativo. Ele a conquistou justamente em um momento de baixa na política joinvilense, quando a cidade resolver renovar amplamente a câmara. Com 15 novatos na casa e um prefeito eleito no susto, Peixer propôs o casamento que deu certo. E embora já existisse uma relação anterior (Peixer foi administrador da empresa da família de Adriano), foi uma união de interesses. Adriano deu a presidência a Peixer, que por sua vez deu ao prefeito uma confortável maioria.

Em parte, o que os vereadores ganham para compor esse “blocão” são as funções importantes da CVJ. Se há outros ganhos, como a indicação de aliados para cargos em outras áreas, este é um tema que carece de investigação. Dessa maneira, observa-se claramente na distribuição das comissões quem está com o governo e quem não está. Presidente da importante Comissão de Finanças, secretário da importante Comissão de Urbanismo e agora presidente da mediana Comissão de Saúde, sendo relator de alguns dos principais projetos debatidos na CVJ, Tonezi está muito com o governo. Em sua página, inclusive, não há críticas ao executivo.

Tonezi diz que não é contra a vacina. Adriano e Peixer também dizem que não. No caso do primeiro, sabemos que é apenas um truque retórico. Se fosse a favor da vacina não apoiaria aquele que mais joga contra ela, submetendo a população ao risco, enganando o povo com um discurso medonho. Já o chefe do executivo e o chefe do legislativo podem ser a favor da vacinação de verdade, mas falham gravemente ao permitir que um antivacina assuma função tão importante no legislativo.


A política em Joinville é uma das colunas de opinião do jornal O Mirante Joinville.