Um ano de Adriano Silva: Luzes e buraco de Natal (parte 5)

Único prefeito do partido Novo do país, Adriano Silva completa um ano de mandato no dia 1 de janeiro. Neste especial, dividido em cinco partes, O Mirante faz uma análise do governo e das características do novo prefeito à frente da maior cidade de Santa Catarina.

Texto: Felipe Silveira
Foto: Mauro Artur Schlieck/CVJ

Chegamos, finalmente, à última parte do nosso especial sobre o primeiro ano de mandato de Adriano Silva. Como a análise foi feita pelos quatro trimestres do ano, a última fase do governo ainda está fresca na memória dos leitores e das leitoras. Neste texto, além de alguns destaques da parte final do ano, vamos tentar amarrar tudo que discutimos até aqui.


Um ano de Adriano Silva:
As três características do novo prefeito (parte1)
Escolhas ideológicas e jardinagem (parte 2)

O pior momento do governo (parte 3)
O trabalho cotidiano e uma visita maldita (parte 4)

Adriano chegou ao final do ano em boa fase. Distante das crises do primeiro semestre — com os servidores, por causa da reforma da previdência, e da pandemia da coronavírus —, o prefeito andava bem avaliado pelo que fazia no cotidiano. Um projeto aqui, uma obra ali. A vacinação avançava bem e o povo estava um pouco mais animado com a perspectiva do fim da pandemia. Eventos presenciais públicos e privados começavam a ser realizados em maior escala. Assim, Adriano colhia frutos que havia plantado e aproveitava o contexto de início do fim da pandemia. As coisas começavam a ir bem.

Fazia pouco tempo que Carlos Moisés, O Distribuidor, havia visitado a cidade e anunciado recursos para a construção de um elevado. Além disso, topou construir as pontes que Adriano propôs à zona sul. Mesmo que seja verba do governo do estado, o prefeito também recebe louros pelo que acontece na cidade durante sua gestão. Nesse sentido, ele também foi beneficiado por um decreto estadual que tornou o início da obra da Ponte Joinville mais próximo. Se ela sair em breve, ele também terá parte do crédito.

Os projetos de Adriano Silva passaram com tranquilidade na câmara de vereadores, sem grandes polêmicas. Dessa maneira, reduziu impostos, aplicou um projeto de refinanciamento de dívidas, estabeleceu novas regras para parcerias público-privadas e conseguiu aprovação para fazer um empréstimo que, se concretizado, tende a resultar em muito asfalto para a cidade.

Sem grande alarde, mudou a forma de cobrança da tarifa da água e a crise, esperada pela gestão, não aconteceu. Também não houve problema com o salgado reajuste no IPTU. Em Brasília, Adriano buscou recursos para saneamento ao mesmo tempo que a nova estação de esgoto começou a operar. Na cidade, entregou mais títulos de regularização fundiária. Projetos de castração e chipagem agradavam militantes da causa animal. O festival de dança voltou a ser realizado.

Além das realizações da prefeitura, outros elementos contribuíam. Com economia municipal exportadora e inflação alta no país, o desemprego diminuía e a arrecadação aumentava em Joinville. Embora com divergências políticas que fazem parte da dinâmica social, o segundo semestre estava ótimo para Adriano Silva.

Jardineiro e natalino

O atual prefeito lembra um pouco as minhas tias, pelo deslumbramento com que fala de flores e do Natal. Chega a ser engraçado, porque é sincero, mas também é um trunfo político. Deixa a cidade de fato mais bonita, agrada senhorinhas e diverte as crianças.

O prefeito de Joinville começou o ano plantando flor (e virou meme) e fazendo uma maquiagem no centro, alcançando seu objeto de dar uma aparência boa à cidade. Mal sabia ele que um de seus principais problemas, o desabamento na abertura da programação de Natal, nasceria naquele momento. Maquiagem em cima de carcaça podre sempre dá problema.

Fã de Gramado (RS), Adriano começou a organizar um evento especial de Natal no meio do ano. Quanto mais “gramadesco” fosse, melhor. A responsabilidade maior ficou com o secretário de cultura e turismo, Guilherme Gassenferth, outro admirador da experiência gaúcha que também adora esse aspecto mais tradicional da cultura, sempre valorizando o tom germânico da cidade.

E, à exceção de uma crítica mais sociológica, o Natal ficou legal. Beneficiado pelas sobras da Lei Aldir Blanc do ano anterior, o governo local conseguiu destinar parte dos R$ 3 milhões disponíveis para a programação natalina. Com uma decoração caprichada e a sensação pública de fim de pandemia, o centro ficou cheio de famílias ávidas por alguma diversão simples e gratuita.

Porém, se o Grinch existisse, desconfiaríamos que ele passou por Joinville em novembro para destruir os planos de Adriano Silva. Tudo estava perfeito para o prefeito na noite do dia 22, quando um coral de centenas de crianças faria a abertura oficial da programação natalina. Porém, logo que começou o evento tão esperado e planejado por Adriano, o chão se abriu e mais de 30 pessoas, incluindo crianças, foram tragadas para a água podre que corta o centro de Joinville, bem na junção do rio Mathias com o rio Cachoeira.

Logo as pessoas foram retiradas e atendidas, encaminhadas para hospitais, e houve a certeza de que todos estavam bem, o evento continuou. Porém, as chocantes imagens geraram grande revolta que repercutiram nacionalmente. Enquanto os bombeiros procuravam algo na água, o evento corria normalmente na terra.

Não haverá consenso sobre o que aconteceu. Parte da população concorda com a maneira que o prefeito agiu, enquanto outra acha tudo que aconteceu abominável. Eu mesmo tenho opinião variável sobre o tema, embora tenda a atenuar a decisão. Escrevi sobre o assunto poucos dias depois, destacando as duas visões e que faltou tato — senão humano, político — a Adriano naquele momento.

Aprendizado

Um traço de Adriano Silva que vi se formar ao longo do ano foi a capacidade de dar respostas melhores às crises. Tomou um susto no Natal, virou a noite em claro (aparentemente, tamanha as olheiras e a melancolia na coletiva de imprensa do dia seguinte) e ofereceu respostas importantes horas depois. Avaliação de estruturas similares com drones, indenização dos atingidos, entre outras. Não estou falando que foram boas ou ruins, mas é inegável que foram respostas rápidas.

Outro exemplo de crise contornada foi a violência com um vendedor de cocada no terminal central. Uma multa enorme aplicada ao simples comerciante revoltou populares no local e nas redes sociais. Adriano demorou algumas horas, mas encontrou uma solução, pelo menos momentânea, para um problema complexo. Cadastrou os vendedores, que passaram a usar um colete identificador, e limitou o tipo de produto a ser vendido. Assim, continua a agradar os lojistas do centro, que cobram enfaticamente o fim de vendedores ambulantes de quinquilharias que tratam como concorrentes.

Governos nunca estão livres de crise e nem todas as respostas agradam a todos. Até na última semana do ano houve uma relacionada à vacinação. Com a necessidade de dar recesso aos servidores (há protestos quando não há), limitou a aplicação do líquido salvador a uma unidade de saúde central. As filas gigantescas e a distribuição de senhas irritaram o povo, que reclamou bastante. A prefeitura respondeu com mais vacinação na mesma unidade. Foi satisfatória para alguns, mas ainda passível de reclamação. Governos são assim mesmo.

Pontos fortes e fracos

Começamos este especial destacando as características de Adriano Silva e mostramos como elas se manifestaram diante dos fatos ao longo do ano.

O lado performático mostrou-se positivo. Como gosta de aparecer, Adriano acaba informando e dialogando. A população sabe que as coisas estão andando. No contraste com Udo Döhler, o extremo-oposto, o resultado parece ainda melhor. Ainda tenho algumas críticas à comunicação, mas o perfil comunicativo e exibido de Adriano trouxe algo positivo à gestão.

Neoliberal, outro traço de sua personalidade política, Adriano conseguiu aprovar projetos relativos à ideologia, embora limitado pela lógica de que é o Estado que faz diferença na vida das pessoas. Fica difícil criticar o tamanho do Estado quando você precisa dele para fazer um bom governo. Ainda assim, Adriano aprovou uma reforma da previdência, reduziu alguns impostos e avançou em um projeto de PPPs. Entregou alguma coisa para seu público, mas pouco, já que o bom senso não permite muito neoliberalismo.

O prefeito de Joinville faz uma boa gestão do ponto de vista dos projetos cotidianos. Infraestrutura, educação, cultura, zeladoria e outras áreas, mas foi muito mal, mas muito mal mesmo, durante a pandemia. Um semi-negacionismo que evitava a todo custo políticas restritivas e um alarme maior sobre a doença custou muito caro. Custou vidas. Além de tudo isso, abraçou e afagou o maior culpado por tudo isso, Jair Bolsonaro. Não há boa gestão que atenue tais erros.

Que em 2022, com o risco de uma nova variante que agrave a pandemia e uma eleição nacional decisiva pela frente, Adriano Silva não cometa os mesmos erros.