Um ano de Adriano Silva: O trabalho cotidiano e uma visita maldita (parte 4)

Único prefeito do partido Novo do país, Adriano Silva completa um ano de mandato no dia 1 de janeiro. Neste especial, dividido em cinco partes, O Mirante faz uma análise do governo e das características do novo prefeito à frente da maior cidade de Santa Catarina.

Texto: Felipe Silveira
Foto: Prefeitura

Um político deve ser avaliado em pelo menos três aspectos. O primeiro é relacionado com a quantidade e a qualidade do que consegue entregar no dia a dia. O segundo é como ele reage em momentos de crise, em que ficam evidentes princípios e competências. O terceiro é o posicionamento diante do fascismo. Este texto, a quarta parte do especial sobre o primeiro ano de Adriano Silva como prefeito de Joinville, é sobre o primeiro e o último, que puderam ser melhor avaliados no terceiro trimestre do ano.

Um ano de Adriano Silva:
As três características do novo prefeito (parte1)
Escolhas ideológicas e jardinagem (parte 2)

O pior momento do governo (parte 3)

O desejo dos despolitizadores é avaliar a política apenas pelo primeiro aspecto. Se um político entrega obras e projetos, está bom para eles. Mas não pode ser assim. Porque cada escolha do gestor público é uma decisão relevante acerca dos rumos daquela comunidade. Ao escolher o local de uma obra, um imposto para cobrar ou isentar ou o tema de uma campanha publicitária, o político puxa a sociedade para um lado ou para outro. Cada escolha amplia ou diminui a desigualdade social. Cada escolha aproxima ou afasta a sociedade do autoritarismo.

Por tudo isso, a crítica neste especial vai além do comentário sobre o trabalho técnico da gestão de Adriano Silva. De modo geral, à exceção de críticas mais ácidas da esquerda, o governo tem sido bem avaliado no cotidiano. Parte dessa percepção está relacionada ao jeito performático de Adriano, que mencionamos na primeira parte do especial. Como ele está sempre divulgando tudo a todo momento por suas redes sociais, e explicando as dificuldades quando existem, a população vê o trabalho e compreende os problemas. Nesse sentido, é o oposto de Udo Döhler e tem colhido os frutos.

O trabalho cotidiano e a postura diante do fascismo são os temas desta parte do especial pelos acontecimentos do terceiro trimestre de 2021. Passado o período de adaptação da nova gestão e as turbulências provocadas pela greve dos servidores e pela pandemia de coronavírus, Adriano teve tranquilidade para mostrar o seu trabalho à frente da prefeitura a partir da metade do ano. E foi no mesmo período que Joinville recebeu a visita oficial de Jair Bolsonaro.

Comecemos, porém, pelo lado bom.

Foi no terceiro trimestre que a vacina chegou aos braços (em Joinville foi um pouco diferente) dos jovens adultos, o que também trouxe esperança para uma população muito ativa politicamente. Na cultura, a prefeitura anunciou dinheiro para o Simdec e recursos fartos que sobraram da Lei Aldir Blanc, além de começar a planejar seu projeto especial de Natal. Adriano Silva fez a primeira entrega dos certificados de regularização fundiária, um tema caro para camadas mais pobres da cidade. Pela primeira vez como prefeito, foi a Brasília apresentar projetos a deputados e ministros.

Foi também no terceiro trimestre que Adriano conheceu um dos hábitos mais tradicionais dos joinvilenses: chamar o prefeito de burro por causa de qualquer obra de mobilidade. No caso, foi uma pequena rotatória na avenida Marquês de Olinda que causou revolta. Com o tempo, como todas as outras, o povo acaba acostumando e até gosta. Falando em mobilidade, a prefeitura seguiu trabalhando no asfaltamento, beneficiado por financiamentos do governo anterior. Além disso, foi atrás dos próprios financiamentos para obras futuras.

Adriano também recebeu o governador Carlos Moisés, O Distribuidor, em setembro. No encontro de bombeiros-políticos, o voluntário levou o militar para locais em que quer construir pontes, na zona sul de Joinville. Recebeu a sugestão de que poderia pedir mais, o que se confirmou no final do ano, quando um novo plano estadual foi anunciado com previsão de mais de R$ 600 milhões em obras na cidade. Além da sugestão, Moisés deixou alguns recursos à época: para a construção de um palácio das orquídeas e para um elevado no Distrito Industrial.

Em suma, Adriano conseguiu mostrar mais do seu trabalho no terceiro trimestre, tanto por articulação política (em Florianópolis e em Brasília) quanto por projetos no dia a dia. Cada obra e cada proposta devem ser avaliadas individualmente, podendo haver divergências sobre a qualidade de cada coisa, mas, em uma visão mais geral, pode-se dizer que o prefeito viveu um bom momento no período.

Visita indesejada

Jair Bolsonaro é um fascista. Há quem finja que não, imaginando que o afastamento ou enfrentamento ao presidente possa ter consequências negativas entre seu eleitorado fanático, e há quem não saiba que ele é um fascista — por falta de visão ou outras questões menos justificáveis. Em alguns casos, no entanto, é difícil saber o que é ignorância e o que é fingimento.

Adriano Silva não se vestiu de bolsonarista na campanha à prefeitura de Joinville, em 2020, apesar da popularidade do presidente. No segundo turno, sucumbiu à pressão e mostrou-se mais conservador. Na cidade que deu mais de 83% dos votos a Bolsonaro no segundo turno, parecia válido apelar. Do ponto de vista da análise política, apesar de desagradável, tratava-se de um pragmatismo compreensível. Estaria tudo bem se essa relação não piorasse ao longo do governo.

Em julho, escrevi sobre a estranha aproximação de Adriano Silva ao decadente Jair Bolsonaro. Rejeição ao impeachment (contra posição oficial do partido Novo), visão otimista do governo federal, defesa do voto impresso, parcial negacionismo na pandemia (tema do texto anterior deste especial) e presença em feira de armas ao lado de parlamentar bolsonarista foram as motivações. E, se não bastasse tudo isso, o prefeito recebeu o presidente com bastante entusiasmo no mês seguinte.

Dínamo de desinformação e desgraça, Bolsonaro visitou Joinville em 6 de agosto, desta vez sim o mês do desgosto. Foi bajulado de todas as formas. Adriano o recebeu no aeroporto e o levou ao Perini Business Park, onde cerca de 400 puxa-sacos se reuniram em local fechado, dando péssimo exemplo em uma situação de pandemia. Depois foram à sede do Corpo de Bombeiros Voluntários, onde Bolsonaro recebeu uma comenda da corporação e ouviu um discurso emocionado de Adriano. E, mais uma vez, Bolsonaro não entregou nada para a cidade, fazendo todo mundo de bobo.

Algum pragmatismo justifica o encontro de um prefeito com o presidente, embora pudesse ser evitado, como muitos fizeram, mas nada explica a bajulação. No caso de Adriano Silva, a aproximação desde o segundo turno da campanha, passando pelo negacionismo da pandemia e culminando na bajulação da visita, foi reveladora de sua postura diante do fascismo.

2 a 1

Para quem só se importa com o que o governante entrega — obras, projetos e boa gestão do que já funciona —, Adriano Silva tem feito um bom trabalho, embora sujeito a críticas pontuais. Mas a política não se resume a isso. Pelo contrário, olhar só para a “gestão técnica” é despolitizante. Nesta, Adriano está indo bem, mas há outros dois aspectos a avaliar.

Durante a pior crise da pandemia de coronavírus, Adriano reproduziu parte do comportamento nocivo de Bolsonaro. Embora se porte como democrata na maior parte do tempo, com erros e acertos, os momentos de crise mostram mais do político. E Adriano se saiu mal. O outro aspecto a ser avaliado é a postura diante do fascismo, atualmente personificado em Jair Bolsonaro. E Adriano mais uma vez foi muito mal. Por enquanto, o placar da avaliação de Adriano Silva está em 2 a 1.

Nesta sexta-feira, 31 de dezembro, último dia do ano, O Mirante publica a última parte deste especial. Além de avaliar o último trimestre do ano, com o marcante desabamento da calçada no Natal, o texto fará uma síntese do que foi abordado nesta série.