Um ano de Adriano Silva: O pior momento do governo (parte 3)

Único prefeito do partido Novo do país, Adriano Silva completa um ano de mandato no dia 1 de janeiro. Neste especial, dividido em cinco partes, O Mirante faz uma análise do governo e das características do novo prefeito à frente da maior cidade de Santa Catarina.

Texto: Felipe Silveira
Foto: Prefeitura

No futuro, se perguntarem para Adriano Silva sobre o pior momento do governo, talvez ele lembre do desabamento da calçada logo no início da abertura da programação natalina. Pelo impacto das imagens, pelo potencial da tragédia, pelo fator inusitado em uma data tão esperada e festiva e pela repercussão negativa. No entanto, o momento mais terrível foi diluído ao longo de cinco meses meses, de março a julho, quando a pandemia estourou em Joinville. Em alguns dias desse período, leitos foram improvisados e médicos tiveram que escolher pacientes para viver e para morrer. No auge da pandemia de coronavírus, Adriano foi omisso, falou bobagem, tomou decisões erradas e foi responsável por um resultado trágico.

Um ano de Adriano Silva:
As três características do novo prefeito (parte1)
Escolhas ideológicas e jardinagem (parte 2)

O eleito em 2020 nem mesmo tinha assumido quando pediu a flexibilização de regras relacionadas à pandemia. Foi um péssimo indício de algo que se confirmou no governo. Seu primeiro decreto municipal foi a ampliação dos horários para bares, em janeiro. Ao longo do ano, Adriano sempre optou pela maior abertura possível na situação, quase sempre adequada ao regramento do governo estadual, sobre o qual tinha liberdade para ser mais restrito.

Quando começou o novo governo, a pandemia “estava na baixa” e a vacinação já havia começado. Também já se sabia como lidar melhor com a doença, tanto do ponto de vista clínico quanto do social, priorizando lugares abertos e uso de máscaras. A despeito de Jair Bolsonaro, um dínamo de desinformação e desgraça, havia esperança de dias melhores. Porém, no início do ano também estava claro que as aglomerações das festividades de verão (encerramentos, Natal, Ano Novo e Carnaval) transformariam o cenário. Também já se sabia da variante de Manaus que, espalhada pelo Brasil, desatinaria a estrutura pública.

No final de janeiro, um grave acidente de ônibus, com passageiros que vinham do norte do país, espalhou a nova versão do vírus pela cidade. Não foi o único fator, mas foi relevante. A chegada era questão de tempo e se preparar para ela era necessário. Como a preparação foi insuficiente e a chegada foi de supetão, a variante bateu forte na cidade.

Março foi um mês terrível. Foram 288 mortes pela doença, de acordo com os números da prefeitura à época (pode ter havido revisão). Com leitos improvisados, atendimentos precários e equipes exaustas, houve um momento em que médicos tiveram que decidir quais pacientes receberiam atendimento adequado e quais morreriam. A informação foi confirmada pelo secretário de saúde, Jean Rodrigues de Silva, ao jornal Notícias do Dia.

Naquele mês, ao mesmo tempo que anunciou o colapso do sistema, Adriano negou enfaticamente a possibilidade de um lockdown, que é a medida mais efetiva para reduzir o contágio de forma imediata. O lockdown não é sustentável em médio e longo prazo, mas foi a forma que o mundo encontrou para segurar a pandemia. O Brasil, sob comando de um psicopata, teve que contar com a precária sabedoria de prefeitos e governadores. E a decisão de Adriano custou caro.

Em agosto, quando Joinville registrou 100 mil casos da doença, fiz as contas. À época, com casos confirmados em 16,7% da população, Joinville tinha números piores do que o estado (15,3%) e do que o país (9,2%). A cidade era, portanto, no âmbito da pandemia, um dos piores lugares do Brasil, que por sua vez era um dos piores lugares do planeta.

Ao longo desses meses tenebrosos, Adriano cometeu diferentes vacilos. Já em março, escrevi que ele estava fazendo tudo errado, mas a continuidade foi pior. Publicou vídeo no parque, todo sorridente, com pessoas sem máscaras ao fundo, o que repercutiu nacionalmente. Também postou foto tomando açaí, na praia, em um momento terrível que a cidade vivia. Deu outros exemplos ruins, usando máscaras de pano e fazendo reuniões em lugares fechados. Adriano ainda demorou muito para fazer campanhas de conscientização efetivas acerca da pandemia. E, nada disso foi tão grave quanto manter e divulgar o “centro de tratamento precoce” (uma mentira bolsonarista que levou muita gente à morte) e a elogiar o crápula presidencial, o grande responsável pelo número altíssimo de mortes no país.

Para ser justo, contudo, é necessário reconhecer o esforço do prefeito de Joinville pela vacinação. Entre erros e acertos que cada pessoa julga como acha melhor, Adriano se empenhou em vacinar a população. Aceitou a proposta de voluntários para criar um sistema de agendamento que evitou filas (exceto poucas exceções), criou uma central no Centreventos e outra no Boa Vista e espalhou a vacinação pelos postos de saúde da cidade. Pode-se acusar Adriano de tudo, mas não de não ter incentivado a vacinação.

O segundo trimestre foi o pior momento para Joinville e para Adriano Silva em 2021. Em março, o sistema de saúde colapsou e as coisas só começaram a entrar nos eixos na metade do ano. Adriano cometeu muitos erros ao mesmo tempo que lidava com as movimentações dos servidores em torno da reforma da previdência, batalha que acabou vencendo. As duas questões certamente ocuparam o tempo do prefeito e ele não apresentou grandes novidades em outras áreas. Isso mudaria um pouco no terceiro trimestre, quando as coisas começaram a melhorar, mas esse é o tema do próximo capítulo.