Um ano de Adriano Silva: Escolhas ideológicas e jardinagem (parte 2)

Único prefeito do partido Novo do país, Adriano Silva completa um ano de mandato no dia 1 de janeiro. Neste especial, dividido em cinco partes, O Mirante faz uma análise do governo e das características do novo prefeito à frente da maior cidade de Santa Catarina.

Texto: Felipe Silveira
Foto: Prefeitura

Na abertura deste especial, falamos das três características de Adriano Silva e prometemos dividir o restante da análise nos quatro trimestres do ano. Este texto, portanto, deveria falar dos meses de janeiro, fevereiro e março. Mas, para compreender o início do governo, é preciso voltar no tempo. Afinal, as escolhas do novo prefeito começaram a ser feitas na noite de 29 de novembro, data do segundo turno da eleição. Naquele momento, o político que entrou em uma campanha improvável se viu de fato na direção de Joinville e com um orçamento bilionário na mão. Uma campanha sem compromisso de vitória havia se tornado uma gestão decisiva para o futuro do partido.

E os traços do projeto começaram a aparecer já em dezembro. Diferente de outros, o partido Novo não tinha ou não tem quadros históricos (quadro é um termo da política para designar pessoas trajetórias e conhecimentos relevantes) para ocupar um governo que caiu no colo — por mérito e por sorte. Em uma sigla tradicional ou em uma coligação, se você não acomodar aqueles que contribuíram com a vitória e os quadros relevantes do partido, você cria uma instabilidade interna que pode complicar lá na frente. Ademais, os partidos tradicionais entendem que têm pessoas competentes para ocupar as funções principais.

Com a necessidade de acomodar um pequeno grupo que trabalhou na campanha e ao mesmo tempo encontrar quadros competentes para a administração, o partido Novo e o prefeito Adriano criaram uma estratégia perfeita para suprir as necessidades e ainda fazer propaganda do que seria um novo jeito de governar: o processo seletivo. Foram 8.585 currículos recebidos de todo o país e muita agitação em torno das cobiçadas vagas na gestão municipal.

E foi assim que muita gente que atuou na campanha foi para o governo. O primeiro anunciado foi Gilberto Leal, coordenador da campanha de Adriano, para a Secretaria de Governo. Candidato a vereador pelo Novo e dono de uma padaria, Ricardo Mafra recebeu a principal secretaria do município, a de administração e planejamento. Guilherme Gassenferth, que já havia sido secretário de Udo Döhler e há mais de um ano se dedicava à campanha do empresário, foi para a cultura. Além deles, outros nomes atuantes da campanha foram distribuídos por escalões menores. São pessoas competentes em suas áreas, mas não se pode negar o caráter político e pragmático dessas escolhas.

O resultado do processo seletivo também mostrou como o governo aplicaria a ideologia do partido na prática. Praticamente todos os secretários repetiram em seus discursos iniciais um papo “contra burocracia”, uma cantilena neoliberal que, no fundo, significa redução de regras para que ricos fiquem mais ricos enquanto exploram trabalhadores e meio ambiente. Cito como exemplo dessa operação ideológica a escolha de Schirlene Chegatti para a Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente (Sama). Embora tenha todos os pré-requisitos curriculares, de formação e experiência, Chegatti tem como destaque em sua carreira a luta para a liberação da areia de fundição em outras obras, um tema muito caro para ambientalistas e que conta com muito lobby empresarial. Ao escolhê-la, Adriano deu um sinal claríssimo do tipo de política ambiental que pretendia adotar.

Falando em empresário, Joinville trocou um por outro na eleição de 2020. Udo Döhler, do MDB, viveu bons momentos na prefeitura, mas encerrou o segundo mandato de maneira melancólica. Perdeu a oportunidade de concorrer ao governo do estado em 2018, foi omisso na pandemia e viu a rejeição aumentar significativamente, apontado como responsável por deixar uma cidade feia, cheia de buracos e difícil de empreender. Mas, embora Adriano tenha sido bastante crítico do antecessor na eleição, a transição foi muito tranquila, de classe para classe. Udo nem escondeu a satisfação de passar a faixa para uma versão mais nova e turbinada de si mesmo. E, além dos afagos trocados com sotaque germânico, Adriano manteve alguns secretários municipais de Udo. Jean Rodrigues da Silva continuou à frente da saúde, Cinthia Friedrich seguiu na gestão de pessoas e Flávio Martins Alves manteve o comando na Fazenda.

O processo seletivo, sem dúvida, foi uma grande peça de propaganda do governo Adriano Silva. Quando o pré-candidato a presidente pelo partido Novo, o cientista político descendente de barões do café Felipe d’Ávila, esteve em Joinville, perguntei a ele sobre a gestão do Novo e a forma de escolha do secretariado foi a única coisa que ele soube destacar.

No fim, as escolhas foram políticas, embora com certo aspecto técnico, como costumam ser as escolhas da história da política. Além de propaganda, o processo seletivo foi a primeira amostra do estilo de Adriano Silva à frente do governo: escolhas políticas que não são assumidas como tal, bastante marketing e muita ideologia.

Ah, além de tudo isso, como todos os escolhidos eram brancos, o processo de seleção também mostrou que a diversidade não foi levada em consideração.

O governo

Como já foi dito na primeira parte, Adriano teve um início de ano da maneira mais joinvilense possível — com alagamento — e respondeu da maneira mais Adriano possível — com performance. Depois de contribuir com a limpeza do museu alagado, trocou de roupa e foi para a posse, na câmara de vereadores. Em seu discurso, depois de muitos agradecimentos, disse que a política é lugar de boas pessoas, prometeu governar para as pessoas e falou sobre um tema que se transformaria em meme nos meses seguintes.

Quem nunca viu brincadeiras relacionadas ao “prefeito jardineiro” não acompanha a política municipal. Eu vi tantas que até enjoei e passei a achar chato. Há muitas críticas a fazer ao prefeito e praticamente todas foram obliteradas por esse tipo de comentário. Porém, a brincadeira existe por um motivo bem concreto. Em dado momento, Adriano exagerou na importância dada ao embelezamento da cidade.

As primeiras iniciativas de Adriano à frente do governo foram os mutirões de embelezamento, nos quais a prefeitura mobilizou comissionados, servidores, parceiros e comunidade para dar uma ajeitada em praças e ruas da cidade. Logo que pode, Adriano passou uma camada de asfalto onde as travadas obras de macrodrenagem do rio Mathias haviam causado estresse de empresários e população. A cada nova parceria com empresas locais que abraçavam pracinhas e canteiros, o primeiro escalão exaltava a iniciativa privada com algum exagero, sempre com uso intenso das redes sociais. Assim, a importância que Adriano deu à zeladoria, o êxtase com uma atividade simples, logo viraram chacota, principalmente no contraste com dois problemas sérios que se agravavam.

Os principais problemas eram dois. A pandemia de coronavírus e uma atropelada reforma da previdência dos servidores públicos que havia protocolado na câmara logo no início do governo. Quando Adriano assumiu, a pandemia era grave, mas vivia-se naquele momento a melhor situação desde o março anterior, quando o vírus chegou ao Brasil. Com as festividades do verão, em um momento de baixa dos cuidados, o agravamento era uma questão de tempo.

Logo no início do ano, Adriano apresentou sua proposta de reforma da previdência dos servidores públicos municipais, aquela que moldaria a previdência de Joinville à trágica reforma nacional aprovada pelo Congresso no ano anterior. A greve organizada pelo sindicato municipal ocorreu em um piscar de olhos diante da proposta, jogando areia na engrenagem da máquina pública cuja tarefa do prefeito é azeitar.

O confronto entre servidores e prefeito se estendeu pelo ano, sendo travado na câmara de vereadores, consolidando oposição e situação. Ao final, Adriano venceu o cabo de guerra, pois o déficit atuarial que ele alegava existir foi confirmado pela consultoria independente contratada pelo Sinsej. A entidade não só confirmou como apontou que o déficit era maior do que o calculado inicialmente. Contudo, apesar da vitória, o prefeito saiu com enorme desgaste entre os servidores públicos.

Apesar de alguns trancos e barracos, o ano começou bem para Adriano Silva. Com uma transição tranquila, maioria na câmara e pandemia na descendente, tudo ia se ajeitando. Só que a paz durou pouco. As festividades de verão (do Natal ao Carnaval), um “negacionismo moderado” do novo prefeito (pediu flexibilização de medidas antes de assumir) e uma nova variante aceleraram o contágio. Março, o último mês do trimestre, já seria caótico. E seria apenas o começo de uma fase terrível para Joinville e para o prefeito.

Além do avanço da pandemia, foi em março que aconteceu o incêndio no prédio principal da Cidadela Cultural Antarctica. Assim, o governo que vinha se promovendo pela zeladoria — algo positivo apesar das inevitáveis brincadeiras com o deslumbramento de Adriano — teve que lidar com o evento que o transformava no contrário: relapso com o patrimônio histórico e cultural.

Mas este era só o início do pesadelo. No próximo capítulo deste especial, vamos falar sobre o segundo trimestre do ano, o pior de Adriano Silva neste primeiro ano de governo e o pior para Joinville, que perdeu muita gente para uma doença que poderia ser melhor controlada por um poder público mais responsável em todas as esferas.

Erramos

No primeiro texto deste especial, escrevi que a vice-prefeita Rejane Gambin havia participado da limpeza do Museu de Sambaqui no primeiro dia do ano, mas ela não estava lá. Adriano estava com a esposa. Agradeço a correção e peço desculpas pelo erro.