Um ano de Adriano Silva: As três características do novo prefeito (parte 1)

Único prefeito do partido Novo do país, Adriano Silva completa um ano de mandato no dia 1 de janeiro. Neste especial, dividido em cinco partes, O Mirante faz uma análise do governo e das características do novo prefeito à frente da maior cidade de Santa Catarina.

Texto: Felipe Silveira
Foto: Redes sociais de Adriano Silva

Eleito em novembro de 2020, na atípica eleição em meio à pandemia de coronavírus, o prefeito Adriano Silva foi recebido por Joinville da maneira mais joinvilense possível. Na virada do ano, uma chuva torrencial, que durou horas, alagou parte da cidade. O rio Cachoeira, que corta a cidade na diagonal, da zona noroeste à sudeste, transbordou e impediu que milhares de pessoas pudessem voltar para suas casas na noite que era para ser festiva, mas terminou com muito trabalho para muita gente.

E Adriano respondeu da maneira mais Adriano possível. Pela manhã, estava no Museu de Sambaqui, de vassoura. A foto foi para a rede social, com discurso sobre mão na massa e retomada de um suposto espírito joinvilense de engajamento social que depois marcaria as declarações do prefeito pelo ano.

Performático é o jeito de ser de Adriano. Ele gosta de aparecer, de mostrar qualidades, de estimular sua equipe e seus eleitores por meio desse marketing pessoal. Não é uma qualidade, mas também não é um defeito. Seria algo ruim se fosse mentiroso, se colocasse roupa de gari ou outra para performar, se fingisse ser algo diferente do que é. Mas Adriano é assim mesmo. Exibido, mas honesto nessa exibição. Não finge ser o que não é.

Outro traço relevante de Adriano Silva é que, apesar de muito rico, é um sujeito bastante simples, sem afetações típicas da classe que integra o 1% de privilegiados do país. Tive esse vislumbre na apuração do primeiro turno da eleição, que acompanhei na sala de sua casa, ao lado de sua família. Na ocasião, a equipe de campanha havia reservado a garagem para a imprensa, mas a demora na apuração fez com que logo Adriano abrisse as portas do espaço familiar, no qual todos foram muito bem tratados. Ao longo do governo percebi que Adriano é, de fato, “simplão”. Eventualmente é quase ingênuo, a ponto de não perceber situações que podem lhe constranger politicamente.

Mas, apesar desta relativa simplicidade e do marketing pessoal inocente, Adriano tem uma característica bem mais determinante de sua personalidade. Empresário de uma das famílias tradicionais da cidade, ele é um ricaço neoliberal. Pertence a uma classe e engrossa suas fileiras na famosa batalha que movimenta a humanidade. Talvez nem entenda conceitualmente sua classe social, mas a ela pertence e por ela luta. Suas ações políticas, portanto, estão todas atreladas a esta característica.

É por ser um ricaço neoliberal que Adriano Silva se tornou o primeiro prefeito do partido Novo do país. Criada em 2011, a sigla que se atrelou à cor laranja tem como princípio a defesa de uma face mais direitosa do liberalismo. Ou seja, neoliberalismo e suas bobagens, como “imposto é roubo” e “Estado é ineficiente”. Além disso, agregou algumas manias à plataforma, como um processo seletivo para ser candidato e a recusa do fundo eleitoral. Dessa forma, atraiu uma parcela de brasileiros parecida com Adriano Silva. Gente que não precisa de dinheiro, que defende um sistema que privilegia as classes dominantes (ao criticar impostos e atacar um Estado distribuidor) e que dá importância exagerada a coisas desimportantes da política (como economia de cafezinho).

Com essa plataforma e a atual estrutura (falta capilaridade ao partido de certa forma elitista), os laranjas são mais focados nas eleições legislativas, mas também concorrem às eleições majoritárias. Ganharam algum destaque em 2018, quando o banqueiro João Amoêdo concorreu à presidência da república. Na ocasião, elegeram o governador das Minas Gerais, Romeu Zema. E, tanto um quanto outro, assim como os deputados da sigla, evidenciaram que o liberalismo do Novo é bem rastaquera. Ao se aliar ao evidentemente fascista Jair Bolsonaro, ou ao menos se omitir diante daquela escolha nada difícil, o partido abdicou de qualquer liberalismo.

Adriano Silva não foi muito bolsonarista na campanha à prefeitura. Se mostrava como conservador nos costumes e liberal no campo econômico, mas também lgbt-friedly com certa distância de Bolsonaro. No segundo turno, ao enfrentar o super-bolsonarista e experiente legislador Darci de Matos (PSD), abraçou Jair com mais veemência. Foi, no entanto, durante o governo, que o único prefeito do Novo do país fez questão de receber o presidente com brilho nos olhos. Mesmo que o cargo exija alguns sacrifícios, ficou evidente que Adriano o recebeu de braços abertos, o que não deveria ser feito por ninguém do campo democrático.

Ser um marqueteiro de si mesmo, simples ao ponto de parecer ingênuo e um (neo)liberal do partido Novo que abraça Bolsonaro são as características de Adriano Silva destacadas neste especial. A ideia é mostrar como elas se manifestaram, se combinaram e resultaram em ações ao primeiro ano de mandato. Nos próximos textos, que serão publicados ao longo da semana, veremos como isso aconteceu nos quatro trimestres de 2021.

Erramos

Na primeira versão deste texto, escrevi que a vice-prefeita Rejane Gambin havia participado da limpeza do Museu de Sambaqui no primeiro dia do ano, mas ela não estava lá. Adriano estava com a esposa. Agradeço a correção e peço desculpas pelo erro.