A política em Joinville: A decisão, as consequências e a falta de tato de Adriano Silva

Por Felipe Silveira
Foto
: Prefeitura

Em um momento de festa, o chão se abre e mais de 30 pessoas, incluindo crianças, caem em um rio sujo, em meio a ferro, concreto e pedras, com uma água imunda batendo no peito. Os bombeiros atendem as vítimas e logo chegam à conclusão de que está tudo bem, que ninguém se ferira gravemente e que todos já haviam recebido o devido atendimento. O dono da festa bota a música para tocar e segue o baile, certo?

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Errado! Pelo menos do ponto de vista político, conforme se pode perceber nas horas seguintes. A enxurrada de críticas nas redes sociais, a convocação de uma reunião com secretários e vereadores e a realização de uma coletiva de imprensa para mostrar que está dando uma pronta-resposta ao caso, na qual o prefeito pareceu bastante abatido, evidenciam que esta também é uma percepção (naturalmente não assumida) na prefeitura.

Para quem não sabe do que se trata o caso acima, estamos falando do lançamento do Natal Cultural de Joinville, na noite de segunda-feira (22), marcado por um triste acontecimento que deixou 33 pessoas com ferimentos leves. Logo no início da solenidade, a calçada em que elas estavam, sobre uma galeria que desemboca no rio Cachoeira, desabou. As pessoas caíram na água e precisaram de socorro rápido e atendimento médico. O prefeito Adriano Silva, que é bombeiro voluntário, fez uma pausa, mas logo deu continuidade ao evento que tem sido tratado como uma prioridade para o governo.

Prefeito convoca secretários e vereadores para reunião de emergência na manhã de terça-feira – Foto: Prefeitura

Para entender os motivos e os efeitos da decisão — e localizar o erro de Adriano Silva — é preciso entender que houve duas percepções muito amplas e totalmente distintas do acidente. Uma no local e outra nas redes sociais, e as duas muito relevantes. A crítica nas redes, aliás, não veio somente da oposição ou de pessoas que criticam qualquer político, mas do cidadão e da cidadã comuns, chocado com a continuidade do evento diante daquelas imagens.

Nas redes sociais, nos grupos de Whatsapp, já é consenso que faltou sensibilidade e empatia ao prefeito. Olhando as imagens assustadoras pela telinha do celular, parece inconcebível que Adriano tenha prosseguido. A primeira imagem que circulou foi do amontoado de pessoas no buraco, logo após a queda. Na sequência vimos imagens das pessoas sendo retiradas, de adultos e crianças sujos de lodo, do momento em que o chão se abre e uma aterradora dos bombeiros procurando vítimas no rio. Enquanto recebíamos as imagens em todas as redes sociais e grupos, uma informação desencontrada sobre uma criança que estaria gravemente ferida também circulava.

Naquele momento, nas redes, só se torcia para que não houvesse vítimas fatais ou feridos em estado grave. Era muito inconcebível, para todos nós, que o evento seguisse naquelas circunstâncias. Aliás, além de torcer para que todos estivessem bem, xingava-se muito nas redes. Os prefeitos envolvidos na obra, especialmente Udo Döhler, que a executou, e quem mais estivesse envolvido. Eu, particularmente, xingava a obra, que sempre detestei (canalizar rios é sempre uma péssima ideia).

Mas se nas redes sociais o clima era de revolta, no local era outro. Pelo que conversei e dos relatos que ouvi, no local logo se concluiu que estavam todos bem, todos atendidos, e que a cerimônia poderia mesmo continuar. Havia também alguma expectativa pelo evento, já que muitas famílias levaram as crianças para ver o espetáculo natalino e outras famílias foram ver as próprias crianças realizar o espetáculo. E a informação que o público tinha, afinal, era de que todos estavam bem. Informação preliminar que se confirmou mais tarde, inclusive.

Durante a coletiva de imprensa desta terça-feira (23), Adriano afirmou que não daria continuidade ao evento se houvesse feridos em estado mais grave. Na pausa que durou meia hora, ele teve certeza, pelas informações dos bombeiros, que se tratavam de ferimentos leves. Para tomar a decisão de continuar, levou em consideração a expectativa das crianças do coral e do imenso público que foi ao evento. E havia mesmo, conforme os relatos de conhecidos que levaram os filhos. Um outro motivo para dar continuidade é que a dispersão, no momento, poderia ser inadequada e até caótica, levando pessoas ao local da queda, o que atrapalharia ainda mais os trabalhos de atendimento.

Bombeiros auxiliam peritos na avaliação do local da queda – Foto: Bombeiros Voluntários

Percebamos, portanto, que havia essas duas percepções, igualmente relevantes, e uma decisão a tomar.

É neste ponto que chamo a atenção para a falta de tato político de Adriano Silva. Sim, de tato político, pois a falta de tato humano, de sensibilidade e de empatia é uma percepção individual de cada um. Do meu ponto de vista, a garantia de que não havia feridos em estado grave, dada pelos bombeiros, é um atenuante a ser considerado. Ao mesmo tempo, as imagens assustadoras e a continuidade do evento após meia hora de pausa passaram uma ideia muito ruim. Se foi ou não um acerto técnico, foi uma decisão política ruim.

Adriano Silva é um político inexperiente que, em um golpe de sorte que juntou momento histórico e alguma competência, conquistou a maior cidade de Santa Catarina. É um desafio e tanto. E nesse desafio vai somando algumas gafes, como o convite para conhecer o novo parque com pessoas sem máscara ao fundo, uma recepção calorosa para a pior pessoa da terra e uma gestão desastrosa da pandemia (bem mais grave que uma gafe). Na segunda-feira, somou mais uma.

Ao dar prosseguimento de maneira tão rápida, ansioso para mostrar o evento do qual não parou de falar nas últimas semanas, Adriano passou uma imagem de si mesmo muito ruim. E foi massacrado nas redes sociais. Mesmo que tivesse certeza absoluta de que todos estavam bem, produziu um fato negativo para si. Em vez do bombeiro que para tudo para priorizar o atendimento e dar o devido respeito ao momento traumático, passou a ideia de que o evento era mais importante.

Se à mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta, ao prefeito não basta ser bombeiro. Tem que tomar a decisão e passar a imagem certa nos momentos de crise.

Vítimas

Ao todo, segundo nota da prefeitura na noite de segunda-feira, 33 pessoas foram encaminhadas a dois hospitais da cidade. Do total, 22 foram para o Hospital Municipal São José (21 adultos e uma criança) e onze crianças foram encaminhados para o Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria.

Para o São José foram dez homens, com idades de 15, 22, 29, 29, 29, 31, 39, 46, 58 e 67 anos, e onze mulheres, com idades de 18, 22, 22, 27, 27, 29, 38, 43, 44, 51 e 70 anos, além de uma menina de 9 anos. Todos estes pacientes receberam alta médica ainda na noite de segunda-feira (22).

O Hospital Infantil recebeu seis meninas, com idades de 2, 3, 4, 4, 6 e 9 anos, e cinco meninos, com idade de 1, 3, 3, 6 e 11 anos. O estado de saúde de todos os pacientes é considerado estável.


A política em Joinville é uma das colunas de opinião do jornal O Mirante Joinville.