Empresário diz que paga milícia (bandidos) para fazer segurança no centro de Joinville

Texto: Felipe Silveira
Foto: Mauro Artur Schlieck/CVJ
Informações: Jornalismo da CVJ

“Há mais de 20 anos pago R$ 300 por mês para a milícia”; “A milícia defende minhas lojas”; “A milícia mete o sarrafo”; “Não é só no Rio de Janeiro que tem milícia”.

As frases acima foram ditas pelo empresário Alexandre Brandão, ex-presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Joinville. Milícia é um tipo específico de crime organizado, que, de modo geral, envolve agentes e ex-agentes de segurança pública que fazem uso da força de maneira inconstitucional, cometendo crimes violentos (espancamentos, tortura, assassinato) e extorsão. Uma espécie de versão brasileira da máfia.

Brandão fez o comentário ao endossar outra sugestão de crime feita por outro empresário do comércio. Adelar Correa pediu que a polícia “desse uma volta” com suspeitos de crimes na região central, o que foi claramente entendido como uma sugestão de prática violenta pela polícia militar. No comentário de Brandão, a sugestão do uso da violência ficou mais explícito. Veja a fala completa a partir de 1h02 do vídeo abaixo.

Os comentários foram feitos em audiência pública da Comissão de Proteção Civil e Segurança Pública da Câmara de Vereadores de Joinville (CVJ), realizada a pedido dos vereadores Ascendino Batista (PSD) e Maurício Peixer (PL). Além de lojistas, encontro contou com representantes da Polícia Militar e da prefeitura.

A revolta de empresários e cidadãos é bastante compreensível, dada a situação da região central, bastante abandonada, sem agentes de segurança e com registros frequentes de abordagens por usuários de drogas. A cobrança por mais efetivo policial foi uma constante no encontro. No entanto, a confissão e a apologia ao crime deve, no mínimo, ser investigada pelo Ministério Público.

Presidente da comissão responsável pela audiência, Ascendino declarou que o crescimento da população de rua é o retrato da miséria social que se aprofunda no país. Para ele, é reação aos altos índices de desemprego, arrocho salarial, consumo de entorpecentes, violência e falta de políticas públicas eficientes.

Presidente da CVJ, Maurício Peixer constantemente discute o tema e também defendeu a assistência social como uma das ferramentas para resolver o problema, criticando os discursos que defendem “jogar fora o morador de rua”.

Bronca da PM

O comentário de Brandão não foi atenuado pela Polícia Militar. Comandante do 8° Batalhão da Polícia Militar, o tenente coronel Celso Mlanarczyki Junior deu uma bronca no empresário. “Essas sugestões são totalmente fora da realidade”, disse o policial militar sobre a sugestão de “voltinha”, explicando alguns detalhes do sistema judiciário. Já sobre a milícia, Mlanarczyki Junior disse que esse tipo de organização não existe aos moldes como Brandão sugeriu, similar ao Rio de Janeiro.

Brandão reclamou do comentário do comendante da PM, em áudio inaudível, e tomou nova bronca.

“O senhor não tem que dar tanque de gasolina para mim e para polícia nenhum. O senhor não precisa dar nada. O que o senhor precisa fazer é não dar dinheiro para um vagabundo e o vagabundo compra uma arma para atirar em outra pessoa”, determinou o PM, explicando que uma das consequências é a morte de inocentes. Veja a fala do comandante a partir de 1h20.

Números

De acordo com dados apresentados pelo comandante do 8° BPM, entre os anos de 2019 e 2021, em meio à pandemia de covid-19, os bairros da área central de Joinville apresentaram queda de 28% nos casos de furtos a comércios. Os casos de roubo (furto com violência à vítima) também apresentaram queda, de 21%. Com relação ao tráfico de drogas, o comandante disse que houve aumento de 22% nas ocorrências.

O representante da Polícia Militar ainda informou que, somente em 2021, 1.756 pessoas foram detidas nos bairros da área central de Joinville. Celso Junior esclareceu que há casos em que “ondas de furto” em uma determinada semana passam uma impressão que há muitos casos em prática, porém salientou que uma análise em um espaço temporal maior pode não confirmar essa impressão.

Entre as possibilidades de soluções, Celso Junior apontou a necessidade de apoio da prefeitura para a instalação de câmeras inteligentes. Ele também defendeu a valorização do policial e o uso da rede de vizinhos.

Veja a transmissão da audiência