A política em Joinville: Ponte ajuda, mas não é a única solução para a mobilidade na zona sul

Por Felipe Silveira
Foto: Prefeitura de Paris

Nunca vou me esquecer do primeiro debate entre os candidatos à prefeitura de Joinville de 2012. Muita gente ficou impressionada com a falta de traquejo de Udo Döhler (MDB), que melhorou o suficiente nas semanas seguintes e conseguiu vencer aquele pleito. Naquele dia, fomos apresentados à ideia da Ponte Joinville. O principal adversário na ocasião, Kennedy Nunes (à época no PSD), perguntou sobre o custo da obra e, diante de uma resposta bem irreal do futuro vencedor, soltou uma gargalhada.

Apesar de Kennedy estar certo quanto ao valor, é Udo quem vai rir por último, já que sua proposta mais ambiciosa está cada vez mais próxima de ser realizada. Anos depois do final do seu segundo mandato, é verdade. A um custo gigantesco, também é verdade. Mas é uma dessas grandes obras que transforma uma cidade e de Udo ninguém vai tirar a paternidade. Nesta semana, o governo do estado decretou utilidade pública para a obra, o que, segundo a prefeitura, deve acelerar a emissão de uma licença ambiental por parte do IMA. Depois disso, se emitida a licença, resta realizar a licitação, executar o serviço e inaugurar daqui a alguns anos.

A quilométrica ponte sobre o manguezal será importante para os moradores da zona sul da cidade. A região não tem muitos empregos, não tem boa oferta de serviços e, em uma sociedade carrocêntrica, vive um caos em termos de mobilidade. Um caos raramente observado pela classe média alta e rica de Joinville, que reside majoritariamente na região central e na zona norte. E como a classe alta não vive o drama no cotidiano no trânsito, este tema raramente entra na pauta política.

Ao ligar o Adhemar Garcia ao Boa Vista, e consequentemente ao centro e à região norte (onde estão os empregos), a Ponte Joinville vai amenizar um problemão. A nova ligação vai desafogar as ruas Florianópolis, Guanabara e Monsenhor Gercino, entre outras, que são de fato caóticas. Não devemos ser negacionistas e fingir que não haverá ganho de fluidez com a ponte.

Isso não significa que novos problemas não vão surgir. Mais gente vai chegar mais rapidamente ao centro e é óbvio que teremos um problema por lá. No Boa Vista também. Este texto é para falar sobre as soluções ao problema que persistirá. Não têm obra e dinheiro que dê jeito em uma cidade que insiste no mesmo modelo.

Outras formas de se locomover

A primeira coisa que os governos precisam fazer é trabalhar para diversificar os modelos de mobilidade, com foco no transporte público. Existe um jeito barato e eficiente de levar gente de um lado para o outro, que é colocando essas pessoas em grandes veículos (ônibus e trens), com conflito e horários abundantes. Não é fácil criar este modelo, mas é necessário, e ele só depende de vontade política.

Este debate já foi melhor no Brasil. É só comparar as discussões eleitorais das últimas décadas com o debate de 2020. O tema simplesmente sumiu, sendo totalmente obliterado por imbecilidades conservadores ou ignorâncias acerca do papel do Estado. Felizmente, a discussão é bem melhor na Europa e na Ásia, com cidades que servem como inspiração para nós. Paris, por exemplo, conseguiu resultados impressionantes nos últimos anos. Não adianta copiar exemplos da realidade europeia e aplicar aqui nos trópicos sem a devida adaptação, é evidente, mas temos que recomeçar a discutir. Além disso, há bons exemplos na América do Sul, como Bogotá e Curitiba.

Além do prioritário transporte público, temos que começar a investir em outras formas de locomoção. Podemos até sonhar um pouco com transporte ferroviário e hidroviário na cidade, mas foquemos, neste momento, na tradição: bicicleta. Como ciclista há muito tempo, conheço de perto os prazeres e as dores das pedaladas. Pelo lado bom, andar de bicicleta é rápido, barato, saudável e prazeroso. Pelo lado ruim, é complicado quando chove e quando está muito quente, mas estes são apenas detalhes diante do maior problema. Está cada vez mais perigoso andar de bicicleta e a culpa é do poder público.

Ciclovias e ciclofaixas ajudam muito e estão em falta, mas o perigo tem outro nome: violência dos motoristas. No modelo carrocêntrico, em que não se buscam outras soluções e apenas se assume a ideia de que todos querem ter carro, os motoristas se acham os donos das ruas. Eles querem andar mais rápido, ocupando todos os espaços. Eles não querem ciclovias, não querem radares, não querem lombadas, sinaleiros ou faixas de pedestres. Tudo isso atrapalha a experiência do motorista que, irritado sempre, passa por cima mesmo.

O problema está no modelo. Quando Udo Döhler assumiu, enterrou toda discussão sobre o tema. A prioridade do ex-prefeito sempre foi a obra viária que priorizava a experiência do motorista. Assim saiu o contorno no Iririú, a pavimentação da Piratuba, a requalificação da São Paulo e da Blumenau, a rotatória da Ottokar Doerffel e a duplicação (de parte) da Santos Dumont, que foi a outra ambiciosa promessa de campanha. O emedebista ainda assinou financiamentos para o asfaltamento de centenas de ruas nesses bairros. Nada contra essas obras, que eu defendi várias em vezes diante de críticas enviezadas, mas elas dão a dimensão da visão embaçada pela ideologia de Udo sobre o tema mobilidade.

Adriano Silva deu continuidade ao modelo. Conservador e neoliberal, o atual prefeito eleito pelo Novo tem a mesma visão de Udo acerca da questão em debate. Adriano pode até achar legal a mobilidade na Europa, o metrô em Londres e as bicicletas em Copenhague, mas jamais vai tomar as medidas necessárias – que desagradam a classe média – para construir algo parecido por aqui. E esse “jamais” eu falei de propósito, pois vai que ele leia e se sinta desafiado.

Consideremos, no entanto, que não vai acontecer. O problema seguirá conosco, joinvilenses. Somos nós quem precisamos colocar os temas em debate para forçar o poder público a fazer algo. Hoje ninguém quer andar de ônibus ou de bicicleta porque é caro, apertado, desconfortável e perigoso. Todo mundo quer ter um carro para se jogar no pandemônio violento que é o trânsito. E cada um que entra nessa rotina exige mais obras, mais asfalto, mais pontes, mais velocidade, mais espaço, tudo isso consumindo muito dinheiro que poderia ser investido em tantos outros serviços essenciais. Não precisa e não deve ser assim.

Podia ser a gente ali no começo da rua João Colin, mas vocês (Udo e Adriano) não colaboram – Foto: Prefeitura de Paris

Outra solução

Joinville concentra seus empregos em três regiões: centro, norte e oeste. Também é onde estão os principais equipamentos públicos e a oferta de serviços. É onde moram os mais ricos, de modo geral. Embora estejam espalhados por toda a cidade, a grande massa de trabalhadores mora nas zonas leste e sul. Ou seja, boa parte das pessoas da cidade se desloca de um lado para o outro todos os dias. Não tem como o trânsito não ser caótico nesta situação.

Por isso, parte da solução está justamente no desenvolvimento das zonas sul e leste. E, para ser justo com Adriano Silva, ele falou isso na campanha. É preciso gerar emprego e é preciso oferecer serviços nessas regiões, especialmente na sul, que vive situação mais complicada que a leste. E isso se faz com investimento público, colocando mais dinheiro no sul do que no norte, historicamente privilegiado.

O cenário que não vai mudar do dia para noite, afinal, foram muitos anos de construção da atual situação, mas é preciso começar. A Ponte Joinville vai agregar valor à zona sul, melhorando a qualidade de vida do morador, mas ela é, na verdade, um meio para entrar e sair. O joinvilense precisa de coisas que o convençam a ficar, como a oferta de lazer, de serviços e de emprego perto de casa. Ou teremos que construir centenas de pontes para as quais não temos dinheiro.

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O texto ficou enorme e não consegui abordar metade dos temas que gostaria, como a questão ambiental (o trânsito das cidades é um dos principais poluidores e está super-aquecendo o planeta), o que daria para fazer com o dinheiro que será gasto na ponte e como a sociedade civil pode tornar as cidades mais amigáveis para ciclistas e pedestres. Fica para outro momento. Mas, para que eu consiga escrever outros textos como este, preciso do seu apoio. Se você gostou, clique no curtir e compartilhe na sua rede social preferida. Um comentário também é legal para começarmos a conversar. Tudo isso vai me ajudar muito a continuar o trabalho.


A política em Joinville é uma das colunas de opinião do jornal O Mirante Joinville.