Darci de Matos apaga imagem racista, mas não se desculpa e ainda culpa oposição por repercussão negativa

Texto: Felipe Silveira
Foto: Divulgação

O deputado federal Darci de Matos (PSD) publicou uma imagem racista na quarta-feira (29) e, após críticas na imprensa e nas redes sociais, a apagou na quinta-feira (30). No entanto, o parlamentar joinvilense não se desculpou pela imagem e ainda culpou a oposição pela repercussão negativa, reforçando o caráter preconceituoso da imagem.

Para divulgar um projeto de lei que aumenta a pena para menores, Darci utilizou a imagem de um menino negro atrás de grades. A imagem associa crianças negras à criminalidade, sendo esta uma das mais perversas formas de racismo na sociedade. Em entrevista recente ao rapper Mano Brown, o deputado estadual paulista Fernando Holiday (Novo), ligado ao movimento de direita MBL, relatou que esta foi uma das primeiras formas de racismo ao qual foi submetido.

E embora afete crianças, esta forma de racismo atinge toda a população negra. Recentemente, duas influenciadores digitais sugeriram que negros cometem mais crimes. A Ponte Jornalismo escreveu sobre o tema, apontando estudos que mostram como o próprio racismo no ordenamento jurídico gera mais condenações à população negra. Ou seja, o racismo institucional leva mais pessoas negras à prisão, o que leva a mais racismo na sociedade, como a imagem que Darci de Matos publicou.

Apesar de ter apagado a publicação, o deputado joinvilense parece não compreender o racismo da própria publicação. Questionado na tarde de quinta-feira, disse que não teve intenção de ter qualquer cunho racista e que respeita todas as etnias, cores e raças.

“Ao elaborar esse material jamais pensamos em em ter qualquer cunho racista. Tenho pleno conhecimento de todo racismo que absurdamente ainda existe , sabemos que o nosso país é constituído, em sua grande maioria, de pessoas negras que lutam por igualdade e merecido respeito. A intenção da publicação e informar que com essa nova lei, a população estará mais segura, pois sabemos que muitos bandidos utilizam menores de idade para efetuar crimes hediondos, pois sabem que eles não tinham uma pena mais rígida. Agora, a partir dessa mudança, os menores irão refletir melhor ao entrar para o mundo do crime. Espero que tenha compreendido a minha intenção, que de forma alguma é ofender e muito menos cometer qualquer tipo de racismo, eu respeito todas as etnias, cores e raças que construíram e continuam construindo o nosso país”, respondeu Darci.

Já na sexta-feira (1), em entrevista à rádio CBN, o deputado afirmou que apagou a publicação por pressão da oposição, como o PSOL e a esquerda, que seriam contrários ao projeto de lei em questão. “Como eu não sou um cara polêmico, apaguei”. Além disso, o deputado demonstrou ignorância sobre o tema ao dizer que a criança da foto não é negra, mas “moreninho”. Apesar de ignorar o racismo presente na imagem, Darci considerou um erro da equipe a exibição do rosto da criança na publicação, o que afronta o Estatuto da Criança e do Adolescente”.

Jornalista do grupo NSC, Dagmara Spautz foi uma das primeiras a apontar a afronta ao ECA. A jornalista também comparou as duas imagens presentes na publicação como reforço ao racismo. Na primeira imagem, que falava de um projeto em que crianças são vítimas, a foto usada foi de uma criança branca e com o rosto coberto. Já a imagem que fala de crimes que eventualmente são cometidos por menores, a foto utilizada foi de uma criança negra.

Única vereadora negra de Joinville, Ana Lúcia Martins (PT) publicou uma nota sobre o tema. Ela também expôs a diferença entre as duas imagens e explicou que infelizmente é comum o reforço dos estereótipos negativos relacionados à população negra, como imagens de crianças negras pobres, de homens e mulheres negras exercendo profissões subalternizadas e de hipersexualização dos corpos negros. Para a vereadora, colocar uma criança negra atrás das grades só reafirma o racismo estrutural e ainda estimula o encarceramento das crianças, adolescentes, jovens e homens negros, o que já é uma prática naturalizada no país.

“Não podemos normalizar o uso dessas imagens, não podemos nos silenciar diante do que vemos. Precisamos nos posicionar e colocar em prática o antirracismo”, afirmou a vereadora.