Movimento Feminista da Diversidade nasce para combater o machismo em Joinville

Texto: Vinícius Sprotte
Fotos: Divulgação

Anelise Wisbeck, aposentada, e Larissa Stephanie, estudante universitária, se conhecem de lutas políticas. Entre um protesto e outro, nasceu a amizade e com ela a disposição de criarem o Movimento Feminista da Diversidade, cujo objetivo é resistir ao machismo. O grupo, que já conta com 39 integrantes, se soma a vários que enfrentam um problema crescente. Segundo pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), a violência contra a mulher cresceu em 20% durante a pandemia de coronavírus.

Apesar do aumento, o tema mobiliza mulheres há muito tempo por ser uma constante na sociedade. Em 2015, uma jovem foi esquartejada em Joinville e isso mexeu emocionalmente com Larissa. Naquela época, a estudante via comentários machistas a respeito desse crime, com pessoas divididas entre colocar a culpa na vítima ou no agressor, o que deixou a estudante confusa em quem estava certo nessa história.

“Na época eu me perguntava se era culpa dela, pois, se ela não tivesse saído com esse cara, não teria sido morta e esquartejada. Mas, ao mesmo tempo, eu me questionava se era culpa do cara, que fez a maldade, e não culpa da garota”, recorda Larissa, que naquele momento começou a pesquisar sobre agressões contra as mulheres. “E assim me tornei feminista”, recorda.

Já Anelise tem um pouco mais de experiência na luta feminista. Fundadora do novo movimento, ela considera que Joinville tem uma população conservadora e acredita que as mulheres joinvilenses clamam por espaço e voz na cidade.

“É uma cidade provinciana. Foi aí que surgiu o nosso grupo, no qual todas nós, independente de raça, etnia, identidade de gênero, orientação sexual  e credo pudéssemos defender nossas pautas, que são nossos direitos, assim como lutar para não perder os que já conquistamos”, explicou.

Na visão de Anelise, a sociedade é patriarcal porque os homens estão em uma situação de privilégios em relação às mulheres.  E, segundo a líder do grupo feminista, eles precisam desconstruir o machismo. “Porém, nem todos os homens são sexistas e querem desconstruir o machismo que lhes foi imposto por uma educação patriarcal. Nós tomamos estes homens como parceiros de luta”, pondera. 

Contudo, as mulheres do Movimento Feminista da Diversidade optaram por serem um grupo somente para mulheres, com o objetivo de terem um espaço de debate e construção de ideias. “Nosso grupo se une a vários outros movimentos, organizações e instituições para que juntas e juntos possamos construir uma sociedade mais humana”, ressalta Anelise.

“As perversidades aparecem diariamente contra nós mulheres. São violências domésticas, feminicídio, mulheres LGBTs sendo agredidas, retrocesso na conquista do direito ao aborto, racismo, misoginia e o PL 490, que depõe contra as mulheres indígenas, que correm o risco de perder sua terra, seu espaço de viver”, destaca Anelise.

Organização

Mensalmente, as integrantes do grupo feminista se encontram de forma online, em dois momentos. Um deles é deliberativo, no qual constroem novas ações ou dão continuidade às já existentes. O outro encontro é de estudo. “Neste momento estamos estudando o colonialismo do ponto de vista do colonizado”, conta Anelise.

Este ano o grupo feminista participou de várias lutas na cidade, como protestos de “Fora Bolsonaro”, oposições à misoginia e ao sexismo de políticos, protesto contra o PL 490, repúdio ao feminicídio e a toda forma de violência e opressão.  Além disso, fizeram cobranças por políticas públicas na cidade e uma campanha solidária de arrecadação de alimentos para a Aldeia Piraí.

Larissa destaca o trabalho coletivo como uma grande virtude de suas colegas de movimento. “Não tem alguém que manda. É o movimento feminista da diversidade, então é para todas: mulheres LGBTs e negras”, ressalta a jovem militante.

Por ser novo na cidade, o movimento ainda precisa melhorar a parte organizacional, a estrutura e a divisão de tarefas, considera Larissa. “Com o tempo vamos amadurecendo. É uma construção, aos poucos”, complementa.

Simpatizantes

Além deste novo movimento, Joinville conta com diversos grupos ligados à causa das mulheres, mas nem todas as simpatizantes da causa participam de movimentos organizados. É o caso de Lívia Rampinelli, estudante de ensino superior que se interessa pelo feminismo desde os tempos de escola, por causa de conversas com amigas. Ela é uma feminista que ainda não faz parte de um grupo específico sobre o tema.

Devido as discussões na escola sobre desigualdade de gênero e em conversas com as amigas, Lívia se interessou pelo movimento feminista. “As razões que impulsionaram o movimento em si na realidade vão sendo apresentadas ao longo de nossa vida toda, seja por situações constrangedoras, seja por falta de oportunidade, silenciamento ou rebaixamento”, reflete.

Apesar de considerar o feminismo fundamental para a sociedade, Lívia ainda não participa de um grupo sobre feminismo, apesar de já ter ido a manifestações como simpatizante.

Resultados

Além do Movimento Feminista da Diversidade, Joinville possui outros grupos voltados à resistência ao machismo, como o Mulheres em Luta, o Fórum de Mulheres e o Coletivo Ashanti de Mulheres Negras, sendo que este último tem foco na luta antirracista. As diferentes ações desses movimentos, como protestos e articulação política, têm levado a ações efetivas dos governos no enfrentamento à violência contra a mulher.

Em agosto, por exemplo, foi lançado o Observatório da Violência contra a Mulher de Santa Catarina (OVM/SC), sediado na Alesc. A ferramenta fornece dados que permitem monitoramento, avaliação e elaboração de políticas e ações de prevenção e enfrentamento à violência contra as mulheres. No mesmo mês, deputados aprovaram projeto de lei da bancada feminina que inclui como atividade extracurricular das escolas de SC o ensino da história das mulheres do estado.

Recentemente, o governo de Santa Catarina abriu um edital de chamamento público para a Prestação de Serviços para Acolhimento de Mulheres Vítimas de Violência.  Através das Organizações da Sociedade Civil (OSC), serão prestados atendimentos às vítimas.

Também em agosto, a prefeitura de Joinville deu início a uma campanha de enfrentamento à violência. No site do governo municipal há uma página especial com informações sobre os direitos das mulheres. Ao acessá-la, é possível fazer o download de um cartaz que estimula a denúncia de casos, além de uma cartilha com informações sobre atendimento e tipos de violência contra a mulher.