NOTAS CATARINAS — Trapalhões mostram que SC precisa melhorar a qualidade dos políticos

Por Felipe Silveira

Na semana passada, Santa Catarina foi mais uma vez destaque nacional. Negativamente, para variar. Em reunião da Comissão de Trabalho, de Administração e de Serviço Público da Câmara dos Deputados, Hélio Costa (Republicanos), deputado federal mais votado do estado em 2018, fez uma confusão confusão geográfica e se tornou motivo de deboche em todo o território nacional. Ele disse e insistiu que o Mato Grosso do Sul fica na região sul do país, um erro que chama a atenção por se tratar de um conhecimento bastante popular. Mais tarde o deputado justificou o erro como uma confusão relativa aos estados ligados ao BRDE, aí sim com participação do MS. Acredite na versão quem quiser.

Entretanto, se fossem só pelas trapalhadas, ingenuidades e incompetências, os políticos de Santa Catarina não fariam tão mal. O problema é os autores das “pérolas” mais engraçadas também são os bolsonaristas mais empedernidos, defensores de um projeto que visa o fim do país, da democracia e da dignidade do povo brasileiro. Não deve ser coincidência que os mais ignorantes também façam parte do campo político bolsonarista. Que outro tipo de “político” receberia em seu gabinete e posaria para foto com um conhecido agressor de mulher?

Vejamos outro caso, mais local. Wilian Tonezi (Patriota) é o vereador mais à direita da câmara joinvilense. Sua prática cotidiana é defender o bolsonarismo a atacar o campo democrático, como movimentos sociais e pensadores. Quase nada faz sentido, como você pode conferir na apresentação mais bizarra que eu já vi na vida, em audiência que o vereador defendeu o fim do IPTU Progressivo. Porém, apesar da falta de sentido, tudo é dito com uma confiança que só quem dá pouca abertura ao conhecimento pode ter. E este tipo de argumentação, que não diz nada com nada, passa batido, com ares de seriedade, interferindo na vida das pessoas por meio de leis elaboradas a partir de estultices. Veja um exemplo dessa influência abaixo.

Em audiência pública relativa à revisão do plano diretor, no bairro Vila Nova, o vereador licenciado e morador da comunidade, Adilson Girardi (MDB), levantou a discussão sobre um fator urbano que considera problemático. Para ele, casas geminadas com três metros de largura são negativas para a qualidade de vida. E, como a lei permite, constrói-se cada vez mais imóveis desse tipo. Onde havia uma casa, agora há cinco pequenininhas.

Ora, qualquer pessoa pode discordar de Girardi, que chamou o fenômeno de especulação imobiliária (um conceito mais complexo). Há diferentes visões de urbanismo que justificam um bom debate sobre o tema. O que não se pode negar, no entanto, é que morar em casas muito pequenas é pior do que morar em casas espaçosas. Quem tem condições financeiras opta por casas e apartamentos que combinem conforto, preço e localização (além de critérios que variam de pessoa para pessoa) e, quem não pode, fica com os imóveis piores.

Lógica, né? Não para Tonezi. Ferraz defensor da classe dominante, o vereador patriota apresentou um argumento para contrapor Girardi em sua vez de falar. “Se hoje as pessoas não gostassem do geminado de três metros, simplesmente as pessoas não os comprariam, ou comprariam só com quatro, cinco, seis”, explicou Tonezi.

Não é um gênio? Ora, as pessoas moram em casas pequenas porque querem e não porque foi o imóvel que conseguiram comprar ou alugar. O geminado com cinco metros de largura chega a custar 40% a mais em alguns casos, mas a população ama os geminados com três metros e opta por eles. Não vejo a hora de construírem geminados de 1,5 metro de largura para comprar o meu. E, depois de fazer aulas de contorcionismo, espero comprar um geminado de meio metro.

É sempre bom frisar que o parágrafo acima é totalmente irônico.

Também friso que nada tenho contra geminados de três metros. O ponto aqui é que a observação de Girardi é justa (o Estado pode regulamentar o tema) e a resposta de Tonezi não tem pé nem cabeça. E o problema é que, dada a condição política do nosso parlamento, a resposta sem sentido de Tonezi influencia a elaboração das leis municipais. Afinal, ele é o relator do projeto de revisão do plano diretor na Comissão de Urbanismo. E não é à toa que ele é o relator de projetos importantes como este. Ele está lá porque o parlamento quer atender aos interesses.

A resposta também mostra a desconexão do político bolsonarista aos dramas da vida prática. Se ele não entende que as pessoas tomam esse tipo de decisão condicionadas pelas possibilidades, e não pelas vontades, imagine se ele vai entender de educação, saúde, meio-ambiente, economia e outros temas complexos sobre os quais deve legislar.

Atrapalhados ou espertalhões, a realidade é que a bancada catarinense e seu quase irrestrito apoio ao bolsonarismo compromete o destino do país. À exceção do petista Pedro Uczai, o estado tem votado com Bolsonaro quase sempre. Rodrigo Coelho (Podemos) e Darci de Matos (PSD) só votaram contra quando Paulo Guedes esteve mais à esquerda do que eles. Darci, aliás, tem ganhado antipatia nacional, já que foi o relator da reforma administrativa que avacalha com o serviço público e do projeto que propõe mudanças no Código Florestal e colocam o meio-ambiente em perigo. E nem precisamos falar de Coronel Armando (PSL), incapaz de ter uma visão crítica do governo e agitador da manifestação golpista do 7 de setembro. Inclua-se nesse rol os péssimos deputados estaduais Sargento Lima (PL) e Kennedy Nunes (PTB), assim como o senador Jorginho Mello (PL).

Não é sempre que uma trapalhada como a de Hélio Costa vai escancarar a baixa qualidade dos nossos parlamentares. A maior parte das sacanagens — como a retirada de direitos, as agressões ao meio-ambiente e até mesmo ataques à democracia — ocorrem no dia a dia, com a mesma confiança que Tonezi apresenta ao explicar o mercado imobiliário. Confiante, mas errado. Mas, apesar de ele ser o errado, os ferrados seremos nós, morando em cubículos, trabalhando sem direitos, talvez sob uma ditadura e em um planeta super-aquecido.

Demorou, mas funcionou

Joinville finalmente apresenta redução de casos de covid-19. É uma melhora tímida, mas que mostra a importância de a prefeitura ter entrado no jogo, conforme cobrávamos. Com um pronunciamento do prefeito Adriano Silva e campanha na TV há algumas semanas, os números começaram a baixar. Pode ter sido mera coincidência com os resultados da vacinação? Sim. Mas também pode ser efeito de uma campanha que chegou muito tarde. Que não pare por aqui, pois ainda há muito a fazer.

Falando em campanha

Começou nesta segunda-feira (20) começa a Semana Nacional do Trânsito, com o tema “Ver e Ser Visto”, focado na segurança de ciclistas e pedestres. Organizada pela Escola Pública de Trânsito (Eptran), da prefeitura, a programação conta com diversas atividades educativas. Do dia 22 ao dia 24, serão realizadas blitze educativas em quatro locais da cidade. Os ciclistas receberão material educativo e kits sinalizadores para suas bicicletas.

Hang confirma interesse no Senado

De acordo com o portal Glamurama, do UOL, o empresário Luciano Hang confirmou o interesse de concorrer ao Senado. Bolsonarista, bilionário e extravagante, Hang é considerado um dos favoritos na corrida. Disse que vai ouvir a família para se decidir. Por outro lado, os negócios também precisam de atenção. Recentemente, segundo a revista Forbes, Hang perdeu quase 1 bilhão de dólares. O empresário também foi orientado por executivos da Havan a se afastar de Jair Bolsonaro, por conta da queda de popularidade do presidente, mas disse que vai seguir até o fim.

Dalmo Claro e a Justiça

Candidato a prefeito de Joinville pelo PSL em 2022, o ex-emedebista Dalmo Claro terá que responder denúncia do Ministério Público Federal (MPF) que o envolve em suposto esquema de desvio de recursos. Dalmo foi secretário de saúde entre janeiro de 2011 a julho de 2013, no governo de Raimundo Colombo. Informação é do Upiara Boschi.

Conhecimento

Acaba de ser lançado o Programa Tei@, criado pela Agência de Desenvolvimento do Turismo de Santa Catarina (Santur), em conjunto com a Fundação Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc), para geração de dados e inovação para o setor turístico catarinense. O investimento será de quase R$ 1 milhão. Podem participar professores doutores, vinculados a Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) de Santa Catarina. Leia o edital.

Fotos no topo
De Wilian Tonezi: Mauro Arthur Schlieck/CVJ
De Hélio Costa: Facebook de Hélio Costa
De Jessé Lopes: Rodolfo Espínola/Alesc


Publicada às segundas-feiras, NOTAS CATARINAS é uma das colunas de opinião do jornal O Mirante Joinville. Como o nome sugere, são notas curtinhas e variadas sobre acontecimentos da política de Joinville e de Santa Catarina. É assinada pelo editor Felipe Silveira (siga no Twitter).