Com investimentos na zona norte, governo de SC aumenta a desigualdade dentro de Joinville

Texto: Felipe Silveira
Foto: Prefeitura

Costumo dizer que Santa Catarina deu muita sorte ao apertar 17 e eleger o desconhecido Carlos Moisés em 2018. Em vez de um político como Jair Bolsonaro, incompetente, boçal e fascista, como era o desejo de parte dos eleitores naquele momento, o estado ganhou uma liderança que, aos trancos e barrancos iniciais, incluindo dois processos de impeachment, faz um bom governo. Mas nem tudo são flores e digo o motivo.

Nesta sexta-feira (17), o governador esteve em Joinville, onde anunciou R$ 35 milhões em investimentos para a região (veja detalhes ao final do texto). A visita faz parte de uma série pelo estado, na qual Moisés tem anunciado investimentos robustos e diversificados. Além da distribuição por regiões, diversas áreas têm sido beneficiadas pelos aportes financeiros. Cultura, turismo, educação e esporte têm sido lembradas, apesar dos investimentos ficarem bem aquém na comparação com o dinheiro para obras rodoviárias. Até um projeto para aumentar o IDH dos municípios com os piores índices foi posto em prática.

Essa boa fase é possível pela alta na arrecadação de Santa Catarina, estado exportador beneficiado pelo dólar nas alturas. A economia diversificada e regionalizada, aliada a uma estrutura social mais encorpada que a média nacional, também ajudaram o estado a ter essa recuperação econômica mais dinâmica.

Agora vamos ao problema.

Moisés, como o ex-governador Raimundo Colombo, tem uma relação muito azeitada com o chamado setor produtivo. A visita desta sexta-feira foi uma das raras em que ele não esteve na Associação Empresarial de Joinville (Acij). E se em algum momento houve, de uns tempos para cá se perdeu qualquer pudor em trabalhar ativamente para atender aos interesses dos empresários. Legítimos, claro, mas ainda assim interesses dos empresários.

Os investimentos em Joinville são muito reveladores desta relação. Os empresários não têm papas na língua ao pressionar por investimentos do seu interesse. Foi assim que saiu a duplicação da avenida Santos Dumont, o elevado do Aventureiro, a duplicação do Acesso Estadual Norte e, anunciado nesta sexta, o elevado no Distrito Industrial. A Acij ainda pressiona por outras outras obras, como a conclusão da Almirante Jaceguay e o Eixo K, uma viela que beneficia somente as empresas do Perini Business Park. Se voltarmos um pouco no tempo, ainda incluímos o binário do bairro Vila Nova. E todas essas obras demandam ou demandaram investimentos robustos.

Além do alto valor envolvido, veja que todas essas obras têm em comum o fato de serem na zona norte (puxando para o oeste), onde estão as indústrias e onde mora a população mais rica. “Do trilho pra lá”, para usar uma expressão conhecida em Joinville, nada. A massa trabalhadora, que mora majoritariamente nas zonas sul e leste, recebe muito pouco do estado. A obra mais robusta na zona sul foi a pavimentação da Estrada Rio do Morro, entre o bairro Paranaguamirim e Araquari. Nesse caso, a empresa Ciser se mudou para lá.

Todas as obras mencionadas são importantes, é claro, mas elas aumentam o fosso entre pobres e ricos da cidade. O investimento estatal aumenta a qualidade de vida e valoriza os imóveis. As empresas, com as demandas atendidas, aumentam suas margens de lucro. E se o governo investe por um lado, o parlamento atende vontades do outro, retirando direitos dos trabalhadores, flexionando leis ambientais e reduzindo impostos.

O morador da zona sul de Joinville, por outro lado, tem que atravessar a cidade para chegar no emprego. O jovem, que já estuda em escolas com indicadores piores, também precisa se deslocar até o norte para estudar nas principais universidades. A UFSC, a Udesc e até o IFSC ficam na região norte, ao lado das indústrias. O morador da zona sul tem poucas opções de lazer, de estudo e de trabalho no seu entorno, tendo que gastar mais tempo e dinheiro para se deslocar até onde tem.

É relativamente normal que o governador Carlos Moisés não saiba detalhes sobre cada região que vai investir. Para isso deve ouvir secretários, assessores e até mesmo parlamentares de cada região, além de fazer o esforço de conhecer cada localidade. Também é preciso considerar que investimentos do estado são mais macros do que micros. No entanto, se mantivesse um distanciamento mais crítico do empresariado poderia dar a devida atenção à realidade sócio-econômica. Se ouvir o que o empresariado diz como palavra de ordem, sempre vai atender interesses privados e, mesmo que não queira, prejudicar parte do povo.

Pequeno passo

Durante a campanha à prefeitura, Adriano Silva se comprometeu com o desenvolvimento da zona sul. Nesta sexta, ele levou Moisés para locais em que pretende construir pontes (ruas Plácido Olímpio de Oliveira, Anêmonas e Alvino Hansen), com o objetivo de convencer o governador a financiá-las. Segundo o prefeito, no entanto, o governador ouviu a demanda e deu a ideia de criar um grande plano de mobilidade incluindo os eixos de acesso às pontes.

Adriano Silva levou Carlos Moisés aos locais que devem receber pontes na região sudeste – Prefeitura

Investimentos em Joinville e região

Elevado no Distrito Industrial
O elevado fará parte do Acesso Estadual Norte, composto pelas ruas Hans Dieter Schmidt Edgar e Nelson Meister, ligando a Udesc à BR-101 pelo Distrito Industrial. A obra ficará no entroncamento com a rua Dona Francisca, onde já há uma rotatória. O projeto foi feito pela Acij e o investimento do estado será de R$ 15,8 milhões, com prazo de conclusão de oito meses.

Palácio das Orquídeas
O governo vai investir R$ 5 milhões na construção do Palácio das Orquídeas, que ficará dentro da Unidade de Desenvolvimento Rural (UDR, antiga Fundação 25 de Julho), em Pirabeiraba. Além do cultivo das plantas, terá fins turísticos. O projeto é do município, que irá administrar o espaço. “Somos referência nacional e mundial no cultivo de orquídeas. O palácio vai ser praticamente um museu vivo e uma apresentação permanente, que vai trazer turistas de todo o Brasil para a nossa cidade”, projetou o prefeito Adriano Silva durante a cerimônia.

Palácio das Orquídeas foi inspirado em ponto turístico de Curitiba (PR) – Imagem: Prefeitura

Serra Dona Francisca
O governador também assumiu o compromisso de melhorar as condições da Serra Dona Francisca, tanto com ações imediatas para recuperar o pavimento, quanto com projetos de médio e longo prazo para ampliar a capacidade.

Revitalização da SC-415
Trecho da SC-415, entre Araquari e Balneário Barra do Sul, receberá R$ 2,3 milhões para revitalização. O prazo para conclusão é de 150 dias.

Convênio com bombeiros
Governo celebrou um convênio de quase R$ 2,2 milhões com a Associação do Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville.

Pessoas com Deficiência
Foram anunciados mais de R$ 2,8 milhões para as Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAEs) de Joinville, Araquari, Balneário Barra do Sul, Campo Alegre, Garuva, Itapoá e São Francisco do Sul, além da Associação Integração Social de Crianças e Adultos Especiais (APISCAE), Associação de Síndrome de Down, Associação Joinvilense para Integração dos Deficientes Visuais (AJIDEVI) e Associação dos Amigos dos Autistas, todas de Joinville.

Emendas parlamentares
As cidades que compõem a Associação dos Municípios do Nordeste de Santa Catarina (Amunesc) ainda serão beneficiadas com mais de R$ 3,8 milhões em emendas parlamentares dos deputados Ada de Luca (MDB), Felipe Estêvão (PSL), Fernando Krelling (MDB), Ismael dos Santos (PSD), Jair Miotto (PSC), João Amin (PP), Maurício Eskudlark (PL) e Paulinha (sem partido). Os recursos serão destinados a ações voltadas à educação, saúde, infraestrutura, desenvolvimento social e esporte em Araquari, Balneário Barra do Sul, Campo Alegre, Garuva, Itapoá, Joinville e São Francisco do Sul.

Licença ambiental
Durante a agenda de trabalho do governador em Joinville, o Instituto do Meio Ambiente (IMA) entregou oficialmente a licença ambiental para autorizar a implantação de unidade industrial de serviços galvanotécnicos com 80 mil metros quadrados no município de Campo Alegre. O empreendimento é da empresa Raitz Galvanizações, que projeta um investimento de aproximadamente R$ 50 milhões e a geração de 150 a 200 empregos diretos, além de até 800 indiretos.

Crédito
Outra ação voltada ao fortalecimento da economia da região foi a autorização de operação de crédito no valor de R$ 45 milhões por parte do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) em benefício da empresa Krona Tubos e Conexões, de Joinville. A companhia utilizará os recursos para a construção de um galpão para expedição com aproximadamente 14 mil metros quadrados, aquisição de insumos, matérias-primas e capital de giro. A edificação será construída ao lado da matriz da empresa.