Sincerão, Coronel Armando diz que Bolsonaro trocou apoio popular por apoio político

Por Felipe Silveira
Foto: Marcos Correa/Agência Brasil

Em justificativa para seguidores nas redes sociais, o deputado bolsonarista Coronel Armando (PSL) tem dito que o presidente Jair Bolsonaro trocou apoio popular por apoio político e econômico. O parlamentar de Joinville é dos mais fiéis seguidores do presidente e tem justificado a recente atitude de Bolsonaro que revoltou seguidores.

Liderados pelo presidente, bolsonaristas de todo o país realizaram uma manifestação antidemocrática no feriado de 7 de setembro. Antidemocrática porque ameaçava a democracia, outros poderes e o processo eleitoral. O próprio presidente, em São Paulo, chamou o ministro Alexandre de Moraes de canalha, cobrando que o STF interfira .

Nas redes sociais bolsonaristas, durante a preparação para o ato de 7 de setembro, a promessa era de violência. Era uma dupla operação: políticos com mandatos e cargos importantes, como Bolsonaro e Armando, chamavam para uma manifestação patriótica, por liberdade e democracia, enquanto jagunços virtuais estimulavam a violência, como invasão ao STF, intervenção militar e declaração de estado de sítio. Para analistas políticos, a chamada era um ensaio para um (auto) golpe de estado.

No entanto, apesar do expressivo número de pessoas, a demonstração de poder ficou aquém do esperado. Forças de segurança, por exemplo, não aderiram. Caminhoneiros de todo o país, em parte financiados por empresas interessadas no golpe, tomaram a Esplanada dos Ministérios, mas ficaram só na promessa de uma uma ordem para a ação. Em vários estados, caminhoneiros fecharam pontos nas rodovias, prejudicando o abastecimento de gasolina nas cidades. Muitos acreditavam, de fato, que o presidente havia decretado estado de sítio. Foi com grande frustração e incredulidade que ouviram um áudio em que Jair Bolsonaro pedia para liberarem as vias.

No dia seguinte, restava a crise institucional. Em vídeo, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), repudiou os ataques à democracia, mas a mensagem foi considerada fraca, permissiva ao golpismo do movimento bolsonarista. Lira é o único que pode abrir o processo de impeachment do presidente. Já a mensagem lida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, foi considerada forte, colocando ordem na casa. O mercado também reagiu mal à articulação golpista, com alta do dólar e queda na bolsa. Houve ainda reação internacional.

Na noite do dia 8, sem saída, Bolsonaro resolveu apelar. Chamou o ex-presidente Michel Temer, que se reuniu com ele para o dia seguinte, 9 de setembro. Temer intermediou uma ligação do presidente ao ministro Alexandre de Moraes e escreveu uma carta, assinada por Bolsonaro, colocando panos quentes na crise institucional. No texto, Bolsonaro pediu desculpas e defendeu a harmonia entre os três poderes. A carta é tratada como um recuo, apesar de especialistas alertarem que trata-se apenas a tomada de fôlego para nova tentativa de golpe no futuro.

Tanto a falta de atitude (golpista) na quarta-feira quanto a publicação da carta na quinta revoltaram parte da base de apoio do presidente. Os mais radicais o chamaram de “frouxo” para baixo. Quando falamos de radicais, estamos falando de gente que defende um golpe de estado com muita violência. Muitos se mostram decepcionados e poucos defendem a nova postura do homem que ocupa o Palácio do Planalto no momento. É para este público que políticos como Armando defendem Bolsonaro.

“O presidente teve de retrair e trocou o apoio popular, por apoio político e econômico. A bolsa estava caindo e o dólar subindo, a inflação saindo do controle. Ele precisa do congresso para aprovar medidas e pautas que ajudem a economia. Sem esse movimento iria perder totalmente a possibilidade de agir e o governo acabaria. Não podemos olhar pelo viés radical , foi um movimento para ganhar força. É preciso confiar. O apoio popular ele vai tentar recuperar depois”, escreveu o deputado em resposta à crítica de um seguidor. Ele tem respondido com um texto muito similar em todos os comentários.

Nas redes sociais bolsonaristas, apoiadores se dividem entre revoltados com o presidente, quem acha que ele é vítima de uma conspiração e quem vê uma estratégia genial ainda incompreensível. A verdade está na justificativa de Armando. Bolsonaro, que havia prometido um golpe e não cumpriu, trocou parte da base radicalizada por um período de relativa tranquilidade. O que ele vai fazer neste novo cenário depende menos dele do que da forma que a sociedade vai reagir à tentativa de golpe no 7 de setembro.