NOTAS CATARINAS — Deputado faz arruaça porque defende governo que destrói o país

Por Felipe Silveira
Vicente Schmitt/Alesc

O deputado estadual Jessé Lopes (PSL) chamou a atenção do país na última semana por causa de uma atitude abominável. Ele recebeu em seu gabinete o agressor de Maria da Penha — mulher que dá nome à principal lei de enfrentamento à violência contra a mulher — e publicou uma foto ao seu lado, afirmando que a versão do agressor é intrigante. Por mais que negue, estava claro que era uma provocação às mulheres, ao movimento feminista e aos setores progressistas da sociedade. Este é o modus operandi do parlamentar, como explicarei a seguir.

Imediatamente a foto repercutiu e críticas vieram de todo o país. Ao parlamentar e aos catarinenses. Sim, aos catarinenses, inclusive aos que não votaram em Jessé Lopes. A cada escândalo de Jessé e similares, quem sai com o filme queimado é o estado, que vai ganhando má fama. Jessé não aguentou a pressão e publicou uma espécie de retratação nas redes sociais. Ele ainda disse a um portal nacional que sua atitude foi distorcida, já que não defendeu o agressor, mas apenas registrou a visita.

Jessé Lopes é um mau deputado, como já explicou o jornalista Upiara Boschi, em janeiro do ano passado. De lá para cá, nada mudou. Seu método é a arruaça, a provocação barata, o ataque às minorias e por aí vai. Quem quiser a prova que dê uma olhada em suas redes sociais. É uma bobajada de inspiração QAnon, informações distorcidas, ataques ao serviço público e a movimentos sociais e puxa-saquismo de figuras ridículas. É a mesma postura, inclusive, que tem na tribuna da Alesc.

Mas por que Jessé faz o que faz? A resposta é simples. Eleito na onda 17, Jessé ainda é bolsonarista, o que o impede de fazer política a sério. Afinal, qualquer pessoa séria sabe que Jair Bolsonaro está destruindo o país. Fazer política de verdade é encarar os fatos, que são os seguintes:

  1. Mais de 584 mil mortes por covid-19, responsabilidade direta de um presidente que boicotou o enfrentamento da doença, inclusive a compra de vacinas;
  2. Economia em frangalhos, com dólar a R$ 6 reais, gasolina a R$ 7, gás de cozinha a R$ 100 e preços absurdos nos supermercados que levam os brasileiros à fome;
  3. Escândalos de corrupção, como o caso das rachadinhas;
  4. Casamento com o Centrão, grupo formado por parlamentares de diferentes partidos que “vendem” o voto em troca de polpudas verbas;
  5. Ataques contra a democracia, como a mobilização de militantes contra a oposição, contra o STF e atuação para desacreditar o sistema eleitoral;
  6. Estímulo à violência, facilitando o acesso da população a armas de fogo;
  7. Destruição do meio-ambiente;
  8. Risco de apagão e muito mais.

Diferente de seus pares bolsonaristas, Jessé Lopes não tem competência para atuar de outra forma na política. Seu único método é a arruaça constante. É bem diferente, por exemplo, do colega camaleão Kennedy Nunes (PTB), que vai surfando todas as ondas. Já de Jessé, se tirarmos essa vontade de fazer confusão, sobra uma nulidade.

Sem competência e ao lado de um governo indefensável, a Jessé resta a arruaça, provocações vazias, teorias da conspiração e fotos abomináveis ao lado de um agressor que atirou duas vezes na esposa e tentou eletrocutá-la. Ele pode até ser reeleito, inclusive pelo resto da vida (afinal, estamos em Santa Catarina), mas nunca terá nada a dizer além do que já demonstrou.

7 de setembro

A tendência é que o bolsonarismo mostre força nas ruas nesta terça-feira, 7 de setembro, feriado da independência. As manifestações estão sendo organizadas há mais de um mês, com muito dinheiro e entusiasmo dos adeptos, que querem reverter, ou ao menos frear, a constante queda de popularidade do presidente fascista. Que serão manifestações grandes, em São Paulo, em Brasília e no sul do país, é um fato. Mas o que pode acontecer?

Analistas políticos, tanto os otimistas quanto os pessimistas, observam atentamente o movimento. Eu, que faço parte da trupe dos otimistas, também. Otimista nesse caso é quem acredita que o movimento não dará em nada e o bolsonarismo está fadado ao fracasso. Mas cautela é sempre recomendável. A ruptura institucional é um desejo do bolsonarismo e a violência pode ser um método para chegar lá.

Grito dos excluídos

Quem quiser gritar contra o fascismo bolsonarista pode se juntar ao tradicional Grito dos Excluídos. Nesta terça, partidos e movimentos de esquerda se reúnem no Parque da Cidade, a partir das 14 horas, para manifestação política e cultural. A palavra de ordem, claro, é o Fora Bolsonaro.

Revés

Mini-Jessé Lopes, o vereador joinvilense Wilian Tonezi (Patriota) também é chegado em uma baderna legislativa, implicando com todo tipo de política pública que vê pela frente. Em uma das últimas, porém, sofreu um revés e também se retratou diante da repercussão negativa. A história foi contada pela jornalista Sabrina Aguiar, colunista do jornal Notícias do Dia.

O vereador que sempre ataca tudo que considera ativista publicou um vídeo em que taxou de absurda a criação de ciclovias. Afinal, na distopia toneziana, as ruas são dos carros. Mas Wilian foi desafiado por um membro do movimento Pedala Joinville (que de esquerda não tem nada) a acompanhá-lo por uma semana o ir e vir de vários ciclistas que utilizam o meio de locomoção para chegar ao trabalho. Depois de bastante discussão, o parlamentar pediu desculpas, alegou que foi mal interpretado e retirou o primeiro vídeo do ar.

Wilian já havia levado uma invertida do secretário de educação, Diego Calegari, em reunião da Comissão de Educação da CVJ na terça-feira (31). O tema da reunião foi justamente uma denúncia do parlamentar do Patriota sobre “conteúdos enviezados” em aulas da rede municipal de ensino. Para variar, tratavam-se de bobagens reacionárias. Tonezi não gostou, por exemplo, de trabalhos que tratavam o feminismo como responsável pelo direito ao voto e o MST como movimento social de grande relevância que é. Para ele, havia militância nos trabalhos didáticos.

Mas, apesar das imensas bobagens, não foi sobre esta parte que Calegari deu uma aula ao vereador. O secretário explicou a situação e se comprometeu a avaliar os casos, mas Wilian insistiu, criticando trecho do livro Prática Educativa, de Antonio Zabala. E, à leitura torta do parlamentar, o secretário respondeu que a interpretação estava equivocada e explicou como a escola tem que buscar a excelência acadêmica e ao mesmo tempo tratar das complexidades do sistema educacional.

O comentário ocorreu por volta de 1h09 do vídeo, mas vale acompanhar todo o debate da Comissão de Educação. Embora limitada em alguns aspectos, o secretário e os vereadores Brandel Júnior (Podemos), Neto Peters (Novo) e Ana Lúcia Martins (PT) fizeram uma boa conversa sobre o ensino na prática, em especial sobre as desigualdades das regiões de Joinville.

Fome assombra Joinville

A reportagem mais relevante publicada no mês de setembro é de Lucas Koehler, no jornal O Município. Além de duas histórias que partem o coração de qualquer pessoa que tenha coração, o jornalista traz dados e entrevistas sobre o cenário em Joinville. De acordo com os dados oficiais, que são limitados, 22.120 pessoas vivem na extrema pobreza (renda per capita de até R$ 89) e outras 9.943 recebem, no máximo, R$ 178 por mês. A reportagem ainda fala de iniciativas solidárias para quem quer ajudar.

Desigualdades

É preciso ressaltar que Joinville é a cidade mais rica de um estado considerado rico. Alguns bilionários e algumas centenas de milionários aparecem constantemente nas colunas e redes sociais. Geralmente são empresários que pagam baixos salários e querem pagar cada vez menos encargos trabalhistas. Contam com o apoio de parlamentares em Brasília, aqueles que aprovam reformas trabalhistas péssimas para os trabalhadores. E, quando a câmara aprova uma reforma tributária para os ricaços paguem um pouco mais de imposto, eles votam contra.

Em alta

Enquanto o PIB do Brasil caiu 0,1% no último trimestre, o de Santa Catarina segue em crescimento. O índice estadual cresceu 9% entre junho de 2020 e junho de 202. Os dados divulgados nesta sexta-feira (3) estão no Boletim de Indicadores Econômico-Fiscais de Santa Catarina, uma publicação online e mensal da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico Sustentável (SDE), compartilhando dados quantitativos e qualitativos do desempenho da economia catarinense.

Vergonha

Falando nas vergonhas catarinenses (sempre tem de rodo), foi descoberta uma fábrica de artefatos nazistas em Timbó. Para a jornalista Dagmara Spautz, do Grupo NSC, o caso deve ter um desfecho diferente do que se costuma no estado, com punição ao envolvido. Ela relembrou de outras manifestações nazistas que saíram impunes em solo catarinense. O vagabundo que tinha uma suástica no fundo de uma piscina, por exemplo, fez um acordo com as autoridades e a trocou por outro símbolo nazista.

Violência em Jaraguá do Sul

Escrevi recentemente que o fascismo escala em SC. A quantidade absurda de bandeirolas na rua dão uma amostra, mas há outras, bem mais graves. No final de semana, uma pessoa homossexual foi espancada por um advogado em Jaraguá do Sul. São violências que sempre aconteceram, mas se tornam mais frequentes à medida que o fascismo avança. Um ato contra a lgbtfobia está marcado para o sábado (11), às 9 horas, na Praça Ângelo Piazera. Vá de máscara e leve seu cartaz.

Dário do Norte

Em exercício de imaginação, já que a jurisprudência inibe, Clenilton Pereira (PSDB) sonha em ser o “Dário do Norte”. O prefeito de Araquari e presidente da Fecam revelou o desejo ao jornalista Upiara Boschi, em entrevista publicada no sábado. Também falou sobre João Dória (do qual tem sido um entusiasmado ativista), de Bolsonaro e da disputa ao governo do estado, entre outros temas. “Dário do Norte” é uma referência ao senador Dário Berger (MDB), que antes de ser eleito em Florianópolis foi um bem-sucedido prefeito de São José.

Ao ler a entrevista, lembrei da mais recente tentativa de um prefeito vizinho se eleger em Joinville e dar esse salto estadual. Em 2008, o então governador Luiz Henrique da Silveira articulou tudo que pode para eleger Mauro Mariani (MDB), ex-prefeito de Rio Negrinho, em Joinville. Foi um fracasso, com o quarto lugar na disputa vencida por Carlito Merss (PT). Empresário e político de sucesso, com a máquina do governo ao seu lado, Mariani chegou de “salto alto” em Joinville. Taxado de forasteiro, fez apenas 36 mil votos.

Clenilton é bem mais próximo de Joinville (as duas cidades tem uma relação mais simbiótica) e tem uma postura bem diferente. Mais simpático, auto-declarado jequeano e flamenguista, busca a aproximação pela política e com alegria. Mesmo que não seja candidato a prefeito, deve contar com votos de joinvilenses em outros voos.


Publicada às sextas-feiras (ou alguns dias depois), NOTAS CATARINAS é uma das colunas de opinião do jornal O Mirante Joinville. Como o nome sugere, são notas curtinhas e variadas sobre acontecimentos da política de Joinville e de Santa Catarina. Nas quartas-feiras vai ao ar a coluna A POLÍTICA EM JOINVILLE, com textos opinativos mais longos e monotemáticos. As duas são assinadas pelo editor Felipe Silveira (siga no Twitter).