NOTAS CATARINAS — Escalada fascista dá salto com demissão de professor em Criciúma e nota do Brusque

Texto: Felipe Silveira
Foto: Facebook de Clésio Salvaro

É normal que os jornais mais tradicionais não falem muito sobre o avanço do fascismo brasileiro em curso. E por uma razão muito simples: os jornais estão focados no presente, na narração dos fatos singulares — o que chamamos de notícias —, enquanto fenômenos políticos como a escalada fascista se dão ao longo do tempo, no encadeamento de ações, decretos, discursos, notas, manifestações, silêncios e silenciamentos.

Desse modo, é até difícil identificar quais desses fatos singulares compõem um movimento político. Alguns, porém, não deixam dúvidas. É o caso da demissão de um professor de Criciúma, na terça-feira (24), com direito à declaração homofóbica do prefeito tucano Clésio Salvaro em performance autoritária para as redes sociais. Vamos entender o caso antes de comentá-lo:

Na terça-feira (24), um professor contratado em caráter temporário pelo município exibiu para uma turma do nono ano o clipe de uma música do cantor Criolo. “Éterea” tem a temática LGBTQIA+ e chegou a ser indicada ao Grammy Latino em 2019. O clipe mostra pessoas dançando, com um visual associado à comunidade LGBTQIA+, que por acaso também se vê em milhares de clipes de música pop. Ainda na noite de terça-feira, o prefeito criciumense demitiu o professor, acusando-o de exibir um clipe erotizado (o que não é verdade) e disse que essa “viadagem” em sala de aula não será tolerada.

A sociedade reagiu. Além de protestos nos dias seguintes, com pixações pela cidade, a cidade realizou uma Parada LGBTQIA+ no sábado (28). Com base em uma denúncia da vereadora Giovanna Mondardo (PCdoB), o MPSC abriu uma investigação para apurar possível prejuízo à dignidade humana de caráter coletivo na exoneração do professor. O caso repercutiu nacionalmente e pessoas de todo o país criticaram a atitude de Clésio Salvaro.

Mas o que isso tem a ver com fascismo? Vamos pensar juntos. Fascismo é como chamamos os movimentos autoritários que se baseiam justamente na opressão de minorias, supressão de direitos, censura, perseguição etc. Outras características são o nacionalismo exacerbado, o regime antidemocrático/ditatorial, o uso da religião acima das leis e a centralidade em um líder. Não parece o Brasil de Jair Bolsonaro? Sim, o bolsonarismo é um projeto fascista em curso.

A sociedade brasileira vai resistindo ao bolsonarismo, mas o fascismo vai colocando suas asas de fora por meio de ações, manifestações e discursos. E a demissão do projeto em Criciúma é uma ação contundente que ilustra esse processo. É puro autoritarismo com base em preconceito, com perseguição à minoria, a partir de valores reacionários. E não foi algo simples. Foi a demissão de uma pessoa, algo que altera completamente a vida, sem julgamento, sem chance de defesa, por algo que sequer foi um erro.

Aliás, friso que a prefeitura tem todo o direito de avaliar os conteúdos transmitidos em sala de aula e eventualmente interferir, assim como os pais têm direito de acompanhar e, se julgarem devido, reclamar. Mas não era o caso. A exibição daquele clipe, para adolescentes daquela faixa etária, só seria considerada inapropriada em uma ditadura fundamentalista.

Por isso que trato o caso como um salto para o fascismo. A demissão do professor vai além dos costumeiros xingamentos, que já são muito graves. É o poder assumindo o discurso da massa linchadora e perseguindo pessoas. Qual é o próximo passo? Apedrejar na praça? Expulsar do país? As palavras já se tornaram gestos.

Santa Catarina já tem se notabilizado com o principal reduto bolsonarista, um dos poucos lugares que trata bem aquele maníaco entusiasta da pandemia de coronavírus e de outras políticas de morte. O belíssimo estado vai queimando seu filme enquanto parte de sua população perde a vergonha de dizer atrocidades preconceituosas. Que no sul há mais gente preconceituosa que a média nacional, especialmente racistas, é um fato, mas a vida em democracia não pode permitir que eles se sintam à vontade para exibir seus preconceitos e agir com base neles.

Racismo em Brusque

Outro caso que repercutiu nacionalmente, na noite de domingo (29), foi a trágica nota divulgada pelo clube de futebol do Brusque, acusando o jogador Celsinho de falsa imputação de crime, pois o mesmo denunciou, à imprensa e ao árbitro, que sofreu racismo de pessoas ligadas ao clube que estavam no estádio no sábado (28). Na data, o Londrina de Celsinho enfrentou o time catarinense pela Série B do Campeonato Brasileiro.

Celsinho usa um penteado afro. O cabelo grande, vistoso, é um símbolo de orgulho e resistência da comunidade negra. Dessa forma, ele também se torna um alvo de racistas, pois orgulho é justamente o que incomoda esses ratos malditos. Foi o terceiro caso de racismo contra o jogador nesta Série B. “Vai cortar esse cabelo, seu cachopa de abelha” foi o xingamento relatado na súmula da partida. À imprensa, Celsinho confirmou, a partir da pergunta do repórter, que foi chamado de macaco.

O Brusque tem o direito de negar o ocorrido, como de fato o fez, mas não tem o direito de tratar Celsinho da forma que tratou. Não deixa de ser uma forma de racismo tratá-lo como um mentiroso que de maneira reincidente inventa acusações de racismo. “O atleta, por sua vez, é conhecido por se envolver neste tipo de episódio”, acusou o Brusque, ainda sugerindo uma suposta contradição entre duas acusações.

Acontece que nas duas situações anteriores há registro do preconceito contra Celsinho, já que foram comentários registrados em emissoras de rádio que transmitiam as partidas. Os xingamentos em Brusque não foram registrados por microfones, mas, segundo o jornalista Rodrigo Santos, um colega de imprensa confirmou que ouviu a mesma expressão. O histórico racista das arquibancadas e do sul do país, além do que tem acontecido com o próprio atleta, não nos deixam pensar que Celsinho está mentindo sobre o que aconteceu. Ainda é importante destacar que Celsinho fez a denúncia, conforme determina a regra, para que ela seja apurada pelas autoridades competentes.

O Brusque poderia negar a acusação, mas, como em qualquer sociedade civilizada, também deveria pedir desculpas e se comprometer com uma séria investigação do caso. Preferiu o caminho contrário, explicitando sua visão de mundo e confirmando ao Brasil que o racismo é um problema em Brusque.

E aí voltamos para o início do texto. O que deixa o Brusque tão à vontade para escrever aquela atrocidade? Não é só falta de noção. Cada vez mais SC se torna um lugar confortável para preconceituosos se expressarem. Se um prefeito do sul demite um professor por causa de um clipe, se um prefeito do norte recebe Bolsonaro como alguém respeitável, se deputados se recusam a falar mal do presidente para não se queimar com o base e se o governador se recusa a assinar uma simples carta em defesa da democracia, o pior lado de Santa Catarina aflora. O estado se torna cada vez mais um ninho quente para o projeto fascista brasileiro.

Acordou

A prefeitura de Joinville finalmente decidiu fazer algo contra o coronavírus. Na quinta-feira, o prefeito Adriano Silva gravou um vídeo para alertar a população sobre a gravidade da pandemia na cidade. Ele solicitou às pessoas que usem máscaras, evitem aglomerações e se vacinem. Não tomou nenhuma medida efetiva, como restrições para quem não se vacinar, mas já é alguma coisa.

É alguma coisa diante de um governo que mal tocava no assunto e fingia que estava tudo bem. O próprio Adriano era um aglomerador que até passeio ciclístico organizava. Precisou que Joinville ficasse sem leitos e humilhada por ser a maior da única região que não consegue sair do estado gravíssimo na matriz de risco do governo do estado.

No entanto, a prefeitura segue cometendo erros. No pronunciamento, Adriano não falou nada sobre lugares arejados, que nada mais é do que a principal medida para evitar a transmissão da doença. Desconfio que a prefeitura sequer entende a importância desta medida, porque nada explica que nunca tenham falado sobre ela. Além disso, na foto enviada pela prefeitura na sexta-feira, o prefeito recebe várias pessoas em uma sala e o secretário de saúde, Jean Rodrigues da Silva, aparece sem máscara. Eles não conseguem dar bons exemplos.

Nas redes sociais, a população criticou a diferença entre o discurso e a prática.

Reunião do gabinete de crise para enfrentar o coronavírus – Foto: Prefeitura

Novo recorde

Ameaçado por um projeto de privatização, o porto de São Francisco do Sul atingiu um novo recorde. A movimentação no primeiro semestre deste ano foi 19,4% superior ao mesmo período de 2020. No ano passado, foram 6,05 milhões de toneladas e, em 2021, 7,23 milhões. As informações são da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). “Os dados mostram que o Porto de São Francisco consolida-se como o maior terminal portuário de Santa Catarina e o sétimo em volume na movimentação de cargas do Brasil”, disse o governador Carlos Moisés.


Publicada às sextas-feiras (ou alguns dias depois), NOTAS CATARINAS é uma das colunas de opinião do jornal O Mirante Joinville. Como o nome sugere, são notas curtinhas e variadas sobre acontecimentos da política de Joinville e de Santa Catarina. Nas quartas-feiras vai ao ar a coluna A POLÍTICA EM JOINVILLE, com textos opinativos mais longos e monotemáticos. As duas são assinadas pelo editor Felipe Silveira (siga no Twitter).