Pauta golpista de Bolsonaro, voto impresso ganha 14 votos de catarinenses, mas é derrotada na câmara

Por Felipe Silveira
Foto: Agência Brasil

Há quem acredite na legitimidade da proposta — por ingenuidade, por causa de fake news ou por contaminação ideológica —, mas ninguém deve se enganar acerca das intenções de Jair Bolsonaro no que diz respeito ao tema do voto impresso. É golpe! O presidente quer desacreditar o processo eleitoral para justificar a provável derrota em 2022 e, dessa forma, tentar permanecer no poder. Golpe similar foi tentado pelo trumpismo nos Estados Unidos, em janeiro, quando uma horda invadiu o parlamento deles.

A aprovação do voto impresso nunca esteve no horizonte bolsonarista. O governo tem amplo apoio na câmara para as pautas neoliberais, como privatizações e reformas trabalhistas, que agradam todo o conjunto da direita. Já para as pautas que interessam somente ao bolsonarismo, o cenário fica dividido, conforme foi demonstrado na noite de terça-feira (10), na votação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 135/19.

Foram 229 votos favoráveis, 218 contrários e 1 abstenção. Como não atingiu o mínimo de 308 votos favoráveis (são necessários 2/3 da câmara para aprovar alterações na Constituição), o texto foi rejeitado e será arquivado.

Ou seja, há um parlamento dividido pelo bolsonarismo, que vota a favor quando convém, mas que também periga perder para Bolsonaro quando não convém. Há um grupo muito grande de parlamentares e de brasileiros que flerta com o golpe e com a erosão democrática. E há um grupo maior ainda que não enfrenta e silencia diante das aspirações golpistas.

Vejamos o caso de Santa Catarina, que recebe Bolsonaro com frequência sem esperar nada em troca. Dos 16 parlamentares, dois votaram contra a PEC, mas uma delas por engano. Angela Amin (PP), que anunciou o apoio à pauta, se atrapalhou com o sistema de votação e votou contra. O petista Pedro Uczai foi o único, como de costume, a se opor a Bolsonaro.

Que catarinenses votem a favor de privatizações ou de reformas que reduzem direitos é esperado, mas o voto impresso é a pauta mais golpista de Jair Bolsonaro. Mesmo assim, 15 deputados embarcaram na aventura. E para isso há diferentes explicações:

Uma parte desses 15 deputados é entusiasta da erosão democrática. Eles adorariam que o Brasil se tornasse uma espécie de Hungria, com Jair Bolsonaro fazendo o papel de Viktor Orbán. O primeiro-ministro do país europeu, de extrema-direita, controla o judiciário, o parlamento, a imprensa, as universidades e até clubes de futebol, tudo por meio de manipulação, repressão e perseguição. E os laços de Bolsonaro com o movimento de extrema-direita internacional são públicos.

Outra parte dos 15 deputados que apoiaram o voto impresso o fez porque ainda está surfando na Onda 17 que a elegeu. Talvez até gostariam de um cenário diferente, mas o medo de perder a base eleitoral é maior. Em SC, Bolsonaro tem votos, público e fãs enlouquecidos. Eles fazem barulho nas ruas e nas redes sociais. E foram eles que levaram esses deputados ao Congresso Nacional. Do ponto de vista moral, rachar com o bolsonarismo é obrigação, mas não é esta a régua adotada pela maioria dos políticos.

Ainda há uma parte que acredita no voto impresso como o mais seguro. Porém, não devemos ser condescendentes com a burrice de parlamentares eleitos com milhares de votos.

Os três deputados de Joinville — Darci de Matos, Rodrigo Coelho e Coronel Armando — votaram a favor da PEC do Voto Impresso e são fiéis a Jair Bolsonaro – Fotos: Divulgação

Independentemente do grupo que estão, e muitas vezes estão em mais de um, o que importa é que a maioria dos deputados catarinenses apoiou a pauta golpista de Bolsonaro. Se dependesse do estado, que tanto contribui na economia, nos esportes e figuras de importância social, o Brasil estaria ainda mais lascado.

Voto impresso é um golpe mesmo?

Disse lá em cima que a aprovação do voto impresso nunca esteve no horizonte de Bolsonaro. Digo isso porque a aprovação era o de menos na estratégia bolsonarista, embora bastante desejável. Se tivesse sido aprovada, a “nova-velha” maneira de contar os votos facilitaria enormemente a fraude eleitoral. Bastaria que um pequeno grupo de bolsonaristas alegasse que o voto no papel foi diferente do voto na urna. Seria suficiente para a instauração do caos no país. A recontagem dos votos impressos seria um terror, com fiscal comendo voto, urna roubada, pressão miliciana na sala de contagem e tudo mais. No passado era assim.

De qualquer forma, a intenção de Bolsonaro não era exatamente a aprovação. O objetivo sempre foi tumultuar, fazer arruaça e assim estressar a democracia. Quanto mais estressa, mais desvia o foco dos mortos pela covid-19, da investigação da CPI, das acusações de corrupção e das pautas “polêmicas” que avançam no Congresso.

Quanto mais estressa a democracia, mais próximo de dar um golpe ele fica. Ao desacreditar o sistema eleitoral e quem o coordena (o TSE, atualmente presidido pelo ministro Luís Roberto Barroso), Jair Bolsonaro arma uma arapuca. Se perder a eleição, poderá chamar uma insurreição que contará com militares, policiais civis e militares, militantes alucinados e outros tantos adeptos dispostos a abraçar o novo regime.

O voto impresso poderia ser uma discussão legítima. Já foi em outros momentos. Os sistemas devem ser questionados, corrigidos e melhorados, quando possível. Mas nunca foi a intenção de Jair Bolsonaro. Disposto a botar tanques na rua, mas ciente de que o verdadeiro golpe é a erosão institucional, o presidente atua diuturnamente dessa forma. O golpe está aí. Cai e participa quem quer.

Votaram a favor da PEC

Carlos Chiodini (MDB)
Celso Maldaner (MDB)
Rogério Peninha (MDB)
Caroline de Toni (PSL)
Coronel Armando (PSL)
Daniel Freitas (PSL)
Fábio Schiochet (PSL)
Darci de Matos (PSD)
Ricardo Guidi (PSD)
Geovânia de Sá (PSDB)
Gilson Marques (Novo)
Helio Costa (Republicanos)
Rodrigo Coelho (sem partido, rumo ao Podemos)
Carmen Zanotto (Cidadania)