Prefeitura de Joinville não compreende transmissão da covid-19 e dá péssimo exemplo

Por Felipe Silveira
Foto: Prefeitura

“Prefeitura de Joinville nega violação de regras sanitárias em evento com Bolsonaro” é o título de uma matéria do jornal O Município. Você, como eu, ao vê-la, disse algo mais ou menos assim: “Mas não é possível!”. Porém, é possível, sim, e é um caso mais complicado do que parece.

Não foi a primeira vez que a prefeitura de Joinville divulgou uma nota sem pé nem cabeça para justificar um erro do prefeito Adriano Silva relacionado à covid-19. Em março, quando Adriano celebrou alegremente o retorno das pessoas ao revitalizado Parque das Águas e o caso ganhou repercussão nacional porque no vídeo aparecia gente sem máscara, a nota da prefeitura ignorou a questão feita pelo jornal A Notícia. Não houve um pedido de desculpas, não houve explicação, não houve sequer menção às pessoas que estavam sem máscara ou ao estado gravíssimo em que a cidade se encontrava. Foi uma coisa maluca, em que a prefeitura praticamente ignorou a questão feita por um jornal seríssimo. O jornal perguntou A, a prefeitura respondeu B e ficou por isso.

No último final de semana, quando Jair Bolsonaro esteve em Joinville, mais uma nota sem cabimento justificou o comportamento errático do prefeito. Desta vez foi o jornal O Município que questionou se a recepção ao presidente não violou regras sanitária de enfrentamento à covid-19. E, diferentemente da situação de março, a prefeitura não ignorou a pergunta. Fez pior. Veja você mesmo:

A reunião seguida de almoço foi realizada no Perini Business Park no dia 6 de agosto de 2021, em salão com aproximadamente 1.500m2. Na ocasião estiveram aproximadamente 340 convidados da PMJ, ACIJ e FIESC, para um evento coorporativo. Na ocasião, os responsáveis aplicaram a Portaria SES 453/2021, não sendo restringida à quantidade de pessoas, mas  cálculo conforme fator distanciamento FD (2). Diante das informações obtidas, estima-se que o local comporte aproximadamente 750 pessoas.

A prefeitura não ignorou a pergunta, mas ignorou o fato. Houve evidente violação das regras sanitárias. As fotos e vídeos não mentem: aglomeração gigante, quase todo mundo sem máscara, sem distanciamento. Brigar com as imagens é doideira. Ou coisa pior.

E agora chegamos no ponto que quero discutir, pois certamente será questionado pelos leitores e leitores logo que lerem o título do texto: você acha que a prefeitura mentiu ou acredita mesmo na lorota que registrou em nota?

Eu acredito nas duas coisas. A explicação da prefeitura é, claramente, balela. Eles sabem que regras foram violadas, mas foram atrás de uma explicação qualquer porque precisavam justificar de alguma forma. Encontraram essa conta sem sentido e jogaram para o público. Há, afinal, quem compre a versão. Contudo, o mesmo governo já deu sinais de que não compreende bem como funciona a transmissão da doença e, dessa forma, também não sabe quais são as melhores maneiras de preveni-la. Consequentemente, dá mau exemplo.

Já registrei em mais de uma coluna que os exemplos são ruins. Talvez o principal seja a aglomeração em lugares fechados, como Adriano faz frequentemente na sala da prefeitura. Com um ano e meio de pandemia, todas as pessoas interessadas sabem que o principal fator de transmissão é o local fechado, com baixa circulação de ar. Explico de um jeito bem simples e popular: se você entra em casa e sente o cheiro de gás de cozinha, a primeira coisa que você deve fazer é abrir bem portas e janelas, para que o gás se dissipe no ar. É por isso que o gás tem que ficar do lado de fora da casa, pois, se vazar, ele se dissipara rapidamente no espaço aberto, praticamente sem riscos para as pessoas.

Com o coronavírus é a mesma coisa. Quando uma pessoa contaminada solta o ar que respirou, ela vai enchendo o espaço — sala, escritório, pista de dança, restaurante, academia… — com esse “gás contaminado”. Se o espaço está fechado (com baixa circulação), o ar contaminado será respirado por outras pessoas, gerando o contágio. Quando você está sem máscara, a chance de se contaminar é muito maior. Por isso que bares e restaurantes são ainda mais perigosos que outros espaços, já que as pessoas ficam sem máscaras para comer e beber.

Agora pense no encontro com Bolsonaro, naquele salão com 340 pessoas excitadas pela presença do ídolo. O ar estava um nojo! Evidentemente que o contágio só ocorre se há pessoas contaminadas expirando o vírus. Como havia muitos negacionistas no local, é provável que já tenham pegado a doença ao longo desse um ano e meio, reduzindo as chances de contaminação no encontro. Mas, de qualquer forma, aquela situação não foi nada segura do ponto de vista sanitário.

Se você já sabia ou aprendeu agora, já notou que não é exatamente o distanciamento que vai te proteger da covid-19. Ele é super-importante, claro, até porque o coronavírus também é transmitido por meio de perdigotos e pelo “jato de ar” da expiração. No entanto, o que te protege mesmo é evitar ao máximo os lugares fechados, em que o ar fica concentrado, pois são nesses espaços que o coronavírus fica, digamos, flutuando. E se você tiver que ir em um local assim, use uma boa máscara, com filtro, bem ajustava ao rosto. Isso vai evitar a possibilidade de contaminação.

Agora pensemos na postura da prefeitura diante dessas informações. O governo de Adriano Silva não fez nada para conscientizar a população acerca desses detalhes. Eles apenas repetiram o mantra “máscara, álcool em gel e distanciamento”, mas com a profundidade de um pires. Nunca explicaram sobre a concentração do ar, sobre espaços abertos e bem arejados, sobre máscaras adequadas e bem ajustadas — o prefeito usa uma de pano. Sequer fizeram uma campanha que apelasse para o lado sentimental, como tantos governos fizeram, lamentando as perdas e alertando para as sequelas.

E se não fez campanha, também não fez do ponto de vista prático. A prefeitura poderia estimular que atividades religiosas fossem praticadas ao ar livre, em pátios e estacionamentos. O mesmo para academias, pelo menos quando fosse possível. Várias cidades do mundo estimularam o uso de calçadas e até mesmo de ruas para bares e restaurantes, evitando o espaço fechado e a contaminação. Aqui não se viu nada disso.

Também não se vê o prefeito estimular a vacinação. O jornalista Upiara Boschi contou como o prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro, tem usado a vacinação como plataforma de campanha. O mesmo vemos em João Dória, governador de São Paulo. Pode ser eleitoral, mas são comportamentos estimulantes, incentivos importantes para uma população que está sob uma chuva de desinformação. O Brasil ainda não sofre, como os Estados Unidos e a Europa, com a negação às vacinas, mas é um problema crescente que o bolsonarismo tem agravado. O reforço positivo de Adriano Silva seria importante, mas ele quase não toca no assunto. E, exibicionista que é, não pode alegar falta de oportunidade.

Tudo isso deu a Joinville números piores que os de Santa Catarina e do Brasil, conforme detalhei recentemente. Há um percentual de contaminados maior em Joinville. Claro que ser uma cidade com altos índices de bolsonarismo atrapalha, mas os prefeitos Udo Döhler e Adriano Silva também não ajudaram.

Os números, não podemos esquecer, são vidas. Até o momento, Joinville perdeu 1.666 pessoas para a doença. E vai perder muito mais se não cuidar, já que a situação nunca esteve boa e a variante delta, que tem apavorado parte do mundo, já circula pela cidade há mais de um mês. Já passou da hora de a prefeitura aprender como a transmissão funciona, agir para evitá-la e dar bons exemplos.