NOTAS CATARINAS — O malandro e os otários

Por Felipe Silveira
Foto: Agência Brasil

Diz o dito popular que todos os dias saem de casa um malandro e um otário, de modo que, quando eles se encontram, dá negócio. Obviamente que o malandro sai no lucro enquanto o otário é lesado. Nesta sexta-feira (6), em Joinville, um malandro vai encontrar um monte de otários. O malandro é Jair Bolsonaro e os otários são os joinvilenses que vão puxar seu saco.

Esse malandro já enganou muita gente. Elas quiseram ser enganadas, é verdade, pois sempre esteve muito clara a vilania de Jair. A presidência, no entanto, escancarou que ele era essa pessoa horrível mesmo, e muita gente acordou. Está começando a faltar otário em outros cantos do país e o malandro está procurando nos redutos. Por isso que vem pela segunda vez a Santa Catarina em pouco mais de um mês.

A ideia era visitar somente Florianópolis, onde ele fará uma “motociata” no sábado, mas os otários joinvilenses foram implorar por um pulinho em Joinville. E lá vem Jair matar mais um dia de trabalho. Por aqui, participará de um almoço com empresários em um condomínio industrial, será homenageado pelos bombeiros voluntários e visitará dois batalhões. Ou seja, nada de útil para a cidade.

Mas mesmo que Bolsonaro oferecesse algo à cidade, recepcioná-lo é uma aberração. Mais de 560 mil brasileiros morreram por causa de uma doença que recebeu todo tipo de apoio do presidente. Não, eu não disse que o enfrentamento à doença recebeu apoio. Bolsonaro fez de tudo para apoiar a doença. Promoveu aglomerações, incentivou as pessoas a se aglomerarem e a não se cuidarem, mentiu sobre a gravidade, insistiu na indicação de remédios ineficazes contra a doença, falou mal de vacinas, foi extremamente omisso na compra de vacinas e, por fim, zombou dos mortos mais de uma vez. Milhares de pessoas morreram por causa dele.

Estou falando só da atuação na pandemia, mas Jair Bolsonaro é tudo de ruim. Seu discurso sempre foi uma ode à morte. Seu ídolo, um torturador. Foi um parlamentar horrível, sobre o qual pesam muitas acusações de corrupção. A principal delas é o roubo de salário de assessores-laranjas. Sua faceta mais perigosa, no entanto, está em evidência neste exato momento. Bolsonaro está tentando construir um golpe de estado que dará após perder a eleição.

Um conjunto muito grande de fatores levou Bolsonaro à presidência. A atuação de um juiz safado que ganhou um cargo no governo, um esquema internacional de fake news e até uma facada infeliz (entenda como quiser) foram elementos importantes que decidiram a eleição de 2018. Mas inegavelmente houve uma vontade popular. Muita gente votou no crápula porque quis. Em Joinville, mais de 83% dos eleitores do segundo turno.

Felizmente, muita gente tem acordado para a realidade. No Brasil, o cerco se fecha. A CPI da Covid vai desvendando os crimes do governo federal no enfrentamento à pandemia, o poder judiciário começa a oferecer maior resistência ao golpe e a população o rejeita cada vez mais. Restam os otários, com alguns que vão encher as ruas de Joinville nesta sexta-feira. Aproveita enquanto pode, malandro, porque uma hora vai acabar. Afinal, o mal do malandro é achar que todo mundo é otário.

Homenagem

Montagem da página Joinville da Zueira

Deprimente, embora não surpreendente, a homenagem que o Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville (CBVJ) fará a Jair Bolsonaro. Ele receberá a Ordem da Machadinha. Mas como nem tudo são espinhos, o fato rendeu uma piada maravilhosa da página Joinville da Zueira. Eles “perceberam o erro” e corrigiram a palavra “machadinha” para “rachadinha”. Com certeza Jair Bolsonaro se sente mais à vontade quando o assunto é rachadinha, a especialidade da casa.

Brilho no olhar

Escrevi recentemente que o prefeito Adriano Silva cada vez mais se entrega ao bolsonarismo. Nesta sexta-feira tiraremos a prova. Adriano já elogiou o governo, já se posicionou contra o impeachment e disse que foi uma honra ser recebido pelo presidente em Brasília. É nesta sexta que ele se perde.

Aliás, a única serventia da visita presidencial é a depuração que poderemos fazer. Vamos ver quem se baba todo diante do presidente. Será um bom filtro para as próximas eleições.

Protesto

Quem quiser poderá protestar contra a presença de Jair Bolsonaro em Joinville. Será na Praça da Bandeira, às 18 horas. O grupo — formado por diferentes entidades, partidos e movimentos sociais — entende que não é seguro realizar o protestos nos locais em que Jair Bolsonaro estará. Uso de máscara é obrigatório.

Diálogo?

O que os deputados estaduais mais falaram durante a tramitação da reforma da previdência de SC é que houve muito diálogo entre as partes envolvidas. Se falam tanto, se tentam tanto emplacar essa versão, é porque não teve. Foi um atropelo com alguma formalidade aqui e ali.

Troca infeliz

Joinville “trocou” a octogenária Festa das Flores por uma feira de armas em 2021. Meses atrás, a prefeitura emitiu um comunicado sobre o cancelamento a mais tradicional festa local. O motivo, como em 2020, era a pandemia. No entanto, a Festa das Flores ocorre em novembro, em um momento que a segunda dose da vacina estará no corpo de praticamente todo mundo que quiser. Já a feira de armas ocorre no final de agosto.

A princípio, a feira de armas não tem apoio da prefeitura. A crítica que faço é a cidade, que agora sedia uma festa da abjeta cultura armamentista. Aos poucos deixamos de dançar, pedalar e plantar para atirar. Aceitar essa mudança cultural vai nos matar. Talvez literalmente.

O que não é literal neste texto é o verbo “trocou”. A tendência é que a Festa das Flores volte a ocorrer. Mas o fato é que a cidade não terá uma festa das flores e terá uma gigantesca feira de armas em 2021. Nesse sentido, a cidade trocou uma coisa pela outra.


Publicada às sextas-feiras, NOTAS CATARINAS é uma das colunas de opinião do jornal O Mirante Joinville. Como o nome sugere, são notas curtinhas e variadas sobre acontecimentos da política de Joinville e de Santa Catarina. Nas quartas-feiras vai ao ar a coluna A POLÍTICA EM JOINVILLE, com textos opinativos mais longos e monotemáticos. As duas são assinadas pelo editor Felipe Silveira (siga no Twitter).