A POLÍTICA EM JOINVILLE: Omissão de Udo e Adriano dão a Joinville números piores do que os de SC e do Brasil

Por Felipe Silveira
Foto: Divulgação

Joinville ultrapassou, na quinta-feira (29), a marca de 100 mil pessoas diagnosticadas com covid-19. O número redondo chamou a atenção e facilitou a conta. Ora, se a cidade tem quase 600 mil habitantes e já registra 100 mil casos, isso significa que um a cada seis joinvilenses foi diagnosticado com a doença. Um número assustador para uma doença tão letal.

Também ficou fácil para comparar, na cabeça mesmo. Naquele dia, Santa Catarina registrou pouco mais de 1,1 milhão de casos. Como o estado tem pouco mais de 7 milhões de habitantes, significa que um a cada sete catarinenses recebeu o diagnóstico positivo da doença. Número terrível, mas melhor do que Joinville.

Para não ficar na conta aproximada, fiz a exata. Busquei os números da população conforme as estimativas mais recentes do IBGE e bati com os registros da quinta-feira. Dos 7.252.502 catarinenses, 1.110.704 tiveram a doença confirmada, o que dá 15,3%. O percentual joinvilense fica próximo, mas um pouco pior. Dos 597.658 joinvilenses, 100.038 tiveram o registro positivo, totalizando 16,7%.

Os dois números são piores do que o percentual brasileiro. O país tem 214.872.496 habitantes, sendo que 19.838.909 contraíram a doença, o que dá 9,2% da população. E estamos falando do país que é considerado um dos piores no enfrentamento à pandemia, que tem cerca de 13% das mortes no mundo. É o terceiro país do mundo com mais mortes, atrás apenas de Estados Unidos e Índia, bem mais populosos.

Os responsáveis pela tragédia joinvilense, que vitimou 1.645 pessoas até a segunda-feira (2), têm nome e sobrenome. Um deles se chama Udo Döhler e era o prefeito de Joinville quando o vírus se espalhou pelo mundo. O outro se chama Adriano Silva e comanda a cidade desde janeiro de 2021. Em comum, além de serem empresários de famílias tradicionais da cidade, o negacionismo parcial acerca das principais medidas de combate à pandemia.

Totalmente diferente de Adriano em termos de auto-promoção, o ex-prefeito Udo Döhler já falava pouco, mas praticamente sumiu no início da pandemia. O silêncio foi notado e virou uma piadinha local, hoje pouco lembrada. Quem falava muito entre março e abril do ano passado foi o governador Carlos Moisés, que diariamente vinha a público, trajado com o colete da Defesa Civil, responder perguntas da imprensa e defender as medidas de isolamento que acertadamente determinou. Depois ele se complicou, mas aí já é outra história.

Quando Udo falou, sentimos saudade do silêncio. Em entrevista para uma rádio local, defendeu a imunidade de rebanho e que só os idosos deveriam ser isolados. Parece um absurdo agora, né? Na época já era um absurdo. Também era a grande pauta dos negacionistas. Depois eles inventaram outras, como tratamento precoce, vacina com chip e outras bobagens. Todas que contribuíram para que o povo não se cuidasse adequadamente e morresse. Sem falar das graves sequelas, que serão tão duras para o povo e vão sobrecarregar o sistema de saúde.

A bobagem dita na rádio não foi a única omissão do ex-prefeito. Muito suscetível à pressão empresarial, e ele mesmo um empresário que não deixou a mega-empresa familiar, era um crítico das medidas restritivas impostas pelo governo estadual. A prefeitura liderou uma ação para botar mais gente no ônibus do que normativa do governo estadual previa. Também foi em seu governo que foi aberto o centro de tratamento precoce.

Adriano Silva, que cada vez mais se enamora ao bolsonarismo, foi pior que o antecessor. Com seu perfil “labrador humano”, não soube respeitar o grave momento de dor joinvilense. A cidade viveu um mês de março terrível, com unidades de saúde abarrotadas, leitos improvisados e equipes de saúde esgotadas. Morreram 288 joinvilenses naquele mês.

Naquele mês, Adriano negou enfaticamente a possibilidade de um lockdown. Ele sempre soube que era a medida mais razoável, como o mundo todo tomou, mas nunca assumiu. Se assumisse que lockdown funciona, teria que decretá-lo, e isso não admitiria. Dizia que tinha que equilibrar medidas contra o coronavírus e a economia, para que as pessoas não passassem fome. Enquanto isso, empresas joinvilenses batiam recordes e recordes de lucratividade. Foi um escândalo.

Adriano publicou vídeo no parque, todo sorridente, com pessoas sem máscaras ao fundo; postou foto tomando açaí, na praia, em um momento terrível da cidade; fez um monte de reunião em lugar fechado (um dos principais fatores de transmissão); postou story divulgando o centro de tratamento precoce; e recentemente elogiou o governo Bolsonaro, que é o maior culpado pela tragédia que vivemos.

É preciso lembrar que médicos de Joinville tiveram que escolher quem entre quem teria a chance de sobreviver e quem ia morrer. Quem confirmou isso foi o secretário municipal de saúde, Jean Rodrigues da Silva, o único que seguiu secretário na transição entre os dois governos. Bom gestor ao longo do governo emedebista, Jean aceitou e defendeu as decisões irresponsáveis dos dois chefes. Talvez tenha seguido no cargo justamente por aceitar.

Por todas as bobagens que disseram, Udo e Adriano podem ser considerados negacionistas, ao menos em parte. De todo modo, eles cometeram o pecado mortal da omissão. Não lideraram os munícipes à fundamental fuga do mortal coronavírus. Era uma tarefa difícil, mas tinha que ser feita. Ainda tem que ser feita.

Publicada às terças-feiras, A POLÍTICA EM JOINVILLE é uma das colunas de opinião do jornal O Mirante Joinville, na qual o editor Felipe Silveira (siga no Twitter) propõe um debate sobre um tema relacionado à política municipal. Nas sextas-feiras vai ao ar a coluna NOTAS CATARINAS, que traz notas mais curtas sobre temas estaduais.