NOTAS CATARINAS — Uma semana de péssimas companhias

Por Felipe Silveira
Fotos: Divulgação

A tentativa de aprovar o voto impresso é só uma tentativa de desestabilizar a república brasileira. Mesmo que fosse possível adotá-lo em 2022, a impressão tornaria o sistema eleitoral inseguro, violável, sujeito a atentados e aos mais diversos tipos de questionamento na Justiça (podcasct A Malu tá on, sobre o tema), o que inviabilizaria um processo eleitoral que funciona muito bem. E todo mundo sabe disso.

Desse modo, é praticamente consenso entre os analistas políticos sérios que a insistência de Jair Bolsonaro no tema faz parte de um processo muito mais sério, uma cristalina ameaça à democracia. Caso ele perca a eleição (o que as pesquisas indicam), vai alegar que as urnas foram fraudadas e chamar um golpe. Este plano está estampado em todo lugar para quem quer ver.

Mas há quem embarque nessa barca furada, como o deputado federal Darci de Matos (PSD). O joinvilense não respondeu ao jornal O Mirante se está com o governo e anda quieto sobre o tema, mas claramente ainda é parte da base de Jair Bolsonaro. Membro da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, Darci, tantas vezes eleito pela urna eletrônica, agora quer a impressão do voto. Aliás, não é possível saber se ele quer mesmo ou se esta é só mais uma maneira de aderir ao bolsonarismo que tanto agrada parcela dos eleitores locais.

Na segunda-feira (19), o deputado publicou um vídeo de apoio ao voto impresso, na qual aparece uma das figuras de maior destaque do bolsonarismo, a colega Bia Kicis (PFL-DF), presidente da CCJ. Curiosamente, o vídeo tinha o objetivo de prestar apoio ao projeto da parlamentar do DF, mas se parece muito mais com uma peça de campanha de Darci de Matos, que tenta se colar às figuras de destaque do movimento bolso-golpista.

Novo EIXO

Neta de um ministro nazista, a parlamentar alemã Beatrix von Storch está no Brasil para construir um novo EIXO com seus iguais e similares. Você já deve imaginar quem. Ah, se ela fosse só neta de um nazista, vá lá, parente ninguém escolhe, mas von Storch também fundou um partido de extrema-direita que tem assombrado a Alemanha nos últimos anos. Ela é nada mais do que a vice-líder do Alternative für Deutschland (AfD, que significa Alternativa para a Alemanha), partido nacionalista e xenofóbico (entre outros graves problemas) que tem cada vez mais se radicalizado.

E quem celebrou o encontro com a alemã foi justamente a bolsonarista Bia Kicis, a amigona do joinvilense Darci de Matos. Olhem que mundo pequeno: Darci, que ama Bia, que ama Beatrix, que ama Ad… deixa pra lá.

Já é feio demais andar com Bolsonaro, mas ninguém precisa se rebaixar tanto por alguns votos. Ficar tão próximo de coisa ruim pode ser contagioso. Espero que o deputado perceba isso e se afaste a tempo, pois ainda tem uma biografia — goste o público ou não — a zelar.

Armado e ridículo

Quem se perdeu completamente no personagem bolsonarista foi Kennedy Nunes (PTB). O deputado estadual que quer ser senador aposta todas as fichas no comportamento constrangedor dos seguidores fanáticos do presidente. E não é de hoje. Bom orador, faz tempo que Kennedy encheu seu discordo com a retórica QAnon, que tenta associar pedofilia, drogas e “ideologia de gênero” à esquerda, se colocando como o anti-tudo isso.

E se não bastassem as palavras horrorosas, agora ele também tem atitudes dessa natureza. Em entrevista à rádio 105 FM, de Jaraguá do Sul, na segunda-feira (19), Kennedy mostrou uma arma que carrega consigo. Alega ter sido ameaçado.

Pode até ser verdade que tenha sido ameaçado, mas podem ter certeza que a exibição da arma nada tem a ver com segurança, mas sim com propaganda. O que o pré-candidato ao Senado quer é conquistar os votos dessa galera tarada pelo cano de ferro.

Ah, também durante a semana, na Alesc, o bolsonarista Kennedy Nunes se posicionou contra a privatização dos portos de São Francisco do Sul e de Imbituba, articulada pelo governo do estado, do qual é oposição. “Deixe os nossos portos em paz”, disse Kennedy, bugando a cabeça dos bolsonaristas que têm a privatização como uma das palavras de ordem.

Deputado estadual, Kennedy Nunes se filia ao PTB de Roberto Jefferson para concorrer ao Senado – Foto: PTB

Cada vez mais para lá

Foi de chorar em alemão a entrevista do prefeito Adriano Silva ao jornal paranaense Gazeta do Povo. Como único prefeito do partido Novo, o mandatário joinvilense tem recebido alguma atenção nacional e dessa vez foi ouvido por um veículo que deu uma guinada à direita nos anos recentes. E se recebeu mais críticas do que elogios (G1) dos veículos nacionais nos últimos tempos, a entrevista da Gazeta foi só bola levantada, sempre na ponta direita, o que pode ter deixado Adriano à vontade para expôr um pouco mais o que pensa.

“Eu tenho uma visão otimista do governo federal” foi uma das frases chocantes do prefeito joinvilense. Adriano também disse que vê muitos pontos positivos no governo, com o qual quer ter uma boa relação, e que acha extremamente precipitado ser contra ou a favor ao impeachment. Além disso, se disse totalmente favorável ao voto impresso, pois “quem não deve, não teme”.

À exceção do PDT, partido de centro-esquerda que tem uma história antiga acerca do voto impresso, esta não é uma posição muito comum fora do bolsonarismo e surpreende que um político que fala em inovação e tecnologia tenha comprado tão fácil essa barbaridade.

E aqui cabe uma observação do colunista acerca do bolsonarismo, tratado com todo o repúdio por este jornal. A esta altura do campeonato, não cabe mais explicar ao leitor que o bolsonarismo é a barbárie. Muito menos ao leitor de O Mirante. Os fatos, alarmantes, GRITANTES, são muitos, em todos os aspectos do governo. E quase todo mundo já sabe disso, à exceção de quem não quer saber. Por isso, quando o prefeito joinvilense, que não se elegeu no restolho da onda 17, se aproxima do bolsonarismo dessa forma, a única coisa que resta ao jornalista é a indignação.

O Bem-Amado em Joinville

Este texto falou sobre companhias ruins, mesmo que os acompanhantes não reconheçam desta forma: Darci de Matos & Bia Kicis; Bia Kicis & alemã tenebrosa; Kennedy & arminha; e, por fim, Adriano & bolsonarismo. Mas também há que esteja todo pimpão com as novas companhias, como o prefeito de Jaraguá do Sul, Antídio Lunelli, pré-candidato pelo MDB ao governo do estado.

Com dinheiro e uma experiência positiva de gestão pública (foi reeleito com mais de 70% dos votos em 2020) o empresário-prefeito jaraguaense já contava para credenciá-lo na corrida ao governo do estado, mas ainda falta um peso político mais graúdo, algo que pode vir de Joinville. Na noite de quinta-feira (22), o MDB local oficializou o apoio ao prefeito vizinho na disputa interna do partido, que também conta com o senador Dário Berger e o deputado federal Celso Maldaner.

Antídio ainda tem muito chão pela frente para conquistar a chance de concorrer pelos emedebistas. A briga será dura, com políticos bem mais experientes e a possibilidade de alianças inesperadas, mas o apoio joinvilense pode ser o gás necessário para o jaraguaense não ficar para trás na corrida.


Publicada às sextas, NOTAS CATARINAS é uma das colunas de opinião do jornal O Mirante Joinville. Como o nome sugere, são notas curtinhas e variadas sobre acontecimentos da política de Joinville e de Santa Catarina. Nas terças-feiras vai ao ar a coluna A POLÍTICA EM JOINVILLE, com textos opinativos mais longos e monotemáticos. As duas são assinadas pelo editor Felipe Silveira (siga no Twitter).