A política em Joinville: O problema do DNA alemão

“A política em Joinville” é a coluna de opinião do jornal O Mirante

Por Felipe Silveira
Foto: Divulgação

“Nossa cidade tem esse aspecto empreendedor por causa do DNA dos alemães.”

A frase acima foi dita pelo prefeito Adriano Silva ao cônsul-geral da Alemanha em Porto Alegre, Milan Andreas Simandl, que visitou Joinville no domingo e na segunda-feira (28). A frase de Adriano Silva, além de bastante problemática do ponto de vista racial, não é verdadeira. E vamos explicar o motivo.

Primeiro que não existe esse negócio de “DNA empreendedor”. O Ácido Desoxirribonucleico (DNA) apresenta pequenas diferenças entre povos, mas todas são meramente físicas e insignificantes do ponto de vista de capacidades. Questões como o empreendedorismo são sociais e culturais, de modo que é o contexto social, econômico, político, histórico e cultural que determina a vida como ela é.

Vamos ter boa vontade e considerar que Adriano Silva queria se referir à cultura alemã quando fez o comentário ao cônsul. Mesmo assim é um erro. Aliás, dois erros. O primeiro é que adultos levemente politizados sabem que não devem mencionar características genéticas em debates. Ainda mais os alemães, cuja história ficou marcada pelo austríaco desgraçado que queria exterminar outros povos alegando superioridade genética. Eu sei que Adriano não pensa nada disso, mas não pode ser distraído ao ponto de falar uma barbaridade dessa sem ao menos perceber a gravidade.

O outro erro, e este ocupa o argumento principal do texto, é que tampouco a cultura alemã é superior em termos de empreendedorismo. É claro que a Alemanha tem uma invejável história de produção do conhecimento, ciência, tecnologia e indústria, mas isso se dá em circunstancias históricas. Diversos outros povos, aliás, tem desenvolvimentos invejáveis. A Inglaterra, a França, a Itália, os EUA, a China são alguns exemplos, assim como o Brasil no Século 20, o país com o maior crescimento econômico do mundo no período. Tudo isso são circunstâncias históricas. E é sobre elas que vamos falar acerca de Joinville.

Perfil diferente

A colonização de Joinville não se deu da mesma maneira que a maior parte da colonização europeia pelo Brasil — que substituiu a mão de obra de escravizados em grandes latifúndios pelo país. Fugindo para preservar o pescoço e lascado financeiramente, o príncipe que dá nome à cidade decidiu vender as terras para levantar uma graninha e fez o acordo com a sociedade colonizadora. Esta, por sua vez, foi atrás de clientes na Alemanha, cheia de promessa de vida melhor no Novo Mundo.

Parte deste público era de agricultores sem perspectiva em uma Europa cheia de turbulências, mas outra parte era gente politizada e envolvida nos movimentos revolucionários daquele período. Alguns fugiam da repressão política. E estes não eram agricultores, mas sim políticos, advogados, jornalistas e comerciantes. Eles nem queriam pegar na enxada para plantar batata, mas tocar a vida mais ou menos da mesma forma que faziam antes.

Ou seja, até havia algum empreendedorismo já no início da formação de Joinville, mas por mera circunstância política e social. Alguns colonos nem sabiam capinar um lote e tinham que fazer outras coisas para sobreviver.

Prefeito Adriano Silva recebe cônsul alemão – Foto: Prefeitura

Geografia

Quando os colonos chegaram neste manguezal, viram que seria difícil plantar por aqui. As terras mais agricultáveis pertenciam aos coronéis luso-brasileiros da região. Alguns imigrantes foram embora (para outros estados ou serra acima), outros plantaram do jeito que deu e quem conseguiu fez outro tipo de negócio. Este fator também fez com que Joinville não fosse uma cidade ligada a grandes latifundiários. Para sobreviver aqui, era preciso fazer algum negócio. Novamente, nada a ver com o DNA, mas com a necessidade.

Outro aspecto geográfico foi determinante para o sucesso de Joinville (em termos econômicos) foi a localização entre a serra e o mar. No planalto norte se produzia a erva que era entregue ao mundo pelos navios que saiam do porto de São Francisco do Sul. Os negócios eram feitos em Joinville, onde também se produzia todo tipo de equipamento necessário a esta poderosa economia. Foi ela que permitiu o acúmulo de capital necessário à indústria nos anos seguintes.

Cabe ressaltar que quem dominava esse negócio eram famílias luso-brasileiras. Joinville já era bem diversificada etnicamente neste início de século 20 e os alemães sequer formavam a maioria dos imigrantes, como já demonstrou o historiador Dilney Cunha no livro “Suíços em Joinville”, fruto de seus estudos acadêmicos.

Desenvolvimentismo dos anos 40

O Brasil já havia dado alguns pulinhos de desenvolvimento, mas até as primeiras décadas do século passado era apenas um grande fazendão. Foi a partir dos anos 1940, com Getúlio Vargas, que deu o grande salto. E a indústria de Joinville cresceu, claro, na esteira do desenvolvimento brasileiro. Portanto, nada de DNA alemão, mas sim a pura brasilidade que puxou Joinville consigo. A partir da intervenção do estatal getulista e de seus planos de desenvolvimento em todas as áreas, especialmente na infraestrutura, toda a indústria do país cresceu.

A indústria de Joinville ainda engatinhava, mas já havia alguma expertise pelo contexto que apontamos anteriormente. Havia mais negócio por aqui do que nos fazendões de café espalhados pelo país. E esses negócios se tornaram indústrias.

Peguemos o exemplo da Tupy, fundada em 1938. A origem foi uma fábrica de carroças que virou fundição para atender indústria ervamateira no início do século 20. Quando seu fundador ficou cego, por um acidente dentro da própria empresa, foi afastado. À frente do negócio, já no getulismo, estava Albano Schmidt. A Tupy cresceu por que o Brasil cresceu. E Albano Schmidt tinha dinheiro por que participou de uma potente economia liderada por luso-brasileiros. E esta economia só aconteceu por uma circunstância geográfica muito específica. Não foi o DNA alemão.

A Tupy já fazia um monte de coisas, mas explodiu mesmo com a chegada da Volkswagen ao Brasil, na década de 1950. Ah, a chegada da indústria automotiva só aconteceu por causa do mineiro de origem tcheca Juscelino Kubitschek. Desde então, a empresa joinvilense passou a ser um dos principais fornecedores de peças para o setor no mundo. Não sem o aporte de investimentos pesadíssimos da ditadura militar, tema que trataremos a seguir.

Dinheiro da ditadura

As principais empresas de Santa Catarina receberam muita grana da ditadura militar que teve início em 1º de abril de 1964, conforme demonstra o economista Ildo Michels em seu livro “Crítica ao modelo catarinense de desenvolvimento”. Entre algumas citadas estão os grupos Hansen e WEG (da vizinha Jaraguá do Sul). Um dos casos emblemáticos é a Tupy, que cresceu mais de 600% durante a ditadura. Em troca dos aportes, era considerada área de segurança nacional. Se necessário, passaria a produzir o que o governo ditatorial mandasse.

Joinville era uma nanica de 50 mil habitantes nos anos 50. O desenvolvimento industrial a partir dos investimentos da ditadura tornou a cidade um porto relativamente seguro para quem queria fugir da sofrida vida no campo, que nunca foi fácil e estava ainda mais arroxada pelos militares. Com uma mão na frente e outra atrás, as pessoas vinham para Joinville trabalhar por salários baixos na indústria — e quem reclamava tomava pau da ditadura. Tudo lindo para o empresariado. O processo multiplicou por dez a população e resultou na cidade que conhecemos hoje.

Não é o DNA

Várias pessoas de origem alemã eram, de fato, empreendedoras e tiveram uma imensa e marcante participação na história de Joinville. Mas nada disso tem a ver com o DNA alemão. Se o ferrado do príncipe tivesse feito um acordo com a sociedade colonizadora da China, da Inglaterra ou da Índia, outro povo teria habitado esta terrinha e construído outra história. Afinal, há potentes indústrias em diversas partes do mundo. Especialmente, é claro, na Europa, que fez sua fortuna com muita violência sobre outros povos.

O aspecto empreendedor de Joinville não tem a ver com o DNA alemão, mas com uma série de circunstâncias históricas, geográficas e políticas. A herança dos coronéis luso-brasileiro, assim como o getulismo e a violência ditatorial foram responsáveis pelo desenvolvimento industrial de Joinville. Ou seja, não é uma história muito bonita.

Melhor do que o mito

Quando era mais jovem, achava a história de Joinville bastante idiota. Claro, só conhecia o mito: príncipe e princesa, alemoada empreendedora, flores, dança etc. Quando comecei a estudar um pouquinho, vi que era algo bem mais interessante. Não, não é uma história muito bonita, como mostramos acima, mas é interessante. Cheia de conflitos, especialmente étnicos, muita tramoia política, e violência. Também é uma história dos trabalhadores, que fizeram grandes protestos em todos os momentos. Um deles em 1917, quando os padeiros pararam para conseguir um dia de folga.

O resumo que apresentei neste texto é muito simplório e pontual, apenas para contextualizar o comentário infeliz do prefeito. Por isso eu recomendo que você vá à história, contada por gente brilhante como Dilney Cunha, Raquel S. Thiago, Valdete Daufemback, Ido Luiz Michels, Clóvis Gruner, Iara Andrade Costa, Giani Maria de Souza, Isa de Oliveira Rocha e dezenas de outros e outras que detalharam esta rica história de múltiplos DNAs. Spoiler: também é uma história de apagamento da influência de outras culturas.

O que dizer ao cônsul?

É natural que o prefeito de Joinville destaque a relação de Joinville com a Alemanha em um encontro com o cônsul-geral da Alemanha. Este texto não é uma crítica a esta abordagem. Há muita coisa boa a ser dita sobre a relação e é desejável o aumento das relações entre a cidade e o desenvolvido país. O problema é a ideia de Adriano Silva sobre o desenvolvimento de Joinville. Além de um erro conceitual, é uma fala problemática. O texto é para que você não passe pelo mesmo e para que ele não o repita.