Vereador de Joinville faz comentário homofóbico para comentar atuação da oposição

“Eu concordo com o vereador Diego, tá virando frescuragem. Maricagem, como diz lá no Rio Grande do Sul”. Foi com estas palavras que o vereador Henrique Deckmann (MDB) descreveu a atuação da oposição na tramitação da reforma da previdência do serviço público. O comentário foi feito na tribuna da Câmara de Vereadores de Joinville (CVJ), na sessão ordinária de segunda-feira (7).

Deckmann é natural de Ijuí (RS) e tem 60 anos. É teólogo e já foi prefeito de uma pequena cidade paranaense. Durante o governo de Udo Döhler, atuou como comissionado na Secretaria de Saúde. Em seu discurso, já no final da sessão, ele reclamou dos recursos apresentados pela oposição para frear a tramitação da reforma legislativa.

Principal discussão do parlamento municipal no ano, a reforma tem sido acelerada pela situação sob resistência da oposição, que tem apresentado requerimentos, emendas e pedidos de vista com o objetivo de ganhar tempo para ampliar o debate sobre o tema. Cabe destacar que se trata de uma oposição formada especificamente no caso da reforma, de modo que é difícil avaliar o caminho que cada parlamentar vai seguir no decorrer do mandato.

Atualmente, se destacam na oposição à reforma os vereadores Lucas Souza (PDT), Ana Lúcia Martins (PT), Cassiano Ucker (Cidadania) e Claudio Aragão (MDB). O grupo ainda conta com Adilson Girardi (MDB) e Sidney Sabel (DEM).

Deckmann nem sempre esteve ao lado do governo neste debate. No início da tramitação, apresentou uma emenda substitutiva que de certa forma amenizava a reforma. Porém, nunca se posicionou contra a reforma e passou a ser um apoiador com o tempo. Na segunda-feira, quando fez o comentário, protestava contra mais um pedido de vista feito pela oposição.

Presidente da seção joinvilense da União Nacional LGBT (UNALGBT), Jonas Marssaro lembrou que o comentário foi feito no mês do orgulho LGBTQIA+ e o classificou como muito infeliz.

“Ele usa um termo extremamente homofóbico, que é ‘maricagem’, que vem de ‘maricas’, e usa no sentido de que é bagunça, no sentido de que a sessão da câmara dos vereadores é uma bagunça. A questão é que não existe a necessidade de colocar a população LGBT em um problema que é da câmara. Se ela está sendo improdutiva, o problema não é das gays, o problema não é das ditas ‘maricas’. Não é culpa nossa se os vereadores não conseguem se organizar, se a mesa diretora não tem a competência de levar uma sessão”, afirmou Marssaro.

O ativista ainda destaca que a questão LGBT é coisa séria. “Agora, se a câmara de vereadores não é, isso não dá direito a nenhum vereador de usar a nossa imagem, usar as nossas vidas, como exemplo, né? Porque LGBT não é bagunça. E a gente tem o mês do orgulho justamente pra falar sobre isso, pra falar sobre as nossas vidas e pra falar sobre as nossas lutas”, destacou.

Ativista e representante da Frente Bissexual Brasileira, Leonel Camasão (político do PSOL que concorreu ao governo de SC em 2018 e à prefeitura de Joinville em 2012) avaliou que o vereador joinvilense errou duas vezes em seu comentário. “Primeiro, está errado por tentar de alguma forma inibir o papel da oposição, né? Acho que isso faz parte do processo legislativo, quando tem uma proposta tão polêmica como a reforma da previdência. Então, é natural que a oposição dentro do parlamento busque meios de obstruir, né? Isso é normal”, considerou o ativista, que completou:

“E está errado de novo porque utilizar essa palavra ‘maricagem’ quer dizer o quê? Que quem faz oposição é maricas, que quem faz oposição é gay? É ruim porque usa essa expressão de forma pejorativa, como se você ser homossexual fosse algo pejorativo e, enfim, mistura alhos com bugalhos, faz uma conotação absurdamente preconceituosa, indevida e anacrônica. Houve um tempo que isso era normal e hoje em dia não é mais. Não pode ser tolerado pela sociedade como um todo esse tipo de postura.”

Em sua defesa, o parlamentar alegou que usou um termo regionalista, sem a intenção de atacar qualquer grupo, escolha pessoal ou cultura. Confira a nota oficial do parlamentar emedebista.

Nota Oficial

O vereador Henrique Deckmann (MDB) se manifestou na sessão ordinária realizada na última segunda-feira, 07/06 sobre os trabalhos que pouco têm avançado nas sessões ordinárias da casa legislativa. Usando um regionalismo, isto é, expressão de sua região de origem, o Rio Grande do Sul, como o próprio mencionou, usou sim a palavra “maricagem”, cuja expressão é relativa a medrosos, aqueles que “chamam para briga e fogem”. A fala foi uma crítica àqueles que atacam e travam os trabalhos sem permitir que sejam concluídos, como no caso dos pedidos de vistas à Reforma da Previdência. Ao utilizar o regionalismo não houve intenção alguma de atacar qualquer grupo, escolha pessoal ou cultura.

Veja a sessão

Veja na íntegra a sessão em que o vereador fez o comentário. Ele subiu à tribuna às 2h23 do vídeo e falou por cerca de cinco minutos:


Texto: Felipe Silveira
Foto: Mauro Artur Schlieck/CVJ