A política em Joinville: Três ausências do ‘Fora Bolsonaro’

Por Felipe Silveira
Fotos: Alex Sander Magdyel/Divulgação

Um ato público é algo bastante simples. Pessoas com uma pauta em comum se encontram em um espaço público onde realizam discursos sobre o tema e eventualmente caminham pelas ruas (a passeata é facultativa e não determina o sucesso da manifestação). Além dos discursos, a temática geralmente é expressa em cânticos, cartazes, faixas, camisetas, bandeiras e até mesmo performances artísticas.

Este movimento é observado pela sociedade e pelos agentes políticos, que geralmente consideram a expressão popular — a voz das ruas — na tomada das próximas decisões. Um processo de impeachment tende a avançar quando existe pressão das ruas. Um projeto de lei pode ser retirado diante de grandes e contínuas manifestações. Nunca é o único fator, mas é um componente importante das dinâmicas políticas. Portanto, o tamanho da expressão popular importa.

A manifestação “Fora Bolsonaro”, no dia 29 de maio, foi um sucesso em todo o Brasil e também em Santa Catarina, um estado reconhecido pela alta adesão ao bolsonarismo. Milhares de pessoas participaram do ato em Florianópolis. A capital tem setores progressistas mais organizados mesmo, como estudantes da federal, funcionários públicos e ambientalistas, além de centralizar sindicatos de trabalhadores.

Mas o que chamou a atenção mesmo foi o espalhamento do movimento contra o presidente por todas as regiões do estado. As maiores cidades registraram centenas de pessoas em suas manifestações. Blumenau, por exemplo, teve cerca de mil pessoas nas ruas, surpreendendo todo mundo que vê apenas a imagem de conservadora. Na mesma linha, Jaraguá do Sul também surpreendeu. Foram dezenas de manifestantes na pacífica cidade do Vale do Itapocu, onde a esquerda nunca teve muita vez. É uma evidência de que o sentimento anti-bolsonarista faz brotar a resistência em lugares inesperados.

Em Joinville, onde acompanhei presencialmente, o ato contou com cerca de 500 pessoas. Alguns jornais tiveram a pachorra de publicar uma foto de um momento inicial da manifestação para sugerir que tinha menos gente. Não foi uma manifestação grande. Nem pequena. Algumas pessoas comentaram que, para Joinville, estava bom, considerando um histórico recente mais humilde. Não dá para discordar, afinal, foram centenas de pessoas, mas a pauta pedia milhares. E este texto é para comentar algumas ausências.

Lideranças

A primeira ausência que notei foi a de lideranças políticas. De modo geral, a participação dos principais personagens de um determinado contexto é o auge desse tipo de evento. Em um evento do PT nacional, todos esperam o discurso do Lula. Do MTST, do Boulos. Do Novo, do Amoêdo. E por aí vai. Mas, em Joinville, algumas das principais lideranças políticas — que são poucas — não apareceram.

Não vi a vereadora Ana Lúcia Martins (PT) e o vereador Lucas Souza (PDT), os dois de partidos de esquerda (ou centro-esquerda) com representação na câmara. Ainda poderia contar com a participação de Cassiano Ucker (Cidadania) e outros democratas da CVJ. Existe um ônus ao participar de uma manifestação contra o presidente em uma cidade bastante bolsonarista, mas a ausência também está sujeita a críticas, como a que faço agora.

Senti falta de outros nomes importantes da cidade. Carlito Merss disputou mais de uma dezena de eleições em Joinville e foi o principal nome da esquerda local nos últimos 20 anos. É suplente do PT na Alesc e chegou a assumir o mandato por um mês no ano passado. É uma liderança importante na luta contra Jair Bolsonaro. Um pouco mais ao centro, mas com destaque no campo democrático, está Rodrigo Bornholdt. Presidente do PSB e com história no PDT, ativo na luta contra a reforma da previdência, poderia ter somado à luta. Falando em PDT, o ex-vereador James Schroeder, que concorreu à prefeitura pela sigla, também poderia ter aparecido.

A manifestação tem cara de esquerda, mas não é necessariamente de esquerda. É contra Bolsonaro e, portanto, antifascista. Cabe muito mais gente neste movimento. Cadê o MDB, que sempre destaca a luta contra a ditadura em sua trajetória? E o PSDB, que tem a social-democracia no nome? Que luta contra a ditadura e que social-democracia é essa que se omite contra Bolsonaro?

Havia, sim, lideranças políticas no local. Francisco de Assis, candidato do PT na última eleição, estava lá. Representantes do PSOL e do PCdoB também, assim como militantes de movimentos sociais e sindicais. Mas cabe muito mais. Falta o pessoal que tem construído a política popular na última década.

E ainda cabe observar que a sociedade não produz somente lideranças nos sindicatos e partidos. Professores da Udesc, da UFSC, da Univille, do Ielusc, da Unisociesc, da ACE e de outras, onde estavam? Precisam de argumentos para protestar contra Bolsonaro? Não basta o que ele faz à educação, ao meio-ambiente, à economia, à saúde e ao serviço público?

Cartaz destaca a crise sanitária e a social, responsabilizando o governo

Você

Senti também a sua falta (se você estava lá, desconsidere o trecho). Toda pessoa decente que conheço é contra o presidente e boa parte tem ódio e nojo ao que Bolsonaro fez com o Brasil. Muitos o criticam dia e noite no Facebook e no zap, mas só 500 pessoas estavam na praça no último sábado (29). Por quê?

Há muitas respostas para essa pergunta. Talvez você não soubesse, talvez não pudesse, talvez não quisesse, talvez tivesse com medo (da pandemia ou de perder o emprego) e talvez você não acredite no potencial da rua para esse tipo de coisa. Eu respeito todos os motivos, mas me permita apresentar alguns argumentos.

A divulgação do ato pode ter falhado mesmo, mas você é um cidadão ou uma cidadã em um país colapsado. Saber o que está acontecendo de importante ao seu redor é tarefa sua. Por isso que ler jornal deve ser um hábito diário, assim como tomar banho e escovar os dentes. Temos o hábito de terceirizar a culpa, mas se milhares de pessoas foram às ruas e você sequer sabia, a culpa é sua mesmo.

Outra razão para o esvaziamento da manifestação é o medo de perder o emprego por se envolver com política. Existe, de fato, mas cabe se perguntar se não se trata somente de auto-censura. Além disso, você não precisa registrar a participação. Coloque máscara (o uso é obrigatório), chapéu, uma roupa diferente e vá protestar. E fuja das lentes fotográficas, embora eu acredite que teu chefe não vá te procurar nas galerias de foto por aí. Se ainda assim você acha arriscado, tudo bem.

Agora, se você estava com medo da pandemia, não quis ir por que isso é coisa de comuna ou não acredita na potência da rua, leia a parte final do texto, que vou comentar esses motivos por lá. Antes, vamos falar da última ausência.

460 mil

No sábado, quando ocorreu o “Fora Bolsonaro”, o Brasil contabilizava mais de 460 mil mortos pela covid-19. Menciono-os no texto para homenageá-los. Sentimos, todos e todas nós, a falta de cada um. Mães, pais, filhos, irmãos, amigos, amores… Quantos não iriam estar na rua para gritar FORA, BOLSONARO! Quantos não mudaram de ideia acerca do seu algoz pouco antes de partir? Eles não podem mais protestar. A sociedade precisa gritar por eles.

O poder da rua

Muita gente não tem o hábito de protestar. Nossa frágil democracia não nos estimulou à prática. A geração anterior à minha cresceu em uma ditadura e com medo de mostrar a cara, entre outros fatores que desmobilizam o povo. Alguns de nós tiveram experiências negativas quando participaram. E tem gente que simplesmente não vê sentido na prática, que acha que isso é coisa de jovem, de sindicalista e da esquerda. A direita pegou gosto pela coisa mais recentemente.

Há momentos, no entanto, que exigem a participação de mais gente. Há momentos que exigem uma coalização de forças que supere temporariamente as diferenças. Demonstrar indignação contra Jair Bolsonaro — pedindo impeachment ou pensando na eleição de 2022 — é um deles. Não se trata de esquerda ou direita, mas de valores básicos como o respeito à vida e à democracia. A esquerda, pelo menos parte dela, já está na rua, então me dirijo ao centro/direita.

De extrema-direita, Bolsonaro também é nocivo para a direita moderada. Quanto mais ficar no poder, mais a direita vai se queimar, o que vai ter consequências no futuro. A queda do presidente é fundamental para o retorno de uma disputa sadia entre diferentes campos ideológicos que respeitam as regras do jogo. Sem ilusões, claro, já que “disputa sadia” em política significa um vale-tudo com mordida, dedo no olho, golpe baixo e trairagem. Acredite, tudo isso é melhor do que o fascismo bolsonarista.

O último ano é a prova. Que sujeito poderia ser tão perverso quanto Bolsonaro na condução do combate à pandemia? Atentar contra o isolamento, ignorar ofertas de vacina, insistir na maluquice da cloroquina, investir contra outros poderes (tentativa de golpe), atacar a imprensa, aparelhar a polícia federal, passar a boiada com Ricardo Salles, colocar um estúpido no ministério (escolha qualquer um, mas você sabe de quem estou falando), comprar o centrão, nomear um nazista e uma pirada para a secretaria de cultura, zombar dos mortos. O presidente do país zombou dos mortos. Dos 465 mil mortos.

Se você acha que isso é política, que é razoável, que não é motivo para protestar, eu não tenho mais muito o que te dizer. Aliás, duvido que alguém com esse tipo de opinião tenha chegado até aqui. Mas, se você acha que tudo isso é motivo para protestar, me conte por que não foi no último sábado. E se protestar não é a solução, qual é a alternativa? Responda em qualquer rede social.

Cartaz destaca que Jair Bolsonaro recusou ofertas da vacina que poderiam salvar muitas vidas

Segurança na pandemia

Voltemos ao início do texto para falar sobre segurança na pandemia. Lá na primeira frase, disse que um ato público é uma reunião em espaço público. Evidentemente, uma aglomeração. Portanto, há um evidente perigo de contaminação pelo coronavírus. Tudo isso é verdade, mas vamos conversar mais um pouquinho sobre o tema.

Se você é do tipo que não sai de casa por nada que não seja muito necessário, tudo bem, eu não espero que você vá ao protesto. Mas, se você toma café em cafeteria, almoça em restaurante, toma uma cerveja no bar de vez em quando, reúne poucos amigos em casa e vive zanzando por aí, a preocupação com a segurança não é um argumento legítimo, pois todas essas atividades são menos seguras do que o protesto.

Cartaz reflete sobre o risco de ir ao protesto no meio da pandemia

Está mais do que provado que espaços ao ar livre reduzem demais o risco de contaminação (o grande problema são os lugares fechados, coisa que você deve evitar ao máximo), o que é um ponto bastante considerável na decisão. Além disso, boas máscaras (bem ajustadas ao rosto) fazem a outra parte do trabalho. E, por fim, o distanciamento entre os manifestantes tem sido um ponto reforçado pelas organizações nos protestos durante a pandemia. Ainda assim, você pode ir até o local e ficar mais afastado das pessoas, nas franjas da manifestação. Mesmo distante, a presença conta na importância política de cada manifestação.

Não vou dizer que protestos são espaços livres de contaminação, mas, nessa altura do campeonato, você já deve saber dos pontos acima. Assim, à exceção daquelas pessoas que não saem por nada (corretamente, registre-se), eu espero que as pessoas minimamente democratas compareçam à manifestação com a disposição de tomar todos os cuidados que realmente importam (máscara, ar livre e distanciamento).

Jornalismo chama manifestação?

Não gosto da atual discussão sobre posicionamento do jornalismo. De um lado está o senso comum sobre imparcialidade, aquela coisa de ouvir dois lados, que tem algo de correto. Do outro, a ideia da impossibilidade de neutralidade, que está mais correto ainda, mas se confunde com algum desleixo no tratamento dos fatos. Não é por ter que ouvir os dois lados que vou tratá-los como iguais sempre. E não é por ter lado que vou fazer propaganda dele ou mascarar seus erros. Um bom jornalista pode ser de direita ou de esquerda, de maneira declarada ou discreta.

Mas nada disso tem nada a ver com o posicionamento contrário a Jair Bolsonaro. Há evidências e provas abundantes de que o presidente é tudo de ruim e todo jornalista tem o dever de mostrar isso à sociedade. São os fatos. Se um jornal, mesmo de direita, não mostrar o quanto Bolsonaro é ruim, não está fazendo jornalismo.

É neste contexto e em um texto de opinião que reflito sobre as ausências nos protestos. Faltaram lideranças políticas e faltaram pessoas — afinal, há muito mais gente contra Jair Bolsonaro em Joinville do que as 500 pessoas que compareceram à praça. Na esteira dessa informação, reflito sobre possíveis motivos para as ausências, o que me leva a apresentar para as presenças. E, por fim, debatemos o nível de perigo/segurança de uma manifestação popular no contexto da pandemia. Sem desprezar os riscos, informamos que é um risco bastante reduzido.

Então, não, jornalismo não chama para manifestação. Mas nada nos impede de refletir sobre o evento, de querer saber por que você não foi e de dizer: você tem bons motivos para ir. No dia 19 de junho tem mais.

Veja como foi o protesto no sábado


A política em Joinville é a coluna de opinião e informação do jornal O Mirante, sob responsabilidade do editor Felipe Silveira.