A política em Joinville: Onde está a resistência pública aos interesses privados?

Por Felipe Silveira
Foto: Captura de tela do Google Maps

Em Joinville, sinto falta de duas coisas. A primeira é de um jornal muito forte, cheio de repórteres dedicados a esmiuçar e fiscalizar o poder, com potencial para bater de frente com quem manda e desmanda. Deveria ser assim o funcionamento de sociedades democráticas, mas estamos longe dessa realidade. Por aqui, trabalhamos para chegar lá. A segunda é de uma sociedade civil mais organizada na defesa do que é público. Não que não tenha, mas, assim como o jornalismo, ainda está em falta.

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Vejamos alguns exemplos da importância desse tipo de organização. Na última década e meia, duas entidades se destacaram nas chamadas lutas sociais: o sindicato dos servidores públicos (Sinsej) e o Movimento Passe Livre (MPL) de Joinville. O primeiro fez diversas greves, pressionou parlamentares e promoveu debates. O segundo realizou, na chuva e no sol, inúmeras manifestações que chamaram a atenção para os problemas do transporte coletivo. Goste-se ou não da atuação de cada um deles, julgue-se justa ou injusta a causa, eles estavam lá. E não posso deixar de citar os movimentos negro, feminista e lgbtqia nesta conversa.

Não se trata necessariamente de ganhar as batalhas, mas, como dizia o jogador Luís Fabiano, de ajudar da briga. Organizações sociais dedicadas a uma causa produzem conhecimento, revelam lideranças, elevam o debate e criam a resistência aos avanços do famigerado “outro lado”.

Esse sujeito abstrato pode ser muita coisa. Muitas vezes são canalhas mesmo, vorazes em busca de lucro e poder, sem se importar com quem está no caminho. Noutras são pessoas comuns, fazendo contas que julgam melhor para a sociedade a partir de um ponto de vista bastante ideologizado. E eventualmente tudo isso se mistura. Piora muito quando a mistura cai em um caldo de desinformação que desemboca em um projeto fascista, mas este já é outro tema.

Tipos de movimentos

Este texto, de longo preâmbulo, é para falar de um outro tipo movimento que tem se articulado na cidade. No final de abril, foi apresentado na prefeitura o Movimento Descarimba Joinville, formado por entidades ligadas ao setor de construção civil. A ideia do grupo é trabalhar pela desburocratização de processos que, na visão deles, travam o desenvolvimento.

Você notou que eu disse “outro tipo de movimento” quando mencionei o tema, certo? Mas o que o Descarimba Joinville tem de diferente dos movimentos citados anteriormente? É simples. Como há movimentos de defesa do que é público, há aqueles que defendem interesses privados. As entidades empresariais como Acij, CDL e Acomac estão aí há décadas para provar. Tais organizações não escondem que trabalham em prol de seus interesses.

Alguns interesses privados, vira e mexe, se misturam aos interesses públicos. Ou pelo menos são apresentados desta forma. A redução da burocracia é sempre tratada como um motor do desenvolvimento, algo que geraria empregos e alavancaria a prosperidade de todos. A duplicação de uma via no distrito industrial ajudaria a escoar um belo quinhão do PIB estadual. Assim, os governos com frequência investem recursos públicos nesse tipo de obra ou projeto. E o que não dá lucro, geralmente o povo, fica para o final da fila.

Noutras vezes — na maioria, na minha visão — os interesses privados entram em conflito direto com os interesses públicos. A retirada de um pequeno processo burocrático pode resultar na ocupação de uma grande área que deveria ser protegida ambientalmente, na contaminação de um rio por produtos químicos ou na poluição do ar por toxinas proibidas.

Vamos dar um exemplo. Joinville discute até hoje a utilização de um terreno na zona sul onde seria instalada uma loja da Havan. Acontece que aquele terreno (da foto lá em cima) era um belo morro de mata exuberante no meio da zona sul e protegido pela lei conhecida como Cota 40 (que impede construções acima de 40 metros acima do nível do mar). Com base em outra lei, o proprietário conseguiu derrubar o morro e vender o terreno, bem mais valorizado, para alguém com intenção de construir. Agora basta alterar a lei para construir.

Assim fica muito fácil. O que mais vai entrar na lista? O morro da Boa Vista, o do Finder, o rio Cubatão? Que tal fechar os museus que não dão lucro? E demitir todos os funcionários públicos, substituindo-os por organizações sociais e profissionais admitidos em caráter temporário (ACTs)? E na segurança pública, por que garantir direitos humanos para os humanos que não são direitos? Não parece crível, mas tem muita gente que pensa dessa forma. Há muitos anos, um vereador falou em tapar o rio Cachoeira para fazer estacionamento. Exemplos como este são inúmeros.

Na estilingada

Não sei se as reivindicações do Descarimba Joinville são justas. Nem se trariam benefícios ou prejuízos para a sociedade. Adoraria colocar um repórter para descobrir mais detalhes sobre o tema. É, de fato, função do jornalismo averiguar e promover o debate público acerca dessas situações. Mas este texto é para chamar atenção a outro detalhe. É para dizer que sociedade também tem o papel de se apresentar.

Às vezes, para não derrubarem uma escola ou um morro, é preciso literalmente abraçá-los. Vi muita Sessão da Tarde para citar este exemplo, mas vocês entenderam. É preciso ir na câmara, se reunir com prefeito, montar piquete, peitar autoridade etc. Como disse o padre Julio Lancellotti, “tem hora que só uma boa estilingada resolve. Quando não tem nada disso, quando não tem ninguém na frente, eles descarimbam e passam o trator por cima.

Talvez, somente talvez, é da amálgama de movimentos sociais, lideranças políticas, boas reportagens e alguma sorte na justiça que surjam vitórias do povo, como a ampliação de direitos e a preservação do que é público.

Movimento Passe Livre na época de grandes protestos – Foto: MPL Joinville

Como editor de um jornal em Joinville, sinto muita falta do tipo de liderança que o movimento social produz. Com universidades públicas voltadas para engenharias, sequer temos pesquisadores e professores universitários que despontam como lideranças em áreas sociais e ambientais. Pense, por exemplo, em algum especialista para falar de covid-19 de maneira crítica em Joinville. Se lembrar de alguém, me mande uma mensagem. Há valorosas exceções em instituições privadas, mas são poucas e com muitas amarras.

Fuga de cérebros

Um problema que assola o Brasil e demais países em desenvolvimento e subdesenvolvidos é a fuga dos melhores cérebros/talentos para os países ricos. A américa do Norte e a Europa Ocidental, com seus encantos e alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), atraem as cabeças pensantes do mundo. Brasileirinhos pobres e talentosíssimos, que nascem aos montes, podem desenvolver todo o potencial em universidades como Harvard, MIT, Oxford e Sorbonne.

Este fenômeno, em menor escala e com um diferencial, pode ser observado em Joinville. A falta de cursos sociais em universidades públicas, somada com os baixos atrativos políticos e culturais que a cidade oferece, é uma passagem de ida e sem volta para lugares mais acolhedores. O IDH de Joinville até que é razoável em termos brasileiros, mas o restante é muito fraco. Para que ficar aqui?

Votar basta?

Votar bem ajuda muito. Um votinho melhor em 2018 teria salvado centenas de milhares de vidas em 2021. Mas basta? Acredito que não, pois a política — a prática que decide o destino de todos nós — acontece a todo momento e não de dois em dois anos (período em que ocorrem eleições no Brasil). E se só votar não basta, se iludir de que faz muita coisa é ainda pior. E este é um problema que se agravou com as redes sociais.

Por que vou me filiar a um partido se posso dizer o que ele deve fazer no Twitter? Por que participar de reuniões do movimento se posso compartilhar uma ilustração maravilhosa que me representa no Instagram? Qual é a lógica de organizar uma manifestação se posso escrever um textão no Facebook? Tem muita gente que pensa assim, igual ao ratinho correndo naquela roda de gaiola.

Descarimbador

A desburocratização foi a principal palavra da disputa à prefeitura de Joinville em 2020. Adriano Silva foi eleito, entre outros motivos, porque sua imagem foi a que mais se aproximou de um descarimbador, de alguém que eliminaria burocracias e permitiria a expansão de negócios e dos lucros. A imagem é relacionada à ideologia do partido Novo, que tem esta ideia entre as suas principais. Boa parte dos concorrentes também tentaram passar a mesma imagem, diga-se de passagem, mas sem o mesmo sucesso.

Quando o movimento Descarimba esteve na prefeitura, ouviu que em breve seria divulgado um pacote de ações prioritárias para mudar os processos sofrem mais travamento. A previsão do executivo é a implementação de dez procedimentos autodeclaratórios dentro dos próximos cinco meses.

Juntando todos os pontos, nota-se que há um conjunto de atores sociais dedicados à pauta da desburocratização. Eles têm poder, dinheiro, influência e organização. É legítimo, sim, que atuem em favor de seus interesses, desde que dentro das regras. Pelo menos é assim que deve ser nas repúblicas democráticas. Mas é preciso dizer que tal dinâmica tem o objetivo de atender interesses privados. A sociedade precisa se organizar para defender os interesses públicos.


A política em Joinville é a coluna de opinião e informação do jornal O Mirante, sob responsabilidade do editor Felipe Silveira.