Vereadores mentem em moção sobre remédios ineficazes contra covid-19

Os vereadores aprovaram na sessão ordinária desta terça-feira (13) a moção que pede à Prefeitura a contratação de organização social (OS) como meio de suprir a falta de médicos que ofereçam “tratamento precoce” em casos de suspeita e confirmação de covid-19. A autoria da proposição foi assinada por 13 vereadores.

O texto da moção cita que “o uso dos medicamentos que constituem o ‘tratamento precoce’, guardadas as precauções quanto aos efeitos colaterais, já conhecidos, que podem produzir em certos tipos de organismos, são de eficácia comprovada, de baixo custo de poucas implicações médico-patológicas”.

O trecho é mentiroso. A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) tem feito muitos esforços para desmentir as bobagens espalhadas sobre o tema. Neste vídeo, o presidente da entidade, o médico Clóvis Arns da Cunha, explica detalhes sobre a ineficácia dos remédios e como este tema contaminou a sociedade brasileira. Mais detalhes podem ser encontrados nesta reportagem da BBC.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou, no dia 31 de março, que a ivermectina, um vermífugo, não seja utilizada no tratamento de pacientes com covid-19, independentemente do nível de gravidade ou da duração dos sintomas.

Há evidências científicas contundentes amplamente divulgadas de que estes medicamentos, além de serem incapazes de conter a gravidade da covid-19, ainda agravam ou causam comorbidades com potencial risco à vida das pessoas. O próprio coordenador do Combate ao Coronavírus de Joinville, o infectologista Luiz Henrique Melo, afirmou que “não existe tratamento precoce” à reportagem do jornal O Município.

Na mesma matéria, a coordenadora do centro, a médica Luana Ferrabone, explicou que faltam evidências científicas, mas é difícil explicar isso ao paciente que tomou e melhorou. A explicação, no entanto, é muito simples. O médico Reynaldo Oliveira traz uma explicação muito didática para o fenômeno no vídeo abaixo:

Cardiologista e professor da USP, Bruno Caramelli tem liderado um movimento que pede a abertura de inquérito civil para apurar a atuação do Conselho Federal de Medicina durante o período em que o Ministério da Saúde incentivou o “tratamento precoce” contra a covid-19. Em entrevista ao podcast O Assunto (G1), ele explica que está provado que esses remédios do “kit covid” não funcionam e porque isto é nocivo para a saúde pública. Entre os problemas mais relatados está a hepatite medicamentosa.

O documento assinado pelos vereadores joinvilenses também menciona que municípios brasileiros alcançaram resultados satisfatórios no tratamento da covid-19, como Porto Feliz (SP), Porto Seguro (BA) e Rancho Queimado (SC). Trata-se de uma série de fake news, como mostram organizações de checagem. Veja o caso de Porto Feliz, de Porto Seguro e de Rancho Queimado.

A Moção 208/2021 foi assinada pelos vereadores Adilson Girardi (MDB), Brandel Junior (Podemos), Cláudio Aragão (MDB), Diego Machado (PSDB), Érico Vinicíus (Novo), Henrique Deckmann (MDB), Kiko do Restaurante (PSD), Maurício Peixer (PL), Neto Petters (Novo), Pastor Ascendino Batista (PSD), Sales (PTB), Sidney Sabel (DEM) e Wilian Tonezi (Patriota).

O documento foi aprovado com voto contrário de Ana Lucia Martins (PT), Cassiano Ucker (Cidadania) e Lucas Souza (PDT). Além dos autores da proposição, votaram a favor Alisson Júlio (Novo) e Tânia Larson (PSL). O vereador Osmar Vicente (PSC) não estava presente no momento da votação.


Texto: Felipe Silveira
Foto: Carolina Antunes/Presidência da República