A política em Joinville: 100 dias de Adriano Silva e pandemia

Por Felipe Silveira
Foto: Prefeitura

O governo Adriano Silva completou 100 dias no sábado (10). E foram dias bem turbulentos. Logo na primeira madrugada, na virada de ano, uma enchente atingiu vários bairros, sobretudo a região central, alagando mais uma vez o museu arqueológico da cidade. E não foi o único problema com chuvas, que voltaram a alagar a cidade em outras oportunidades.

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Outro ponto negativo marcante foi o incêndio no prédio principal da Cidadela Cultural Antarctica. O patrimônio público, abandonado há décadas, pegou fogo no dia 19 de março. O prefeito também já ganhou uma alcunha jocosa de parte da população. Como Udo Döhler e sua “geston”, Adriano Silva já é chamado de “prefeito jardineiro” pelos críticos. A motivação é o auê que faz em torno de seu projeto de jardinagem voluntária durante situação social tão grave.

Mas nada se compara à gestão do novo governo na pandemia. Como em todo o Brasil, a pandemia se acelerou em 2021. Festas de fim de ano, relaxamento com um suposto e falso controle, feriado de carnaval, voltas às aulas presenciais e nova variante — tudo isso aliado a governantes irresponsáveis em todas as esferas, mas em especial a federal — explicam a tragédia brasileira. O país ultrapassou a marca de 350 mil óbitos e está matando mais de 4 mil pessoas por dia.

Durante os 100 primeiros dias em que Adriano esteve à frente da cidade, Joinville registrou 625 mortes por covid-19, chegando às 1.104 no sábado (10). O mês de março foi o mais letal, com 288 mortes. No período, o prefeito desdenhou do lockdown — a principal medida para salvar vidas — e reafirmou que seus decretos equilibram saúde e economia. Na última coluna, explicamos porquê isso não é priorizar a vida.

Redução

Com “lockdowns de fim de semana” promovidos pelo estado e medidas mais restritivas locais durante março, além do medo causado pela falta de leitos, os números da pandemia estão em queda neste início de abril. Na última semana, foram registrados 1.963 novos casos. Assim, a média dessa última semana (280,4/dia) é quase a metade da média de março (513,4/dia).

Cabe destacar, contudo, que 280 novos casos por dia ainda é um número muito alto para Joinville, cidade cujo sistema de saúde ficou colapsado no mês anterior. O cenário melhorou, mas as equipes de saúde seguem exaustas e a fila de espera por leitos é ampla. Como as medidas restritivas já foram flexibilizadas e muita gente já voltou a relaxar, nada indica que a queda será contínua e duradora.

E, por fim, é preciso sempre lembrar que cada caso de covid-19 é uma tragédia por si só. Boa parte das pessoas se recupera, boa parte mal sente os sintomas, mas ninguém sabe quem vai morrer e quem vai passar ileso na hora do contágio. Sem contar as graves sequelas sobre as quais mal sabemos.

Que exemplo 2

Na coluna passada, destacamos que o prefeito não tem dado bons exemplos no que se refere à pandemia. Em um story (tipo de postagem na rede social Instagram), celebrou a volta das famílias ao revitalizado Parque das Águas, mostrando muitas pessoas sem máscara. O caso repercutiu nacionalmente. Outros exemplos podem ser observados em fotos divulgadas pela Prefeitura, na qual aparecem pessoas aglomeradas em locais fechados (só isso já um absurdo), sem distanciamento recomendado pela própria Prefeitura (que é pouco relevante em lugares fechados) e sem máscaras adequadas (outro modelos ajudam, mas a ideal é a PFF2).

Na sábado, mais um exemplo ruim de Adriano Silva. Em seu Instagram, postou uma foto na Praia da Saudade, em São Francisco do Sul, tomando açaí com a família. Ao fundo, ninguém de máscara.

Algumas pessoas dizem que a crítica é implicância, mas vejamos a questão em detalhes. Mesmo que locais de alimentação estejam abertos neste grave momento, o líder político da cidade deveria dar o bom exemplo de não frequentá-los, sugerindo a ideia de normalidade. O papel do poder público é reduzir a circulação ao essencial e o exemplo é fundamental. Além disso, mesmo a céu aberto, bares, restaurantes e lanchonetes seguem sendo ambientes perigosos. O exemplo do prefeito é um sinal positivo para que mais gente frequente espaços públicos e corra riscos desnecessários.

Laranjou

Para fechar o tema dos 100 dias de governo, reportamos uma observação feita no Twitter. A cor escolhida para o material especial dos 100 dias de governo foi a laranja, a mesma do partido do prefeito, o Novo. Talvez não chamasse tanto a atenção se a cor não fosse um elemento fundamental da identidade do partido e se não fosse exatamente o mesmo tom. É uma questão pequena, que pode ser facilmente ignorada, mas alguém pode apontar para o artigo 37 da Constituição, que trata da impessoalidade.

“A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos”, diz a Carta Magna.

Imagem cedida por Evaldo Cevinscki Neto

Casos similares

Dois governos anteriores passaram por situação similar. Um caso mais escandaloso, resolvido na Justiça, e outro mais modesto, como o atual. Durante o governo de Marco Tebaldi (1958-2019), quadras esportivas foram construídas em formato que lembrava a cabeça (em especial o bico) de um tucano, o animal símbolo do PSDB, partido do ex-prefeito. E, como se não bastasse o formato, ainda foram pintados de azul e amarelo. A Justiça mandou tirar o “olho” do tucano e pintar de outras cores.

Quem também passou por isso foi Carlito Merss. O prefeito petista foi acusado de espalhar luminárias vermelhas  brancas por toda a cidade. O caso também foi parar na Justiça, mas a acusação foi julgada improcedente pelo juiz Yhon Tostes, que na sentença escreveu um tratado sobre a cor vermelha.

Previdência

Um dos maiores esforços da Prefeitura neste primeiro semestre é a tentativa de aprovar a reforma da previdência municipal. E se parte dela é de fato indispensável para se adequar à reforma nacional conforme determina a lei, outra parte, alegam servidores, é desnecessária. O tema está em discussão na Câmara de Vereadores de Joinville (CVJ).

Na quarta-feira (7), os vereadores descartaram a contratação de um atuário independente para responder a dúvidas de vereadores sobre a reforma. A proposta foi feitar pelos vereadores Adilson Girardi e Claudio Aragão (ambos do MDB), Ana Lúcia Martins (PT), Cassiano Ucker (Cidadania), Lucas Souza (PDT), Luiz Carlos Sales (PTB) e Sidney Sabel (Democratas). Sales, que foi um dos autores do requerimento, acabou votando contra após a discussão no plenário.

A ideia foi apresentada em reunião conjunta das comissões de Finanças, de Legislação e de Saúde, realizada no dia 1° de abril Participaram do encontro representantes do Sindicatos dos Servidores de Joinville (Sinsej), do Ipreville, da Prefeitura, da Associação dos Aposentados e Pensionistas Segurados do Ipreville (Asaprev) e da Associação dos Auditores Fiscais de Joinville (Asfij). Na ocasião, representantes dos auditores fiscais afirmaram haver necessidade de uma auditoria no cálculo atuarial em virtude de existir “forte indício” que o déficit atuarial no instituto não existe.

IPTU para cooperativas em discussão

A Comissão de Finanças vai debater a redução do IPTU para imóveis de cooperativas de crédito em Joinville na próxima quarta-feira (14), às 15h30, no plenário da CVJ. Serão convidados representantes do núcleo de cooperativas de crédito da Ajorpeme, da Procuradoria-geral do Município e da Secretaria Municipal da Fazenda. A proposição partiu do vereador Henrique Deckmann (MDB).

Microfinanças

Na reunião da Comissão de Legislação de quarta-feira (7), o vereador Brandel Júnior (Podemos) foi escolhido relator do Projeto de Lei Ordinária 55/2021, que institui o Programa de Microfinanças de Joinville. A finalidade é garantir crédito para micro e pequenos empreendedores, incentivando a inclusão e acesso a serviços financeiros para a população de baixa renda.

Brandel tem até dez dias úteis para emitir seu parecer. Ainda não está definido se haverá discussão do projeto com entidades afins no âmbito da Comissão de Legislação. Após a deliberação nesse colegiado, antes de ir à deliberação do Plenário, a matéria ainda deve seguir para a Comissão de Finanças para discussão do mérito.

Região metropolitana

A comissão especial criada para acompanhar as discussões de implantação da Região Metropolitana de Joinville (RMJ) se reuniu pela primeira vez na manhã de terça-feira (6). Os vereadores deliberaram uma prévia de cronograma para as próximas reuniões e determinaram as prioridades nos estudos a serem realizados.

Lucas Souza reconheceu que faltou braço para trabalhar em todas as frentes – Foto: Mauro Artur Schlieck/CVJ

Foi aprovado convite ao presidente da Companhia Águas de Joinville (CAJ), Giancarlo Schneider, para participar da próxima reunião, marcada para terça-feira (13), às 10 horas. O objetivo é discutir os desafios do saneamento básico em Joinville e demais cidades que devem compor a RMJ, considerando o novo Marco Legal do Saneamento Básico, sancionado em julho de 2020.

Os vereadores decidiram, ainda, que vão visitar, nas próximas semanas, a Superintendência de Desenvolvimento da Região Metropolitana da Grande Florianópolis (Suderf) e a Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba (Comec). O objetivo será entender como funcionam as regiões metropolitanas das capitais catarinense e paranaense, para que sirvam de parâmetro à local.

A comissão é formada por cinco membros: presidente Lucas Souza (PDT), secretário Wilian Tonezi (Patriota), relator Adilson Girardi (MDB) e dois membros, Alisson Julio (Novo) e Osmar Vicente (PSC).

Substituição

Diante do envolvimento com a comissão da região metropolitana, o vereador Lucas Souza (PDT) apresentou sua renúncia ao posto de membro na Comissão de Cidadania e Direitos Humanos. Para seu lugar, Lucas sugeriu que a vaga seja ocupada pela vereadora Ana Lucia Martins (PT). Formalmente, a vaga poderá ser ocupada pela vereadora caso o bloco parlamentar que indicou Lucas para a vaga a indique. O prazo para essa indicação é de cinco dias úteis.

A Comissão de Cidadania e Direitos Humanos é formada pelos vereadores Pastor Ascendino Batista (PSD, presidente), Brandel Júnior (Podemos, secretário), Sales (PTB) e Alisson Julio (Novo).

Ceasa em debate

Na manhã de quarta-feira (7), vereadores participaram de reunião na Central de Abastecimento do Estado de Santa Catarina (Ceasa), em Pirabeiraba. O encontro reuniu lideranças da agricultura do município e do estado para debater a estadualização da central de Joinville como solução para os problemas estruturais do prédio. Atualmente, apenas 5 dos 16 boxes da central joinvilense estão em operação.

Na opinião do vereador Adilson Girardi (MDB), proponente da inspeção desta manhã, a resolução dos problemas da Ceasa traz “mais dignidade para agricultores joinvilenses”. Para ele, o funcionamento da Ceasa significa a sobrevivência da agricultura familiar e reforça a economia da cidade.

Solidariedade

Desde terça-feira (6), os cidadãos de Joinville que forem tomar a vacina contra a covid-19 podem levar doações para o programa Doses de Bondade. A Prefeitura de Joinville disponibiliza espaços para a doação de alimentos não perecíveis nos locais onde estão sendo aplicadas as vacinas: a Central de Imunização, montada no Centreventos Cau Hansen, e as nove Unidades Básicas de Saúde da Família (UBSFs). As doações não são obrigatórias.

Os alimentos não perecíveis serão destinados às entidades cadastradas no Conselho Municipal de Assistência Social, uma ação que é coordenada pela Secretaria de Assistência Social da Prefeitura de Joinville. As doações prosseguem durante todo o período de imunização contra a covid-19.

Campanha similar foi adotada na região. As nove prefeituras associadas à Amunesc aderiram à campanha Dose Solidária, cuja ideia é associar a arrecadação de alimentos à vacinação contra a Covid-19, embora a doação não seja obrigatória. O aumento no consumo de merenda escolar motivou a mobilização. “Constatamos a nível estadual um aumento na retirada da merenda escolar por parte das famílias, o que sugere que há mais necessidade neste momento”, declarou a secretária-executiva da Amunesc, Simone Schramm.

Kits de alimentação

A Secretaria de Educação de Joinville iniciou nesta terça-feira (6) a distribuição dos 37 mil kits de alimentação para os estudantes matriculados na Rede Municipal de Ensino que fizeram o cadastro previamente.

Aldir Blanc

Em reunião realizada na quarta-feira (7) pela Amunesc, gestores da área cultural discutiram a distribuição dos recursos da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc. Segundo eles, a maior parte dos recursos da Aldir Blanc continuam nos cofres dos municípios e a falta de formação de agentes culturais é um dos motivos. Gestores pedem prorrogação dos prazos

Joinville foi a cidade que recebeu mais recursos. Dos R$ 3,5 mi, apenas 20% foram repassados à população. Os 80% restante, cerca de R$ 3 mi, aguardam autorização e regulamentação federal para novos repasses. Garuva também ficou com boa parte dos recursos retidos. Dos R$ 142 mil que recebemos, foram usados só R$ 10 mil.

Para a mentora do Colegiado de Cultura da Amunesc, Iraci Seefeldt, a dificuldade no acesso à informação e à formação é um problema recorrente, que se mostrou ainda mais evidente com a Lei Aldir Blanc. “Esta lei mostrou aos gestores, e até mesmo aos próprios artistas que não acreditavam muito nessa mobilização, que o Sistema Nacional de Cultura funciona. Mas mostrou também que falta preparo. Precisamos qualificar e instrumentalizar os gestores de cultura e também os artistas. O que é um projeto? Por que é importante estar cadastrado nas plataformas culturais? A gente precisa formar e informar os artistas dentro da realidade dos municípios catarinenses”, disse.

Mais repasses

Reunido com a secretária estadual da saúde, o deputado federal Darci de Matos (PSD) cobrou mais recursos para o Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria. “Precisamos eliminar o déficit mensal de aproximadamente R$ 1 milhão”, disse o parlamentar.

Privatizações

Rodrigo Coelho (PSB) comemorou o resultado de três leilões de privatização. Segundo ele, foram concedidos à iniciativa privada cinco terminais portuários, uma ferrovia e 22 aeroportos, inclusive o de Joinville — tudo isso por apenas R$ 10 bilhões. Parece muito pouco.

Propaganda enganosa

O deputado federal Coronel Armando (PSL) é mais um bolsonarista que agora fala bem da vacina, como se o presidente não tivesse boicotado a compra de doses durante o ano passado, o que ocasionou a falta de insumos e milhares de mortes atualmente. Em postagem no Facebook, propagandeia que o Brasil é o quinto país do G20 que mais vacina, mas em nenhum momento contextualiza o tema.

O país pode ser o quinto em números absolutos, já que é um o sexto mais populoso do planeta, mas é apenas o 73° na avaliação pelo percentual de população. Também é preciso considerar que muitos países não aceleram a vacinação porque estão com a pandemia sob controle, situação bem diferente da brasileira. O país é o que mais mata atualmente e a culpa todo mundo sabe de quem é: Jair Bolsonaro.


A política em Joinville é a coluna de opinião e informação do jornal O Mirante.