A política em Joinville: Insensato equilíbrio

Por Felipe Silveira
Foto: Mauro Artur Schlieck/CVJ

Na segunda-feira (5), a Câmara de Vereadores de Joinville (CVJ) realizou uma solenidade em memória das mais de mil vidas perdidas e em homenagem aos profissionais de saúde que atuam na linha de frente do combate à pandemia. O prefeito Adriano Silva esteve no evento e fez um discurso revelador da política escolhida para lidar com a pandemia, que vamos detalhar a seguir.

“Fizemos uma grande campanha para que todos utilizassem máscaras, para que todos higienizassem as mãos, e, num modelo muito difícil de se chegar, tentamos criar modelos de decreto equilibrando a saúde e a economia”, disse o prefeito no trecho mais importante de sua fala.

Eu gostaria de saber, primeiramente, onde está a grande campanha mencionada, pois a que está na TV não é uma grande campanha. A Prefeitura de Joinville sequer explicou a dinâmica de transmissão do vírus (o acúmulo de CO2 em locais fechados, sobretudo), mal falou sobre sequelas (como amputações e comprometimento de funções) e não divulgou os benefícios das boas máscaras. Não apelou, ao menos, à sensibilidade do povo como fizeram tantos governos Brasil afora. Veja o exemplo da Bahia:

Mas o trecho importante é outro. Quando o prefeito diz que tentou criar modelos para equilibrar saúde e economia, ele revela que a prioridade não foi a saúde. A conta é simples: se você prioriza duas coisas, a importância fica dividida em duas. Assim, a saúde ficou com metade da prioridade. Era para ser assim?

Se um vulcão entra em erupção e vai destruir a tua cidade, você fica em casa ou sai correndo, acatando a orientação de autoridades que provavelmente estão indicando uma saída para outra cidade? Se um tornado está prestes a passar pela cidade, você vai para o meio da rua enfrentar o fenômeno ou se tranca em casa com a família?

Salvo instabilidades emocionais, nossa resposta natural é a proteção, nossa prioridade é a vida. Só que estamos passando por situação similar e a prioridade tem sido dividida com a economia. Não poderia ser assim. Ninguém, entre o emprego e a morte, escolhe o emprego. O problema é que muitos — pela falta de orientação adequada — não sabem que esta tem sido a escolha. Além disso, muitos estão arriscando a vida dos outros.

Ninguém despreza que a economia tem relação direta com a nossa sobrevivência. A fome, que nunca deixou de ser um problema no Brasil, voltou com muita força. A solidariedade entre nós se faz mais urgente do que nunca. E é preciso registrar que muita gente está arriscando a vida, torcendo e/ou orando, para não pegar o vírus e para sobreviver sem sequelas no caso de pegar.

Contudo, é justamente para priorizar a vida dessas pessoas, das camadas mais pobres, de quem está perdendo tudo e passando fome, que a Prefeitura tem a obrigação de fazer diferente. O poder público tem que pensar, sim, na sobrevivência dessas pessoas, mobilizando a sociedade para garantir teto sobre a cabeça e comida na mesa. Empurrá-las para uma sociedade em que o vírus corre solto é desprezar essas vidas.

Em determinado momento da fala, Adriano Silva fala sobre Chapecó. Critica o prefeito João Rodrigues por não falar sobre o lockdown que reduziu os números da pandemia na cidade. A crítica é correta, já que pessedista está fazendo propaganda enganosa sobre o ineficaz tratamento precoce. Mas, implícita na crítica, Adriano traz uma confissão: lockdown funciona. Veja o vídeo (a partir das 2h02):

E, além de funcionar, o lockdown não deixa uma terra arrasada em termos de economia. Chapecó está com sua indústria e comércio funcionando, assim como Araraquara e outras dezenas de exemplos de lugares que tomaram medidas mais severas de enfrentamento à doença. Há prejuízos, sim, mas os empregos não vão sumir e os negócios não vão simplesmente fechar. Por outro lado, vidas serão salvas.

Que exemplo…

Se a campanha de conscientização da Prefeitura de Joinville é insuficiente para alertar o povo sobre a gravidade do coronavírus, o comportamento do prefeito Adriano Silva é pior ainda. Com grande repercussão em Joinville e alcance nacional (G1), um vídeo no Instagram do prefeito estarreceu parte da população. Nele, Adriano Silva celebrava a presença de famílias no Parque das Águas, recentemente revitalizado de maneira gratuita por uma empresa. Ao fundo do vídeo em que o prefeito aparecer sorridente, um monte de gente sem máscara. O jornal A Notícia cobrou uma explicação do prefeito e a resposta veio em uma nota sem conteúdo.

Outras situações ruins podem ser vistas em imagens divulgadas pela Prefeitura. Na fotografia abaixo, por exemplo, vemos uma aglomeração de pessoas, em ambiente fechado, a maioria com máscaras de pano (ajuda, mas não é o ideal) e sem a devida distância entre as pessoas. E esta fotografia não é a única. A situação é muito mais comum do que deveria ser durante a pandemia.

Reunião na prefeitura – Foto: Prefeitura

Performático

Cada prefeito fica marcado por uma característica. Udo Döhler, por exemplo, era meio avesso à comunicação. Dava entrevista, fazia discursos em eventos e reuniões públicas, mas se comunicava pouco. Não utilizava redes sociais e limitou o setor de comunicação a poucas palavras. Adriano Silva é o oposto. O novo prefeito tem forte presença no Instagram, a mais imagética das redes sociais. Aliás, também é tida como a rede social que mostra uma versão mais bonita do que a realidade.

Por isso e por outros motivos, nestes primeiros meses de governo, Adriano Silva pode ser caracterizado como performático. Um exemplo é a ideia de mutirão de embelezamento, tão alardeada, cotidianamente espetacularizada, mas com efeito prático bastante limitado. Não demonstrou, até agora, ser um programa consistente de manutenção, muito menos de desenvolvimento organizado do plantio de flores.

Outro exemplo é a declaração de luto pelas mil mortes por covid-19 registradas em Joinville. É justo que todos estejamos enlutados, mas o gesto, à luz das ações da prefeitura, soa performático. Para se ter ideia, poucos dias depois do luto, um novo decreto flexibilizou regras de enfrentamento à pandemia. Se o luto não vem acompanhado de medidas mais razoáveis contra a covid-19, parece apenas teatro.

Problemático

Apesar de ter um prefeito mais comunicativo, o setor de comunicação do executivo joinvilense segue problemático. Não há divulgação da agenda do prefeito e não há um campo de notícias no site, apesar de modesta mudança recente. Também não há produção de material específico das maiores secretarias. Um setor mais robusto de comunicação na pasta da saúde, por exemplo, poderia trazer detalhes sobre o embasamento científico das decisões municipais.

Não é diálogo

Adriano Silva prometeu diálogo aos munícipes, até mesmo para contrapor-se à imagem de Udo Döhler, mas não é o que está entregando. Responder mensagens no Instagram não é diálogo. Ainda mais quando é para explicar decisões tomadas de maneira intransigente. Diálogo seria se reunir com comunidades, associações, movimentos sociais e culturais, ouvindo e considerando o que eles têm a dizer. Ceder aqui, ganhar ali, empatar acolá. Aí seria diálogo.

Movimentos sociais de Joinville têm espalhado cartazes pela cidade. Vida, pão, vacina e educação são as palavras de ordem – Foto: Divulgação

Médicos e médicos

Tem médico que defende tratamento precoce? Um monte! Algum não é bolsonarista babaca? Duvido. Meu palpite é que nenhum aguenta debater com médico sério. Se tiver algum candidato, O Mirante promove o encontro. Virtual, é claro.

Para quem quiser entender a bobajada nociva que é o “tratamento precoce”, vale escutar o podcast O Assunto desta quarta-feira. No episódio, o cardiologista Bruno Caramelli explica porque está provado que esses remédios do “kit covid” não funcionam e porque isto é nocivo para a saúde pública. Já o repórter Ricardo Melo fala sobre reportagem acerca das consequências do uso dos medicamentos, como problemas hepáticos que atingiram usuários.

Não funciona

Nesta quarta, o secretário Jean Rodrigues da Silva deu entrevista à rádio CBN Joinville e falou sobre o “centro de tratamento imediato” de Joinville. Ele contou que o espaço é destinado aos médicos que acreditam no famigerado tratamento. Também disse que a questão está muito politizada e que há muitos estudos diferentes. Porém, como está explicado no podcast indicado acima, há muitos estudos toscos ou falsos que defendem a tese. Já é consenso no mundo que tais remédios não servem para a covid-19. Seria interessante, então, que o secretário mostrasse os estudos que embasam a manutenção do centro e vez de tentar agradar ao bolsonarismo delirante.

Falando nisso

Faz quase duas semanas que O Mirante pediu a evidência científica que embasa comentários do prefeito sobre lockdown. A reportagem, sem a explicação, foi publicada na quinta-feira passada e o poder executivo ainda não apresentou as evidências.

Não existe

Reportagem de Lucas Koehler, no jornal O Município, fala sobre o agora “centro de tratamento imediato” de Joinville. A matéria traz declarações da coordenadora do centro, que defende o uso dos medicamentos sem a comprovação científica e com base em evidências anedóticas, e do infectologista Luiz Henrique Melo, que foi taxativo: “Não existe tratamento precoce”.

Nada a comemorar

Não é nenhuma surpresa que o grupo Record é aliado ao governo Jair Bolsonaro, algo que afeta redes afiliadas, como o grupo ND. Dessa forma, apesar do bom jornalismo desenvolvido pelos profissionais, algumas escolhas editorais são terríveis. Uma delas foi a capa da edição joinvilense do fim de semana, que chocou parte da cidade e repercutiu nacionalmente devido ao mau gosto. Um dos maiores críticos de TV do país, o jornalista Maurício Stycer destacou o caso em sua coluna.

A reportagem, com histórias de sobreviventes da covid-19, tem valor jornalístico. São, de fato, boas histórias. Mas a capa do jornal feriu o bom senso. Mencionava que a cidade tinha 1.005 mortes naquele momento, mas também tinha mais de 75 mil recuperados. “Temos motivos para comemorar”.

A ideia de comemorar os casos recuperados (ignorando as gravíssimas sequelas) é um truque de comunicação. As prefeituras, em suas divulgações, fazem isso com frequência. Quando você destaca os recuperados, o dado positivo desvia o foco daquilo que importa: a grave crise sanitária, os culpados por ela e o que podemos fazer para resolvê-la. Pior ainda, dá crédito pelo feito a quem não merece.

Jornalismo é, sim, um lugar para boas histórias. Mas é necessário que exista uma boa história para contar. Sair de casa e voltar vivo é ótimo, mas não é por isso que vou abrir uma cerveja e acender um charuto a cada vez que acontecer. Sair de casa e voltar vivo é o normal e não é motivo para comemorar.

Colocar o número de mortos ao lado do número de sobreviventes, sugerindo que temos motivos para comemorar quando estamos chorando a nossa incalculável tragédia diária, é um truque político que visa iludir e jogar para a torcida. Feio demais.


A política em Joinville é uma coluna de opinião e informação o cenário político da cidade.