Sem apresentar evidência científica, Prefeitura de Joinville desinforma sobre lockdown

Texto: Felipe Silveira
Foto: Prefeitura

Lockdown funciona. É o que mostram estudos científicos e exemplos práticos Brasil e mundo afora, seja em países ricos ou pobres. Funcionar, porém, não significa que seja fácil de implementar ou que não tenha consequências sociais e econômicas complexas. A Prefeitura de Joinville — que registrou 288 mortes por covid-19 no mês de março — opta por não fazer lockdown e turva o debate sobre o tema, desinformando sobre a eficácia da medida mais rígida contra a doença pandêmica.

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Na última quinta-feira (25), em entrevista publicada pelo jornal Notícias do Dia, o secretário municipal de saúde, Jean Rodrigues da Silva, disse que não acredita no lockdown para baixar a curva de contágio. Para o gestor, o que falta é a adesão da população às medidas de enfrentamento à doença. Jean repetiu argumento já usado pelo prefeito Adriano Silva. Em mais de uma oportunidade, o chefe do poder executivo descartou a providência, sugerindo que as consequências econômicas seriam piores que os ganhos, como mostra matéria do jornal A Notícia. O jornal O Município também repercutiu declaração similar do prefeito, feita em entrevista coletiva. E ele voltou a repeti-la em entrevista à rádio Jovem Pan.

Diante das afirmações, a reportagem de O Mirante solicitou o embasamento científico sobre as declarações à Prefeitura. Em caso de falta de estudos, também foram solicitados modelos ou exemplos que embasassem as afirmações sobre a eficácia do lockdown. O primeiro pedido foi feito na sexta-feira (26), sendo reforçado na segunda e na tarde de terça-feira. A resposta só veio na noite de terça-feira (30), sem menção a estudos científicos ou exemplos. Leia a nota abaixo, em itálico:

“Todas as decisões da Prefeitura de Joinville em relação à elaboração dos decretos da Covid-19 são baseadas em análises quantitativas e qualitativas dos dados que são compilados pela equipe técnica da Secretaria da Saúde.

Estas análises levam em consideração diversos dados, como taxa de infecção, faixa etária dos contaminados, tempo de agravo da doença, período de internação e a taxa de ocupação hospitalar, por exemplo.

Desta forma, a Prefeitura de Joinville adota um modelo que contempla restrição de circulação, com o escalonamento dos horários de início e término de atividades comerciais e de serviço.”

Como pode ser observado, a Prefeitura não mencionou estudos ou exemplos. Disse que se baseia em análises da Secretaria de Saúde, mas sem mencionar os fundamentos científicos das decisões. Disse que existe, mas não disse quais, e não respondeu a pergunta principal: qual é a evidência científica que embasa as declarações sobre lockdown? Por isso, a reportagem insistiu na questão, que foi respondida pela seguinte forma pela assessoria:

“A Prefeitura de Joinville acompanha o modelo que está sendo aplicado na maioria dos municípios brasileiros, que é a restrição de circulação, que também é o modelo preconizado pelo governo estadual.”

Diante das afirmações do prefeito, do secretário de saúde e da assessoria de imprensa, é impossível saber no que se baseia a decisão da prefeitura de não adotar a medida. De acordo com o texto da entrevista ao Notícias do Dia, o secretário de saúde não acredita na redução da curva de contágio. Já comentários de Adriano Silva sugerem que a motivação é econômica. A resposta da assessoria não ajuda a elucidar a questão.

Dessa maneira, o poder público joinvilense desinforma a população a respeito da estratégia adotada em boa parte do mundo e em algumas cidades brasileiras para enfrentar a pandemia, além de não explicar por qual razão não faz o mesmo, mesmo diante da tragédia joinvilense.

A pandemia em Joinville

A primeira morte confirmada por covid-19 completou um ano na última terça-feira. No dia 30 de março de 2020, o empresário Mário Borba, sócio da gigante do plástico Krona, faleceu. A doença mostrou à cidade que não diferenciava ricos e pobres, embora mate muito mais pretos e pobres devida a desigualdade social que impede a proteção adequada para todos os grupos.

De março a dezembro de 2020, a doença vitimou 479 joinvilenses (o último boletim do ano passado foi enviado pela Prefeitura no dia 30 de dezembro). Em três meses de 2021, o número mais do que dobrou. Dos 513 óbitos registrados no ano, 288 ocorreram no mês de março, o mais letal da pandemia.

Há algumas hipóteses razoáveis para explicar o aumento exponencial. Uma errônea impressão de controle da pandemia no final do ano passado somada às festas de fim de ano certamente contribuíram, assim como o feriado de carnaval. Mesmo sem a festa oficial, houve aglomerações e bares cheios. Contudo, o fator mais determinante foi a chegada da variante de Manaus (AM) à cidade. Mais contagiosa e mais letal, atinge pessoas mais jovens e sem comorbidades de maneira que ainda não tinha sido vista.

Dessa maneira, março registrou uma explosão de novos casos e de óbitos. No dia 28 de fevereiro (o último do mês), a cidade tinha 58.630 casos confirmados. Na quarta-feira (31), último dia de março, chegou à marca de 74.546 casos confirmados. Foram 15.916 pessoas contaminadas em 31 dias. Tirando a média, 513,4 novos casos por dia.

Quando terminou fevereiro, Joinville tinha 704 óbitos causados pela covid-19. Ao fechar março, soma 992. Foram 288 mortes em apenas um mês. Na média, 9,2 óbitos por dia.

Com a explosão, o sistema de saúde entrou em colapso. Dois pronto-atendimentos (sul e leste) foram transformados em hospitais de campanhas. Salas de observação foram transformadas em salas de internação. Unidades de saúde tiveram que ser fechadas para que as equipes fossem distribuídas em hospitais, já que faltava todo tipo de profissional na linha de frente. Cirurgias eletivas e exames tiveram que ser cancelados (agravando a saúde de outras pessoas).

E, mais grave do que tudo isso, médicos tiveram que escolher entre quem receberia atendimento adequado, tendo a chance de sobreviver, e quem ficaria sem, praticamente condenado à morte. A medida foi admitida pelo secretário Jean Rodrigues da Silva ao jornal Notícias do Dia.

Ou seja, motivos não faltaram para a adoção de uma medida mais efetiva para frear a doença. A mais efetiva delas, como será demonstrado a seguir, é o lockdown.

Funciona

Pobres ou ricos, com líderes de esquerda ou de direita, países sérios realizaram bloqueios totais (que é a melhor tradução da ideia de lockdown) para enfrentar a pandemia. Quem não fez no começo, fez mais tarde, como o Reino Unido, já arrependido pelas mortes desnecessárias que aconteceram por causa da escolha errada (El País). Exemplo de sucesso é o Vietnã. O país com 96,4 milhões de pessoas que registrou apenas 35 mortes, combinando uma série de medidas de contenção, mas principalmente com lockdown.

Os exemplos de países são vários. Dadas as diferentes condições sócio-econômicas, culturais e políticas, alguns países realizam diferentes tipos de bloqueio. Alguns mais regionais, outros mais curtos. Mas é com esta seriedade que conseguem ter menos de 600 mortes por dia enquanto o Brasil tem mais de 3 mil. Na terça-feira (30), de cada três mortes no mundo, uma foi no Brasil. O país é o epicentro da pandemia, com muito mais mortes do que o segundo colocado (Estados Unidos).

Diante da realidade trágica do país neste ano, alguns governos municipais e estaduais decidiram tomar medidas por conta própria. Um caso famoso é o de Araraquara, cidade do interior paulista que fechou tudo por duas semanas e conseguiu resultados expressivos no combate à pandemia. Outra cidade que está em lockdown é Curitiba (UOL). A capital paranaense prorrogou o bloqueio previsto para nove dias por causa do sucesso da medida. Segundo o prefeito Rafael Greca, a média de novos casos era de 1.213 no auge da pandemia e estava próxima de 800 no momento da prorrogação.

Além das duas cidades, o Maranhão e o Pará foram estados que fizeram lockdown. Sem chamar de lockdown, o estado do Rio de Janeiro e a capital de São Paulo criaram um megaferiado para combater a pandemia (CNN).

Ciência comprova

Se os exemplos não bastam, há dados científicos de sobra para mostrar a efetividade do lockdown. Um estudo realizado no Líbano, feito pelos pesquisadores Samer Kharroubi e Fatima Saleh, mostrou que a medida teve impacto significativo na pandemia.

Outro estudo, mais complexo, foi realizado por mais de uma dezena de pesquisadores das universidades de Oxford, Cambridge e Havard, entre outras instituições de prestígio internacional. Em “Inferring the effectiveness of government interventions against COVID-19”, os autores analisam diferentes medidas governamentais de enfrentamento à pandemia. A conclusão é que o lockdown é a mais efetiva.

Quem não domina a língua inglesa e quer uma explicação mais detalhada pode acompanhar a explicação do pesquisador, doutor em microbiologia e divulgador científico Atila Iamarino. Em live sobre o tema, ele destacou os principais pontos do estudo.

O cientista ainda detalha a diferença entre quarentena, fechamento e lockdown. Ele comenta que é a medida mais dura, que não pode ser feita por muito tempo e que tem consequências sócio-econômicas. Mas, diante de tudo isso, não se pode dizer que não funciona.

Ressalva da OMS

Muita gente acredita e repete à exaustão que lockdown não funciona. Algumas pessoas sabem que é mentira, mas outras são vítimas. Dos mesmos criadores da mentira do tratamento precoce, uma fakenews popularizou-se rapidamente a partir do comentário de um representante da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a restrição mais severa. Um dos espalhadores foi o próprio presidente brasileiro.

No dia 22 de março, Jair Bolsonaro tirou de contexto a fala de um enviado especial da OMS, o médico e diplomata inglês David Nabarro, sobre a medida. Em entrevista ao veículo The Spectator, Nabarro (que não é diretor da OMS, mas emissário da organização) alertava para as consequências sócio-econômicas do lockdown, especialmente prejudiciais aos mais pobres. O médico solicitava que líderes mundiais parassem de usar o lockdown como medida primária, mas explicava que o bloqueio deve ser usado para frear o vírus nas situações mais críticas.

“O único momento em que acreditamos que o lockdown seja justificável é para ganhar tempo de reorganizar, reagrupar e equilibrar recursos e proteger seus profissionais da saúde que estão exaustos”, disse.

Após o comentário de Nabarro, que causou grande furor e ondas de fakenews, a revista Veja procurou a OMS, que confirmou a afirmação do representante. A organização tem grande preocupação com os mais pobres e recomenda o lockdown como última medida, sempre de maneira temporária. Em nenhum momento afirmou que lockdown não funciona.

O Peru é um bom exemplo da dificuldade de implementar um lockdown eficaz em sociedades mais pobres. O governo do país andino estabeleceu um bloqueio severo entre março e junho de 2020, mas viu o número de casos subir de maneira surpreendente. Entre as razões apontadas por reportagem da BBC estão as seguintes: 40% dos peruanos não tem geladeira, 70% trabalha em mercado informal, 38% não tem conta bancária e 11% moram em casas superlotadas. Nesta situação caótica, foi impossível manter as pessoas em casa e em segurança.

Economia forte

Embora muito desiguais, a cidade de Joinville e o estado de Santa Catarina não são sociedades pobres. A cidade ao norte é a mais rica de SC, bastante industrializada e de economia diversa. Ainda mais diversificado, o estado tem um dos maiores índices de desenvolvimento humano e a menor taxa de desemprego do país.

De acordo com dados mais recentes do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), Joinville fechou fevereiro com um saldo positivo de 2.981 empregos. O número é a diferença entre contratações e desligamentos. No ano, a cidade tem um saldo positivo acumulado de 4.857 novos postos de trabalho. Santa Catarina também apresentou saldo positivo em todos os setores, gerando 33.994 empregos formais em fevereiro.

Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) do país caiu 4,1% em 2020, a queda em Santa Catarina foi apenas de 0,9%. Exportadores, município e estado têm vendido a maior parte de seus produtos em dólar, moeda cuja unidade chegou a valer quase R$ 6 e segue em alta. No momento, é uma vantagem que torna ainda mais aquecida a economia catarinense.

Ou seja, apesar das dificuldades de um país emergente e em crise, Joinville e Santa Catarina vivem situações melhores que a média nacional. Também é preciso lembrar que o Brasil é a 12ª economia do mundo e que chegou a ser a 6ª na última década. É um país desigual, mas não é miserável. Bem diferente dos países muito pobres para os quais a OMS sugere moderação no uso do lockdown.

Economistas recomendam avaliação

No dia 21 de março, um grupo de 500 empresários e economistas, incluindo alguns dos banqueiros mais ricos do país, publicaram uma carta aberta com sugestões de medidas para enfrentar a pandemia. Embora sem endereço explícito, a carta cobrava o governo federal.

No documento, eles explicaram que a degradação da economia e o aumento do desemprego estão diretamente associados à pandemia descontrolada por causa da incompetência do governo. “Este subutiliza ou utiliza mal os recursos de que dispõe, inclusive por ignorar ou negligenciar a evidência científica no desenho das ações para lidar com a pandemia”, diz trecho. Os autores ainda explicam que não adianta esperar recuperação econômica com a pandemia descontrolada, já que a retomada econômica depende do nível de confiança que vai motivar o consumo.

Para resolver o problema, a carta aponta quatro caminhos distintos e complementares: aumentar a velocidade da vacinação, incentivar ao uso de máscaras adequadas (com distribuição), incentivar ao distanciamento social e a criação de uma coordenação nacional de combate à pandemia. No detalhamento de um dos itens, a carta recomenda a avaliação da adoção de lockdown.

“É urgente que os diferentes níveis de governo estejam preparados para implementar um lockdown emergencial, definindo critérios para a sua adoção em termos de escopo, abrangência das atividades cobertas, cronograma de implementação e duração”, sugeriram empresários e economistas de diferentes matizes ideológicas.

Queda nos números

Aparentemente, algumas medidas adotadas pelo governo de Joinville e de Santa Catarina têm dado certo, embora sejam insuficientes para reduzir os números ao patamar do ano passado. O governo catarinense fez dois “lockdowns de fim de semana”. O governo municipal restringiu o horário de funcionamento de bares e restaurantes. A soma dessas medidas, entre outras, representou uma queda relevante no fim do mês.

Para se ter ideia, entre os dias 1° e 14 de março, Joinville registrou 7.662 novos casos — média de 547,2 por dia. Já no parte final do mês, entre os dias 18 e 31, a cidade somou 5.344 novas infecções. A média diária, assim, baixou para 381,7.

Houve, de fato, uma redução, mas os números seguem alarmantes. São mais de 380 pessoas entrando em um sistema já colapsado. Em novembro do ano passado, a média não passava de 100 novos casos por dia. E já não era boa.

O pior lugar do mundo

Quando o tema é coronavírus, o Brasil é o pior lugar do mundo, pelo menos em 2021 e especialmente em março. No último mês, de acordo com consórcio nacional de veículos de imprensa, morreram 66.868 pessoas pela covid-19 no país. Janeiro teve 29.558 e fevereiro teve 30.484. A subida vinha desde novembro, mês que teve “apenas” 13.263 mortes.

No entanto, foi em março que a situação saiu totalmente de controle. O país começou a contabilizar mortes sem atendimento, já que todas as unidades estavam abarrotadas. Nas últimas semanas, quase todos os dias registraram um recorde de óbitos. Passou a ser “comum” a marca de 3 mil brasileiros mortos por dia. Até o serviço funerário ficou colapsado (podcast O Assunto).

O dia 31 de março foi o pior de todos, com a confirmação de 3.869 mortes. E nada sugere que o número — cada um representando uma vida — vá diminuir.