A política em Joinville: Culpas e desculpas

Por Felipe Silveira

Das 301 mil mortes que o Brasil registrou na quarta-feira (24), boa parte seria evitada com uma gestão pública séria. É o que mostram os exemplos mundo afora. De um país pobre, como o Vietnã, que com mais de 95 milhões de habitantes registrou somente 35 mortes, e de um país rico, como os Estados Unidos, que passou a salvar vidas em grande escala quando trocou o “maluco” de extrema-direita por alguém minimamente competente.

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O Brasil é governado por um genocida. Há quem pense que Jair Bolsonaro é um sádico que vibra com a morte do povo — especialmente da população negra e pobre. Há quem pense que ele é “apenas” um estúpido omisso. Meu pensamento varia entre as duas coisas, mas acrescenta que Bolsonaro deixa as mortes acontecerem por cálculo político, já que evitá-las exigiria mudanças radicais no discurso e flagrantes derrotas políticas. Em todos os casos, é genocida.

Este texto, no entanto, é para falar de outros culpados. Dos cúmplices aos omissos, passando pelos trouxas. Jornalistas, pastores, vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores, juízes, ministros etc. Qualquer pessoa com poder de influência e, principalmente, o poder da caneta.

Também é para falar sobre as desculpas que cada um já tem na ponta da língua para não assumir a culpa pelas mortes e por um país arrasado, traumatizado, com inúmeras sequelas físicas e mentais, para sempre enlutado.

A culpa de Jair Bolsonaro

Lidar com Jair Bolsonaro — um homem que sempre teve a morte como centro do seu discurso, que falava em matar 30 mil e metralhar oponentes, que zombava de mortos e desaparecidos, ligado à milícia, com inúmeros indícios de corrupção e sinais de burrice — já seria um imenso desafio para os brasileiros. Lidar com o coronavírus seria um desafio maior ainda, para todo o mundo. Lidar com as duas coisas juntas tem sido um pesadelo inenarrável.

O presidente é o maior responsável pelas 301 mil mortes (lembrando sempre que este é um número subnotificado). Trabalhou contra as vacinas (ouça áudios no podcast Medo e Delírio em Brasília), espalhou inúmeras mentiras (83% das bobagens sobre tratamento precoce, segundo Aos Fatos), ignorou problemas como a falta de oxigênio, deixou um fantoche estúpido à frente do ministério, promoveu aglomerações. Fez, o tempo todo, tudo errado. Com uma horda de seguidores fanáticos, levou muita gente à morte.

É difícil avaliar o erro/crime maior, mas me permito uma sugestão. Como ficou provado mundo afora, o que freia o vírus é o lockdown. Grande, pequeno, amplo ou pontual, é o bloqueio organizado que segura a circulação do vírus. Significa menos gente doente, menos sequelas, menos mortes e um sistema de saúde que consegue operar com certa normalidade. Há um evidente e considerável custo econômico e social, mas é por isso que não são ininterruptos. Sequer tentar, com o sistema de saúde colapsado e milhares de mortos por dia, é crime contra a humanidade.

Covarde que é, Bolsonaro é especialista em não assumir culpa. Nem remorso demonstra. Aliás, é um traço de psicopatia do presidente, conforme demonstrado pelo psiquiatra forense Guido Palomba (aqui em texto, da Folha, e em vídeo, logo abaixo). Neste contexto, também é difícil decidir qual será a maior desculpa de Bolsonaro para o genocídio em andamento. Porém, volto a destacar uma delas que resume bem o quadro.

Como ficou demonstrado no pronunciamento em rede nacional na terça-feira (23), agora Bolsonaro está forçando a mentira que sempre trabalhou pela vacina. “A vacina chinesa de João Doria”, é bom lembrar que ele disse lá atrás. Esta narrativa está pegando fogo no bolsozap (grupos de whatsapp bolsonaristas). Desde o discurso de Lula, o bolsonarismo se voltou a mudar a narrativa sobre o tema. E tem muito bobo que vai acreditar.

Mas é bom lembrar que Bolsonaro foi um detrator das vacinas, que atacou João Doria por ser um adversário político, que ignorou propostas do Instituto Butantan e da empresa Pfizer, entre outras ações contra a vacina. Reforço mais uma vez que ouçam o podcast com os áudios e detalhes de tudo isso. Agora, com a narrativa pró-vacina, Bolsonaro quer se livrar de todos os outros B.O. que causou.

A culpa de Carlos Moisés

O governador de Santa Catarina teve uma atitude exemplar no começo da pandemia. Talvez insuficiente, mas, na comparação com outros líderes estaduais, exemplar. Com o coletinho da Defesa Civil, estabeleceu medidas restritivas que chegaram perto de um lockdown já nas primeiras semanas. Segurou, assim, o primeiro baque em SC.

Mas Carlos Moisés sucumbiu à pressão e passou a cometer, ele mesmo, erros graves na condução do estado. Hoje é igual a qualquer governador negacionista. Aliás, é pior, pois vários governadores assinam cartas com pedidos ao governo federal e Moisés passa longe delas. Se fosse um aliado, vá lá, mas Bolsonaro nem vai com a cara do catarinense.

Moisés naturaliza as mortes da pandemia, como apontou o jornalista Ânderson Silva, colunista da NSC, em comentário sobre a entrevista do governador ao Jornal do Almoço no dia 17 de março. Moisés disse que as mortes acontecem na pandemia e que as pessoas precisam conviver com o vírus. Também voltou a destacar a abertura de leitos, como se, com leitos, fosse possível combater o vírus. Parece que não vive em um país que 80% dos intubados morrem e que 25% morre após a alta.

Claro que Moisés não é como Bolsonaro. Mas a omissão tem seu preço. Se o governo federal não faz, é Moisés, para os catarinenses, que tem o poder de tomar as atitudes necessárias. Estados estão fazendo lockdown da maneira que podem. Por que o governo de Santa Catarina, epicentro da pandemia, não faz? Sequer cobra o governo federal?

Moisés, nesta foto, está igual personagem de Avenida Brasil quando é pego em enrascada. E é mais ou menos esta a situação do governador, cada vez mais omisso na gestão da pandemia – Foto de Mauricio Vieira/Governo de SC

A culpa de Adriano Silva

A parcela de culpa do prefeito de Joinville foi a motivação para escrever este texto. Faz algumas semanas que cobro ações mais efetivas de Adriano Silva. Nas primeiras vezes, sugeri ações de comunicação, mudanças no trânsito e outras ações paliativas para enfrentar a doença. Nas últimas, tentei mostrar como é um erro adiar o necessário lockdown, mesmo diante da dificuldade de fazê-lo localmente.

Em todas as vezes, fui questionado por pessoas favoráveis ao governo. Elas minimizavam a culpa do chefe municipal ou que achavam as sugestões ruins. Alegavam pouco tempo de governo e poder limitado. Diante disso, comento meus apontamentos ao prefeito.

A primeira questão de todas é que este é um jornal local, que trata das questões joinvilenses. Se fosse eu florianopolitano, estaria criticando as medidas de Gean Loureiro. Mas a preocupação inicial de O Mirante é com as 600 mil pessoas vivem na maior cidade de SC, no norte do estado. Em Joinville, é Adriano Silva quem decide. As políticas públicas estão sujeitas à vontade do prefeito. Se ele decide, é ele quem deve receber a crítica.

A partir do momento que se entende o poder de decisão de Adriano, vale o mesmo raciocínio que valeu para Carlos Moisés. Se o governo federal não vai fazer o necessário pelo Brasil, se o governo estadual não vai fazer o que é preciso por Santa Catarina, cabe a Adriano decidir se vai tomar as medidas necessárias para salvar vidas joinvilenses.

A medida necessária, a única que pode conter a circulação do vírus, é lockdown. É um remédio amargo, mas é um remédio que funciona. Funcionou em Araraquara, está funcionando em Curitiba. Não resolve o nosso problema, mas ameniza. Significa menos gente doente, menos gente sofrendo, menos gente morta. Significa um pouco mais de segurança enquanto aguardamos a vacina.

Cada dia de bloqueio representa milhões de interações a menos. Comércio, escola, restaurantes, reuniões caseiras, academia e outras atividades esportivas. Tudo isso parado travaria a circulação do vírus. Tem que ser muito cabeça dura para não entender. Cada dia de bloqueio significa vidas salvas.

Mas por que as pessoas não ficam, simplesmente, em casa, em uma espécie de lockdown voluntário? Aqui está o pulo do gato sobre a eficácia do bloqueio. O lockdown é um acordo social. Naquelas duas ou três semanas, a cidade faz um acordo. Se o seu comércio está fechado, você não vai aceitar a visita de amigo ou parente, pois isto seria inutilizar o esforço coletivo.

Por isso que as medidas restritivas parciais tem uma eficácia muito baixa. Se o comércio está aberto, mas com horário restrito, ninguém deixa de frequentar o comércio. A única coisa que vai fazer é se adequar ao horário. Se quase tudo está aberto (menos alguns setores que são ainda mais prejudicados pela falta de efetividade), ninguém faz esforço algum para ficar em casa. Os únicos são aqueles que tem medo da doença, mas que muitas vezes são forçados a interagir com uma série de irresponsáveis por causa do trabalho.

Adriano Silva é a pessoa que pode tomar esta decisão. Deveria ser Jair Bolsonaro, mas este é um genocida. Deveria ser Carlos Moisés, mas este é um omisso. Em Joinville, a tarefa cabe a Adriano Silva, o dono da caneta, a pessoa que recebeu 145.269 votos na eleição. Ele recebeu a confiança destas 145 mil pessoas e a responsabilidade por cerca de 600 mil. Parte delas está morrendo. Parte delas está na fila, à espera de leitos. Talvez não dê tempo e elas morram sem ar. São nossos amigos e familiares nesta situação que pode ser evitada.

Adriano Silva, durante a campanha de 2020, usando uma máscara completamente inútil contra o coronavírus. No governo, algumas medidas são tão úteis quanto – Foto: Redes sociais da campanha

Mas Adriano também já tem suas desculpas. O prefeito insiste, de fato, em quase todas suas aparições, que as pessoas devem ficar em casa, evitando aglomerações. Ele também adotou algumas medidas restritivas, como fechar bares e estabelecer limites de clientes nos comércios. A Prefeitura também realizou fiscalizações, que volta e meia divulga, e trabalhou para abrir leitos.

É suficiente? Muito longe disso. Se fosse, não teríamos chegado a 889 óbitos em Joinville, sendo que 185 ocorreram em março, mais ou menos quando a variante de Manaus chegou à cidade. Neste mês, o número de casos também cresceu assustadoramente, com mais de 700 novos em vários dias. Não há abertura de leito que dê conta da demanda no atual contexto. Hoje temos mais de 300 internados, alguns em macas improvisadas. É muita gente infectada com uma doença que pode ser evitada.

Neste período, o prefeito falou muito sobre as malditas flores, sempre com um sorrisão no rosto, como se esse projeto bonitinho e bobo não pudesse esperar. Falo com a tranquilidade de quem gosta da ideia e deseja que seja uma verdadeira cidade das flores: pode esperar. Porque para ser uma cidade bonita, florida, bem cuidada e cheia de gente alegre, é preciso que haja vida. É preciso combater a pandemia de verdade. Sem desculpas.

Outros culpados

Gostaria de poder contar com deputados joinvilenses na luta contra o coronavírus, mas os seis bolsonaristas, em maior ou menor grau, não ajudaram. Trabalhar por leitos é importante, mas é muito pouco diante do que a sociedade precisou no último ano e precisa agora. Se você souber de um discurso ou ação parlamentar que levou ao combate efetivo à pandemia, me avise, pois faço questão de me retratar. Eu não vi.

A maior parte dos vereadores também não ajudou ninguém a ficar em casa. Alguns colunistas de jornal que espalharam teorias da conspiração ajudaram muito menos. Sem falar de certas rádios e seus convidados das profundezas da falta de noção. A Justiça tampouco ajudou. A lista é longa.

Não sei por qual razão qualquer dessas pessoas acha que o vírus se conterá naturalmente, como se não tivesse milhões para contaminar. Morreram, na terça-feira, 3.251 brasileiros. Por que alguém acha que esse número não vai subir até 4, 5, 6 ou 10 mil? A vacinação está vindo, mas vai demorar para imunizar uma quantidade razoável. Por que eles acham que o vírus vai parar, se [quase] nada é feito para parar o vírus?

Quem tem a caneta sabe o que fazer. Depois será tarde para se desculpar.


Despejo 1 x Casa 0

Talvez a melhor maneira de conhecer um político esteja na questão habitacional. É onde as entranhas da sociedade ficam aparentes. De um lado, os ricos, com suas mansões, luxos, helicópteros e lanchas. E, principalmente, com a terra. Os ricos têm terrenos, sempre valorizando. Uma poupança a céu aberto. E têm casas alugadas, uma situação em que os pobres transferem dinheiro para os ricos apenas para terem um teto. Do outro estão os pobres, com uma mão na frente e outra atrás.

Como tratamos os dois estratos sociais diz muito sobre nós. Diz mais ainda sobre os políticos. E, nesta semana, a partir deste caso, Adriano Silva se mostrou para nós.

Na terça-feira (23), um vídeo divulgado pela Agência Amanajé chocou Joinville. Feito por moradores, mostrava a tentativa de despejo de uma família de indígenas no bairro Fátima. Na cena, a situação de mulheres e crianças atingidas com gás de pimenta (ou similar) e a denúncia de que a Polícia Militar entrou pelos fundos a jogou o gás.

A família, oriunda de Manaus, caiu em um golpe e comprou um terreno em área de proteção ambiental, às margens do rio Itaum-Mirim, onde estava construindo uma casa simples. De acordo com a Prefeitura, equipes da Secretaria de Meio Ambiente e Agricultura (Sama) estavam em uma fiscalização de rotina na sexta-feira (19) quando viram o início da construção e autuaram a família, explicando que a obra não poderia continuar. Na segunda, a casa estava quase pronta. Na terça, chegaram com uma retroescavadeira para destruir a casa e despejar a família.

Quem estiver interessado pode acompanhar detalhes do caso nas matérias do jornal O Município (aqui e aqui) e pela própria Agência Amanajé. O Mirante também vai trazer informações sobre o caso, mas de maneira mais analítica, menos factual. E é neste sentido que a coluna quer fazer uma observação sobre a posição de Adriano Silva.

É na questão da terra que separamos os humanos dos meninos. A maneira como você trata famílias em situação de vulnerabilidade diz muito sofre você. Quando você passeia de helicóptero com a PM para fiscalizar “invasões” em áreas de mangue, como o prefeito na semana anterior, a PM joga gás de pimenta em crianças na seguinte, isso diz muito sobre você.

Na questão da terra, você pode despejar ou entregar chaves. Adriano Silva tem menos de três meses e pelo menos um despejo na conta. Quando entregará a primeira chave? O tempo e a quantidade de cada uma dirá muito sobre ele.


Mais um

Nada a ver com Joinville, a não ser pelo fato de haver milhares de apoiadores nesta cidade, mas na quarta houve mais um flagrante de neonazismo no governo de Jair Bolsonaro. Desta vez foi o assessor especial da presidência, Filipi Martins, que fez um gestão alusivo ao movimento neonazista White Power. Ele nega, alegando que ajeitava o paletó, mas o gesto é recorrente e Martins é muito mal relacionado

Não é a primeira vez que nazistas são pegos no governo. Quem não lembra de Roberto Alvim, o secretário de cultura que fez um vídeo simulando o nazista Joseph Goebbels, com frases similares (copiadas) e cenário cheio de referências. Ele negou também, mas perdeu o cargo. Vamos ver se o mesmo acontece com o novo caso.

Agora, vale perguntar para a sua tia (e, por que não, para o seu deputado?) se ela quer continuar a apoiar este governo de neonazistas de nível rastejante. Se eles quiserem, sugiro abrir o olho com a sua tia. Ou com seu deputado.


A política em Joinville é uma coluna de opinativa e informativa sobre o cenário político da cidade. Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha de financiamento coletivo. É muito importante que mais leitores e leitoras apoiem o projeto para que possamos mantê-lo no ar. Se você pode contribuir com alguma coisa, considere fazer, pois estamos precisando.