A política em Joinville: A postura do prefeito na cidade que já escolhe quem vive e quem morre

Por Felipe Silveira
Foto: Mauricio Vieira/Governo de SC

Foi confirmado pelo secretário de saúde, Jean Rodrigues da Silva, em entrevista ao jornal Notícias do Dia, que Joinville já adota o “protocolo de guerra” no enfrentamento à covid-19. Em outras palavras, os profissionais de saúde passam a decidir, diante das circunstâncias de cada paciente e da limitação de recursos, o tratamento que cada um vai receber. Ou seja, os médicos precisam decidir quem tem a chance de viver e quem morre.

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Não consigo imaginar o sofrimento de um profissional de saúde nesta situação. Sem dúvida, um dos momentos mais difíceis para quem já está há um ano sob intensa pressão, se desdobrando para salvar vidas e arriscando a própria nos hospitais lotados. Mas este texto não é para falar dos profissionais de saúde, pois eles, diante da situação, não podem fazer mais do que já fazem. Este texto é para falar de alguém que pode fazer muito mais para mudar essa situação trágica.

O prefeito Adriano Silva não tem o poder de um governador ou de um presidente, mas tem poder para fazer muito mais do que está fazendo em prol da população. E não faz. As decisões são difíceis, mas isso não é um impeditivo para que ele as tome. Pelo contrário. O valor do político está justamente em sua capacidade de tomar decisões difíceis.

A decisão difícil é o bloqueio total. Lockdown, para quem prefere o termo mais conhecido, exportado de quem já fez. A ciência e a experiência internacional já mostraram que é o único caminho a tomar. A única alternativa para brecar a circulação do vírus, que está fora de controle. E se a experiência internacional está muito distante, se o contexto europeu é muito diferente para comparar, basta que olhemos para Araraquara, cidade do interior de São Paulo que fez lockdown. O município ainda está em situação delicada, mas não está colapsado como Joinville está.

O sistema de saúde de Joinville nunca esteve confortável durante a pandemia, mas o que já estava ruim ficou extremamente crítico nas últimas semanas. Há cerca de um mês, o número de novos casos cresceu vertiginosamente. A média de novos casos há um mês era próxima de 200. Hoje, ultrapassa 620.

O número de mortes também disparou. Dos 836 óbitos, 132 ocorreram nos 18 dias de março. Entre a primeira morte pela covid-19 na cidade, que ocorreu no dia 30 de março de 2020, e o dia 28 de fevereiro de 2021, a cidade registrou 704 óbitos. Ou seja, apenas nos últimos 18 dias, ocorreram 16% do total das mortes na cidade.

E a tendência é piorar. Na terça-feira (16), participei de uma entrevista com o coordenador do combate ao coronavírus em Joinville, o infectologista Luiz Henrique Melo. Ele foi contundente ao dizer que que a situação vai chegar e um ponto em que as pessoas vão voluntariamente fazer lockdown, pois “cada família vai ter alguém que vai precisar de leito e não vai ter”.

É neste contexto terrível que a postura do prefeito joinvilense espanta qualquer pessoas que tem um pingo de noção acerca do que está acontecendo.

Com um crescimento vertiginoso de novos casos e de mortes; com equipes de saúde exaustas pela rotina de um ano de pandemia; com o fechamento de unidades de saúde para que outros tenham profissionais; com o secretário assumindo que adotamos protocolo de guerra, em que é necessário decidir quem vive e quem morre; e com o coordenador de combate à covid-19 dizendo que a situação vai piorar; Adriano Silva, o único joinvilense que pode fazer algo decisivo para mudar a situação, não toma a atitude necessária.

Ninguém precisa acreditar em mim quanto à postura de Adriano Silva. Convido àqueles que duvidam a acompanhar as redes sociais do prefeito. Na quinta-feira (18), na live semanal que faz no Instagram, o prefeito comentou as medidas para combater a doença. Vá lá, veja e depois me diga se aquela é a postura adequada para alguém que está à frente de uma cidade colapsada, com médicos escolhendo quem tem a chance de viver e quem vai morrer. A impressão que dá é que Adriano Silva e a vice, Rejane Gambin, estão o tempo todo justificando as medidas restritivas mixurucas para os negacionistas.

No dia anterior, quarta-feira (17), a Prefeitura divulgou um material com todos os feitos do governo para enfrentar a pandemia. Este foi o tema de um vídeo publicado pelo prefeito, que também pode ser conferido no Instagram. Basicamente, fala sobre a expansão da rede hospitalar e da contratação de pessoal. As medidas restritivas sequer são citadas. De modo geral, a prefeitura quer mostrar que está fazendo muita coisa (expansão da rede), quando não está fazendo o que mais importa.

Se os exemplos acima não bastam, sugiro que ouçam a entrevista de Adriano Silva a uma rádio local (aquela mesma em que um ex-vice-prefeito negacionista vive falando bobagem). Nela, o prefeito demonstra uma preocupação maior com a pandemia, explicando a gravidade da nova cepa do vírus, mas novamente insiste em falar da ampliação da rede e do “comportamento das pessoas” como a solução para o problema. Em determinado momento, fala que novos profissionais vão desafogar um pouco os que estão exaustos. Não vão, não, pois o número de pacientes vai se multiplicar numa velocidade bem maior do que a chegada de novos profissionais, que estão escassos no mercado.

Durante a entrevista, por volta dos 32 minutos do vídeo, Adriano Silva é perguntado sobre o lockdown a partir de um comentário estúpido do prefeito de Criciúma, Clésio Salvaro. Sem a menor noção do problema, o criciumense disse que decreta lockdown para os servidores públicos, mas sem salário. Rindo, Adriano comenta que o vídeo é mais para “lavar a alma de todas as pessoas que dependem do seu trabalho”, sugerindo que elas não querem o lockdown e que quem quer não depende do seu trabalho.

Não só na rádio como em todas as outras ocasiões, o prefeito joinvilense insiste que o que vai mudar o quadro é o comportamento das pessoas. Simples, não é? Pena que não funciona, tanto que em todo lugar que a situação começou a sair de controle, o lockdown foi necessário. E pouquíssimos lugares saíram de controle como Joinville. Ninguém insiste em lockdown porque acha bonito, ninguém acha que é uma situação fácil. Mas é necessário.

Enquanto o prefeito insiste que o problema são as pessoas, as pessoas vão continuar chegando aos montes nos hospitais lotados. Quem der sorte vai ocupar a vaga de alguém que morreu naquele dia. Antes, porém, o médico vai avaliar a situação de acordo com o protocolo de guerra. Talvez você fique de fora porque outra pessoa tem mais chance de sobreviver do que você.

De fato, o comportamento das pessoas pode mudar este cenário. Mas uma pessoa, com uma canetada, também pode. Foi eleita para isso, para tomar as decisões difíceis. É dele, de Adriano Silva, a responsabilidade.


Ideal

O lockdown municipal não é o ideal. Nos países europeus e asiáticos que tiveram sucesso com a medida, a ação foi coordenada pelo equivalente ao governo federal. Foi com muita organização que o Vietnã, um país com quase 100 milhões de habitantes, inibiu a circulação do vírus e conta com apenas 35 mortes. Joinville, com quase 600 mil habitantes, tem mais de 800. O Brasil vai chegar, neste final de semana, às 290 mil mortes.

Porém, todos nós sabemos que a chance de um lockdown coordenado pelo governo de Jair Bolsonaro é próxima de zero. Qualquer pessoa que não esteja vendada pelo bolsonarismo doentio percebe que o presidente trabalha a favor do vírus, boicotando a vacina, promovendo aglomerações e espalhando mentiras.

Portanto, apesar de não ser o ideal, o lockdown local é o que nos resta. Aos poucos, prefeitos e governadores estão tomando as medidas necessárias. O governo do Pará decretou nas cidades mais críticas. A Prefeitura de Curitiba decretou um lockdown de nove dias que teve início no sábado (13). Araraquara, já citada, teve duas semanas de bloqueio, o que reduziu em 43% o número de novos casos.

Ninguém acha que o lockdown é uma medida simples, que não causa um impacto gigante na vida do povo. Mas é preciso lembrar que enquanto trabalhadores perdem seus empregos e pequenos empresários vão à falência, as grandes indústrias estão ganhando dinheiro a rodo, exportando em dólar.

Também é preciso repetir que, em uma cidade que já adota “protocolo de guerra”, bombardeada por uma ameaça invisível, cabe ao governante eleito tomar as medidas necessárias para uma situação de guerra. Em conflitos, nenhum líder de respeito deixou de coordenar a população, muito menos jogou a resolução para elas.


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Entrevista

Como já disse acima, na terça-feira (16) participei de uma entrevista com o coordenador do combate à pandemia de coronavírus em Joinville, o médico infectologista Luiz Henrique Melo. Recentemente, ele escreveu um forte depoimento no Facebook, criticando o negacionismo e o “lockdown jabuticaba”, e por isso foi convidado a falar pelo Comitê Popular Solidário de Joinville contra o Coronavírus. E eu fui convidado a participar com perguntas.

Convido quem está lendo a ver o vídeo, que repercutiu até no jornal A Notícia, mas gostaria de registrar alguns comentários sobre a conversa, especialmente sobre o que não gostei.

Quem acompanha a coluna já sabe que sou um dos maiores críticos à comunicação da prefeitura sobre o coronavírus. Um trabalho de conscientização sobre uso adequado de máscaras, sobre o perigo dos espaços fechados (e a vantagem dos espaços abertos) e sobre a gravidade da doença poderiam fazer muita diferença no famigerado “comportamento das pessoas”. Perguntei sobre o tema para o coordenador e a resposta foi frustrante.

Para Luiz Henrique Melo, a prefeitura faz um bom trabalho de divulgação, mas as pessoas não querem aceitar a informações porque aceitá-las implicaria em abrir mão de prazeres do cotidiano. O médico disse que a prefeitura divulga os números e estes dados deveriam ser o suficientes para que a população se conscientizasse.

Mas a comunicação não é suficiente e não é boa. Se fosse, o prefeito não estaria na frente de um centro de tratamento precoce, reforçando uma mentira espalhada pelo bolsonarismo. Se fosse, as pessoas não diriam que todo mundo vai pegar a doença, tratando como fato consolidado do qual não se pode fugir. Se fosse, não teria tanta gente inocente implorando por tratamento precoce (sim, as pessoas acham que é tratamento precoce mesmo, que funciona). Se a comunicação fosse boa, as pessoas saberiam mais sobre o colapso do sistema e sobre a gravidade da doença e suas sequelas.

Para quem acompanha detalhes sobre a pandemia, como médicos, jornalistas e outros interessados, todas essas informações são óbvias. Mas não é assim que funciona para o conjunto social. Muita gente não vê jornal, não acompanha redes sociais informativas e não presta atenção nos dados. Outras não querem mesmo aceitar. Mas é por isso que existe uma área do conhecimento chamada publicidade, que vai trabalhar justamente no convencimento. E, neste sentido, a comunicação da Prefeitura de Joinville é nula.

Achei outras respostas ruins, em especial sobre o uso de boas máscaras, sobre o lockdown e sobre escolas abertas. Melo, que exerce uma importante função política neste momento, falou bastante sobre lockdown, mas não entrou na parte política, que é fundamental quando se discute o tema. Contudo, apesar das minhas divergências, sugiro que vejam e façam suas avaliações.


171

Na quinta-feira (18), a Prefeitura destacou nas redes sociais e no material à imprensa que Joinville registrou apenas 171 novos casos de covid-19 — um número bem abaixo da média diária, superior a 600. A surpresa positiva, porém, durou pouco. Logo descobri, com a ajuda de leitores, que a suposta baixa aconteceu por conta de uma instabilidade no sistema. Veja a explicação:

Na quarta-feira, os números não foram divulgados por causa da pane, e foram atualizados na manhã do dia seguinte. Constou na atualização, que provavelmente somou dados da quarta e da manhã de quinta-feira, que a cidade tinha 1.192 novos casos. Quando o sistema foi novamente atualizado, desta vez no horário correto, constavam apenas os 171 novos casos registrados naquele período mais curto, entre uma atualização e outra.

Ou seja, nos dois dias, Joinville registrou 1.363 novos casos. Foram mais de 680 casos por dia, embora não seja possível saber quais casos são de quarta e qual caso é de quinta. O problema é que a prefeitura “pulou” a contagem de quarta, que seria o recorde de novos casos (1.192), e destacou a baixa contagem de quinta (171).


A política em Joinville é uma coluna de opinativa e informativa sobre o cenário político da cidade. Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha de financiamento coletivo. É muito importante que mais leitores e leitoras apoiem o projeto para que possamos mantê-lo no ar. Se você pode contribuir com alguma coisa, considere fazer, pois estamos precisando.