A política em Joinville: Adriano Silva está fazendo tudo errado

Por Felipe Silveira
Foto: Arquivo da Prefeitura

Na última semana (entre domingo e sábado), 3.874 pessoas foram confirmadas com coronavírus em Joinville. Morreram 43 pessoas pela covid-19 no mesmo período. Neste domingo (14), mais 527 pessoas receberam o diagnóstico e oito mortes foram confirmadas. Até o momento, 793 joinvilenses perderam a vida para a doença.

Em apenas sete dias, milhares de pessoas tiveram a doença confirmada em uma cidade que já está colapsada há semanas, que tem pouco mais de uma centena de leitos públicos de UTI, que tem profissionais de saúde extremamente desgastados após um ano de pandemia e que tem milhares de pessoas em negação sobre a gravidade da doença. Muitas delas estavam na rua neste domingo, defendendo o maior genocida do nosso tempo.

Na última semana, o prefeito Adriano Silva manteve as escolas abertas; manteve a circulação do transporte coletivo com aglomeração nos terminais; não fez uma boa campanha de conscientização na TV; restringiu o setor de serviços em horário que boa parte já fechou; fechou unidades básicas de saúde para poder ter profissionais à disposição em outras; e divulgou o centro de tratamento precoce — coisa que não existe para a covid-19 e agrava a situação sanitária do município. Ou seja, tudo errado.

É preciso destacar que o centro de tratamento precoce existe desde agosto de 2020 e foi aberto durante o governo Udo Döhler. O tema voltou à tona nesta semana, quando a prefeitura divulgou informações sobre a unidade e o prefeito também divulgou em uma rede social.

Nas colunas anteriores, fizemos algumas sugestões ao poder público. Explicamos que fazer um lockdown em âmbito municipal é realmente difícil, mas que o mínimo a fazer é cobrar de cima. Durante a semana, porém, Araraquara (SP) demonstrou que o lockdown municipal é possível e faz diferença. Em outro texto, propusemos medidas de redução de danos, como o aumento da estrutura cicloviária para tirar gente do transporte coletivo, entre outras. E também falamos sobre como é problemático tratar o aumento do número de leitos como medidas de combate à pandemia.

Não falamos sozinhos ao dar sugestões à prefeitura. Até a CDL Joinville pediu ao prefeito que decretasse o lockdown de uma semana, desde que para todos os setores, e não somente para os lojistas (havia uma espécie de “provocação” na proposta, já que não é comum fechar indústrias durante os bloqueios). Então, mesmo que o prefeito ignore as sugestões da coluna de opinião de um jornal independente, não se pode dizer que ele não tem acesso à informação para tomar decisões melhores. É dentro desse contexto que Adriano Silva opta pelo errado, como vamos detalhar a seguir.

Os erros de Adriano Silva

Escolas abertas
Não dá para entender como, diante do agravamento acelerado da pandemia, o prefeito não suspenda as aulas nas escolas municipais. Eu consigo entender a reabertura das escolas, já que este era um pedido da Unicef (não nas condições que a cidade estava, é preciso deixar claro), mas não é possível entender a manutenção das aulas presenciais no contexto atual. Diariamente vemos e ouvimos comunidades em luto porque professores estão morrendo. Diariamente ouvimos que mais e mais professores e outros profissionais da educação são contaminados.

Se no papel a volta às aulas presenciais é segura, na prática é diferente. As comunidades escolares não estão preparadas para o retorno, ainda mais em um momento de colapso do sistema de saúde, em que precisamos reduzir ao máximo as interações.

Recusa ao lockdown e medidas brandas
Araraquara, cidade do interior de São Paulo, estava em colapso no início de fevereiro, quando decidiu fazer o lockdown de uma cidade. O primeiro de verdade, e não esse mequetrefe proposto pelo governo de SC. Foi pouco mais de uma semana com shoppings e supermercados fechados (funcionava por entrega), sem transporte público, entre outras medidas. O número de casos caiu 43%.

Com o país inteiro colapsado (quase todos os estados estão com falta de leitos), vários outros prefeitos estão aceitando que o lockdown é a medida necessária para conter a pandemia. Curitiba, aqui do lado, decretou lockdown por nove dias, começando no sábado (13). Considerados serviços essenciais, como supermercados, padarias, postos de combustíveis e farmácias, podem funcionar. Restaurantes e lanchonetes podem fazer entregas. O restante ficará fechado.

Assustado com o avanço da pandemia na semana passada, Adriano convocou uma reunião de emergência do gabinete de crise. Até me iludi que ele decretaria um lockdown curto, saindo na frente de tantos outros em negação. Mas o anúncio das medidas foi muito frustrante. Tudo segue aberto, tendo apenas que fechar mais cedo. Não muda a vida de ninguém. Quem quer ir no bar vai continuar, só que vai para casa mais cedo. Depois fica fácil culpar a “ineficácia” das medidas restritivas, dizer que tentou e não adiantou, pois é óbvio que desse jeito elas não vão funcionar.

Tratamento precoce
Não existe tratamento precoce contra covid-19. A única forma de prevenir a doença é evitar o contato com o vírus, transmitido pelo ar. Se você não quer ficar doente, precisa fugir do vírus, evitando aglomerações e usando boas máscaras. Isso é se prevenir. Tratamento precoce é um engodo inventado pelo presidente Jair Bolsonaro para jogar à favor do vírus, que é que ele está fazendo desde o início da pandemia.

Existe, sim, tratamento para a covid-19. Se você tem sintomas, o médico vai lhe receitar alguns remédios para lidar com o problema. Mas isso não é tratamento precoce. É tratamento. Se o paciente der sorte, o caso não vai se agravar.  Porém, é uma incógnita. Teve muita gente que tomou remédio e mesmo assim ficou mal. Muitos morreram.

Quando o prefeito instala e divulga um centro de tratamento precoce, mesmo que seja uma unidade de saúde destinada ao tratamento de pessoas com sintomas leves, ele está passando uma terrível mensagem aos joinvilenses. A cidade já está cheia de gente que foi enganada pelo presidente e instalar um centro de tratamento precoce, chamá-lo dessa forma, é reforçar a mentira que coloca a vida das pessoas em risco.

Falta muita informação sobre a covid-19. A ênfase ao álcool em gel (que tem sua utilidade) e à medição de temperatura (inútil) tiram o foco das coisas que verdadeira importam, como evitar encontros com outras pessoas, evitar lugares fechados, priorizar locais abertos e usar boas máscaras. Nesse contexto, a ideia de que existe tratamento precoce prejudica demais. Pessoas que acreditam em tratamento precoce tendem a tomar menos cuidados, colocando em risco a si mesmo, amigos, pais, filhos e população em geral.

Campanha
É no mínimo falta de noção a manutenção da campanha “Joinville mais bonita” diante do cenário atual. Mas é dela o primeiro banner que vemos ao abrir o site da prefeitura. É a campanha que está passando na TV, com dinheiro público. Enquanto isso, as pessoas não sabem da gravidade da doença (são iludidas com a ideia de tratamento precoce), não sabem da necessidade de boas máscaras, não sabem o quanto é perigoso dividir o local fechado com outras pessoas. Portanto, a falta de campanhas de conscientização efetivas também entram na conta dos erros de Adriano Silva.


Entrevista

O Comitê Popular Solidário de Joinville entrevista, nesta terça-feira (16), às 19 horas, o médico infectologista Luiz Henrique Melo. Ele coordena as ações de combate ao coronavírus em Joinville. A transmissão será feita pelo Facebook da organização.


CDH pede lockdown

O Centro dos Direitos Humanos Maria da Graça Bráz (CDH) reforça a cobrança por lockdown em Joinville. Em nota que critica o fechamento de UBS nos bairros, a entidade afirma que apesar dos prejuízos para toda a sociedade, “não há outra maneira de conter o avanço da crise sanitária descontrolada que, por isso mesmo, exige a presença forte do gestor público, sob pena de falhar em sua missão constitucional”.


Ainda nos direitos humanos

A discussão sobre pessoas em situação de rua na Comissão de Direitos e Cidadania da Câmara de Vereadores de Joinville (CVJ) está terrível. Alguns parlamentares não tem a menor noção do papel da comissão e de discussões básicas acerca de direitos humanos.

Em reunião recente, o presidente da comissão, vereador Pastor Ascendino (PSD), criticou as políticas públicas, sugerindo que estamos “apenas sustentando” as pessoas que estão na rua. Outro colega de comissão, o vereador Brandel Junior (Podemos), disse que as políticas sociais facilitam a ida para a rua de “pessoas que não têm compromisso com nada”.

Brandel Junior e Pastor Ascendino na Comissão de Direitos Humanos da CVJ

Coronel Armando

O deputado federal Coronel Armando (PSL) assume importante função na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (Credn), na Câmara dos Deputados. Será o segundo vice-presidente. Fato curioso da notícia é a volta do mineiro Aécio Neves (PSDB) aos holofotes, pois será o presidente da comissão que tem grande importância no Congresso.

Protagonista da política nacional na última década, Aécio chegou perto da presidência em 2014. Ao não aceitar a derrota para Dilma Rousseff (PT), ajudou a colocar o país no buraco em que estamos. Estava meio sumido desde 2017, quando foram divulgados áudios que o envolviam em escândalo de corrupção. Em um deles, o ex-senador falou até em matar o primo envolvido no negócio.


Lavajatistas

Os deputados joinvilenses Rodrigo Coelho (PSB) e Darci de Matos (PSD) nunca esconderam o lavajatismo. A operação, mais suja do que pau de galinheiro, conforme revelado pela série jornalística Vazajato, ainda tem ares sacros para muitos. Coelho caracterizou como lamentável a decisão do ministro Edson Fachin. Darci emitiu uma nota com o título “Não podemos aceitar”. No texto, disse que a decisão “acaba com o trabalho de muitos anos da ‘Lava Jato’, a maior operação de combate à corrupção de nossa história”.

Deve ser difícil aceitar que o ídolo tinha pés de barro.


A política em Joinville é uma coluna de opinativa e informativa sobre o cenário político da cidade. Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha de financiamento coletivo. É muito importante que mais leitores e leitoras apoiem o projeto para que possamos mantê-lo no ar. Se você pode contribuir com alguma coisa, considere fazer, pois estamos precisando.