Joinville 170 anos: O início da democracia e o clã que dominou a política local (parte 2)

A foto acima é um registro do momento que a população recepciona os primos Carlos Gomes e Plácido Olímpio de Oliveira após a prisão dos dois na década de 30 – O registro da época foi reproduzido pela jornalista Maria Cristina Dias


No mês em que Joinville completa 170 anos, preparamos uma série de matérias sobre a história da política da cidade, desde os tempos que essas terras ainda eram um distrito de São Francisco do Sul até os dias atuais

Por Alexandre Perger

Você leu na primeira parte do especial que Joinville foi desmembrada de São Francisco do Sul em 1866 e, embora já tivesse uma administração própria determinada pelo império desde o início da colonização e contasse com uma organização comunitária dos primeiros colonos, passou a ter um núcleo político-administrativo específico em 1869. É a partir desse momento que a história política de Joinville se consolida, com eleições oficiais e a escolha de representantes que fariam o papel de prefeito.

Pela legislação do período monárquico, vigente até 1889 (quando foi proclamada a república), os vereadores eram eleitos e o presidente da câmara assumia também poderes do executivo. Ou seja, acumulava o cargo de prefeito, denominação que ainda não era utilizada.

No primeiro pleito, realizado em setembro de 1868, 231 eleitores foram à Igreja de São Francisco Xavier para a eleição de sete parlamentares. O eleitorado representava algo em torno de 5% em relação aos 5 mil habitantes da vila à época. Isso porque podiam votar apenas homens com mais de 20 anos e com uma determinada quantia de renda.

No caso de Joinville, o número de eleitores era ainda mais reduzido do que em outras regiões, já que era preciso ser brasileiro nato ou naturalizado para votar. Como parcela significativa da população era de imigrantes, muitos ainda não tinham se naturalizado, e, em alguns casos, nem seus filhos.

No resultado, o Partido Liberal levou cinco cadeiras, enquanto o Partido Conservador ficou com as duas restantes. O primeiro presidente, que também pode ser considerado o primeiro prefeito, foi João Adolfo Haltenhoff, do Partido Liberal. Ele assumiu o cargo em 13 de janeiro de 1869 e ficou até 21 de março de 1873, renunciando por motivos de saúde.

O político mais relevante dos primeiros anos

O primeiro meio século de Joinville é recheado de personagens que ainda figuram no imaginário popular, seja pelos nomes das ruas mais conhecidas ou pela extensão dos laços familiares. Frédéric Brüstlein, por exemplo, foi a autoridade designada pela família real para cuidar dos negócios nos primeiros anos (é preciso lembrar que a colônia era apenas um negócio imobiliário para o príncipe), mas também foi um ativo participante da política local, tendo sido vereador e superintendente. Outro exemplo é a família Döhler, que chegou à região nas primeiras décadas e ajudou a consolidar uma potente indústria têxtil. Há poucos meses, o prefeito era um de seus filhos.

Mas, entre tantos personagens importantes, um deles se destacou nas primeiras décadas, entrelaçando sua história com o desenvolvimento econômico e social da cidade. O alemão Ottokar Doerffel chegou à colônia Dona Francisca em 1854, com uma longa experiência política e cultural que lhe deu destaque na comunidade. Advogado, foi prefeito da cidade de Glauchau, na Alemanha. Condenado por ter ligação com os movimentos em prol da unificação da Alemanha, fugiu para as américas em busca de um recomeço.

Ottokar Doerffel era prefeito de uma cidade alemã quando foi condenado por participar dos movimentos revolucionários de 1948, o que o levou a fugir para o Brasil em busca de uma nova vida – Foto: Freie Presse Glauchau via Wikipedia

Quando chegou na colônia, ainda encontrou uma ambiente bastante hostil, praticamente o mesmo que os primeiros imigrantes encontraram. Com sua bagagem, se tornou uma forte liderança entre os colonos, tendo participado da criação de associações e ajudado a fundar a sociedade Harmonia Lyra, um marco cultural na cidade, que até hoje é símbolo da elite local. Também foi um ativo membro da maçonaria e responsável pela criação do jornal mais importante do município em seu primeiro século.

Assim que desembarcou no Brasil, Doerffel deu início ao projeto de montar um jornal, mas o plano foi adiado mais de uma vez. Das três tentativas de adquirir uma prensa europeia, apenas a última deu certo. Em 1862, abriu o Kolonie-Zeitung (Jornal da Colônia), cuja oficina ficava em sua residência, na casa que hoje abriga o Museu de Arte de Joinville (MAJ). O primeiro jornal, que circulou até 1942, foi fundamental para a organização política da cidade e também para a carreira política de seu criador.

Ottokar ainda foi vereador e presidente da Câmara Municipal, assumindo então o cargo de “prefeito” de Joinville entre 1874 e 1877. Diretor da colônia de forma interina, segundo reportagem do jornal A Notícia, foi responsável por dar início à comunidade que se transformou em São Bento do Sul. Preocupado com a vinda de mais e mais imigrantes, mandou subirem a serra e construírem uma nova vila. A localidade, nos anos seguintes, foi importante para a consolidação da indústria ervateira que definiu a economia no primeiro século de Joinville.

O francês Frédéric Brüstlein foi uma figura importantíssima para a formação de Joinville. O baiano Abdon Batista também chegou à cidade nas primeiras décadas e se tornou uma figura de grande importância política. Assim como eles, muitos outros nomes compuseram a história local no período e poderiam ganhar destaque neste especial. Porém, o impacto de Ottokar Doerffel em diversas áreas e sua importância na construção da “germanidade” de Joinville o colocam como a figura mais relevante da política joinvilense na segunda metade do século 19.

Para se ter uma ideia do papel de Ottokar Doerffel no imaginário joinvilense, o atual prefeito de Joinville, Adriano Silva, participou de um ato diante do túmulo do personagem histórico nas celebrações do aniversário da cidade, no último dia 9 de março.

Com a proclamação da república e a estruturação de uma nova economia, outros personagens ganharam destaque nos anos seguintes. Entre tantos, uma família que já estava pela região antes da chegada dos germânicos marcou de vez o seu papel na história de Joinville. Antes de conhecê-la, porém, vamos ver como ficou Joinville depois do marcante 15 de novembro de 1889.

A casa construída pelo político abrigou a oficina do jornal Kolonie-Zeitung e atualmente é a sede do Museu de Arte de Joinville – Foto cedida por Jackson Nessler

A fase republicana

Em 1890, após a proclamação da república, o sistema administrativo mudou. Surgiu a superintendência municipal, que depois veio a ser a prefeitura. Um pouco mais tarde também houve a separação dos poderes, criando-se o Conselho Municipal, que era o legislativo. Com essa mudança, o prefeito deixava de ser o presidente da Câmara Municipal. Frédéric Brüstlein, que representava o império na administração colonial e acumulava o cargo de presidente da câmara à época, perdeu as duas funções com a chegada dos ventos republicanos.

O primeiro superintendente eleito foi Ernesto Canac, do Partido Republicano, que assumiu em 15 de janeiro de 1890, exercendo mandato até 1º de janeiro de 1892. Francês que veio de Buenos Aires para Joinville em 1878, ele ingressou como empresário no comércio de erva-mate, principal atividade econômica da cidade na época.

Canac também foi o primeiro diretor da Companhia Industrial Catarinense, empresa fundada em 1891 que reuniu diversas outras companhias de erva-mate. Os outros dois diretores foram Abdon Baptista e Procópio Gomes de Oliveira. Eles também foram prefeitos de Joinville, mostrando realmente a importância da atividade para o município, uma vez que esses empresários reuniam poder econômico e político.

A disputa entre germânicos e luso-brasileiros, que mencionamos na primeira parte deste especial, logo passou à política. Um exemplo dado pelo historiador Dilney Cunha foi a corrida pela superintendência em 1898. Gustavo Adolfo Richlin era apresentado como o candidato da população germânica e derrotou Abdon Baptista, tido como o representante dos luso-brasileiros.

A derrota não abalou Abdon Baptista, que acabou sendo superintendente em dois mandatos, entre 1892 e 1893 e entre 1915 e 1921. O baiano, que era médico, ocupou diversos cargos públicos, tendo exercido grande influência na política local, estadual e nacional. No período monárquico, de acordo com a historiadora Raquel Santiago, foi deputado provincial, vice-presidente da província de Santa Catarina e exerceu a presidência (governador) entre 26 de junho e 19 de julho de 1889. Já na república, foi deputado federal (1903 a 1905), vice-governador do estado (1906 a 1910), com exercício no governo entre 28 de setembro e 21 de dezembro de 1906 e, também senador (1913 a 1917).

Ilustração de Abdon Baptista – Foto: Alesc

Com esse currículo, Abdon Baptista pode ser considerado o principal nome da política joinvilense na República Velha, estendendo sua atuação para o estado. Tanto é que um município foi batizado com seu nome em 1934. Mas, para entender como um médico baiano se tornou essa figura de destaque em uma colônia predominantemente germânica, é preciso entender a configuração daquela comunidade e uma famosa família de origem lusitana.

Os Gomes de Oliveira

Eles dão nomes a ruas, escolas, prédios públicos. Também já estavam na região quando os primeiros colonos chegaram. Eram grandes proprietários de terra e escravagistas. Foram, aliás, os escravizados por estes senhores que fizeram o trabalho mais pesado nos primeiros anos da colônia Dona Francisca. Estamos falando da família Gomes de Oliveira.

Primeiro como grandes proprietários de terra em toda a região e depois como comerciantes sediados em Joinville, a família Gomes de Oliveira formava uma poderosa oligarquia. Com a abolição da escravatura, o comércio da erva-mate se tornou a principal atividade da família. E também da colônia. A Companhia Industrial Catarinense, sob domínio do clã, chegou a ser a maior empresa do estado no auge da indústria ervateira.

João Gomes de Oliveira era um fazendeiro cujos descendentes marcaram a história política e econômica de Joinville. O primeiro deles foi Procópio Gomes de Oliveira, um dos membros de maior destaque na política regional. Era um dos maiores acionistas da Companhia Industrial Catarinense (detinha 40% quando as operações foram encerradas) e o primeiro a ingressar na vida política oficial. Foi superintendente de Joinville em duas oportunidades, de 1903 a 1906 e de 1911 a 1915, além de deputado estadual e presidente da Associação Comercial de Joinville.

Abdon Baptista passou a fazer parte da família em 1884, quando se casou com Teresa Nóbrega de Oliveira, tornando-se genro e concunhado dos grandes ervateiros da época. Teresa era filha do coronel José Antônio de Oliveira. A outra filha do coronel era Cesarina Adelina Nóbrega de Oliveira, casada com João Gomes de Oliveira Filho, o irmão de Procópio Gomes de Oliveira. Este clã, que juntava a riqueza e o poder de dois coronéis de origem portuguesa, foi a principal força política da cidade na virada do século 19 para o 20.

Procópio não foi o único político da família. Seu filho, Plácido Olímpio de Oliveira, foi superintendente municipal e também deputado. Ele protagonizou uma passagem curiosa acompanhado de outro membro político da família, o cunhado Carlos Gomes de Oliveira, que foi deputado estadual, federal e senador. Ambos foram presos por terem publicado um texto, em um jornal local, com elogios à Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Ficaram um mês atrás das grades e, quando soltos, chegaram em Joinville como heróis, recebidos por uma multidão.

Carlos Gomes foi um político influente nacionalmente, chegando à presidência do Senado (na função, presidiu a cerimônia de posse de Juscelino Kubitschek, em 1955). Com a ascensão de Getúlio Vargas, em 1930, ele apoia o regime imposto pelo gaúcho. Como deputado constituinte, introduziu na Constituição de 1934 um artigo que obrigava o ensino nas séries primárias fossem obrigatórios no idioma português. Mais tarde, participou da campanha de nacionalização promovida por Getúlio Vargas que marcou tão fortemente a história de Joinville.

Foi em 1934 que Carlos Gomes de Oliveira se mudou para a capital do país, à época o Rio de Janeiro, e com a família por lá ficou. Boa parte do clã permaneceu em Joinville, ainda protagonizando a política local e estadual, mas perdeu poder político e econômico nos anos posteriores. Nas décadas seguintes, enquanto os Gomes de Oliveira perdiam espaço, novos personagens entravam para a história local. Mas este é o tema do próximo capítulo.

Carlos Gomes de Oliveira em encontro com Getúlio Vargas – Foto: Arquivo Histórico de Joinville