Especial 170 anos: A formação política de Joinville – de freguesia à vila emancipada (parte 1)

Na semana em que Joinville completa 170 anos, preparamos série de matérias contando a história da política da cidade, desde os tempos que essas terras ainda eram um distrito de São Francisco do Sul até o momento em que ganhou protagonismo no cenário político estadual.

Por Alexandre Perger

No dia 17 de fevereiro de 1852, apareceu no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, capital do Brasil na época, um comentário em tom de denúncia vindo da então Vila de Joinville. Em um artigo, o coronel luso-brasileiro Antônio João Vieira lamentava a escolha do local para sediar a colônia, feita pelo engenheiro Hermann Günther, contratado pela Sociedade Colonizadora Hamburgo para escolher o melhor local para firmar a sede da colônia.

O coronel dizia que o local era baixo e muito úmido, quando próximo dali havia uma região alta e seca. Para o coronel, a escolha se deu sem uma análise apurada e a despeito de seus conselhos. Alguns dias depois, Günther escreveu uma carta para o mesmo jornal afirmando que Leonce Aubé, representante do príncipe e responsável por repassar oficialmente as terras para a construção da colônia, estava presente e gostou da indicação. O argumento é que por ali havia a melhor água para se beber e a facilidade de comunicação com o porto de São Francisco do Sul pelo rio Cachoeira.

Essa é uma passagem sobre a qual cabe melhor avaliação sobre as versões, mas simboliza uma das primeiras discussões públicas da política local, em parte protagonizada nessa época por lusos-brasileiros e os imigrantes que chegaram na Colônia Dona Francisca em 1851.

Quando Joinville deixa ser uma freguesia e se torna vila

Antes de chegarem os imigrantes, Joinville não era Joinville ainda. As terras pertenciam a São Francisco do Sul e a região era considerada uma freguesia, uma espécie de distrito. Por aqui viviam lusos-brasileiros e pessoas escravizadas, morando em sesmarias, muitos deles fazendeiros que ocupavam grandes áreas. O próprio coronel Antônio João Vieira era, segundo a historiadora Raquel Santiago, proprietário de um sítio de lavoura entre o rio Bucarein e o rio Itaí Guaçu (hoje Itaum).

Com os imigrantes se estabelecendo, a então freguesia passa a ter, além do poder de São Francisco do Sul, uma segunda administração, que, segundo o historiador e coordenador do Arquivo Histórico, Dilney Cunha, era a da Colônia Dona Francisca, responsável pela recepção aos imigrantes, e criação da infraestrutura na colônia, como abertura de ruas, instalação de escolas, igrejas e hospitais.

Em resumo, essa administração era também responsável pelo assentamento e venda das terras aos colonos. E quem comandava a colônia era o diretor, nomeado pela Sociedade Colonizadora de Hamburgo. No entanto, segundo Santiago, internamente os imigrantes tinham seu próprio sistema administrativo, em virtude de conflitos entre colonos e a direção da colônia. O sistema foi denominado por eles a Vertrerterchaft (associação de moradores, que cobrava impostos) ou Coloniegemeinde, Comuna da Colônia.

Os colonos também tinham, de acordo com Dilney, em entrevista para a equipe de reportagem da Câmara de Vereadores, uma experiência legislativa. Em 1851, formaram um conselho comunal, com características semelhantes às de uma câmara municipal, mas voltada à colônia.

Esse conselho também chegou a criar um código de posturas, ainda que não oficial. Conforme Dilney, esse conselho comunal tinha raiz em experiências anteriores dos colonos na Alemanha, mas acabou se desmanchando ao longo do tempo por conta de intrigas e disputas internas.

Conflitos étnicos e culturais

Essa convivência teve momentos de conflitos étnicos e culturais. Segundo Dilney, havia aqui na colônia Dona Francisca uma certa elite germânica, que vinha geralmente de um meio urbano, com formação técnica ou acadêmica, de famílias mais abastadas, burguesas ou até nobres. Essas pessoas defendiam ideias do nacionalismo alemão e alguns até haviam participado de movimentos e lutado pela unificação da Alemanha, que ocorreu somente em 1871.

Após a unificação, esse conflito se intensificou. Isso porque o Império Alemão passou a estimular esse germanismo onde haviam súditos estabelecidos, por razões econômicas e culturais, para fortalecer o Império frente a outras potências da época como a Inglaterra, na corrida colonialista. “E é aquele grupo que vai defender aqui também esse ‘germanismo’ que incluía a preservação da identidade étnica, o fortalecimento dos laços com a ‘pátria de origem’ dos imigrantes e seus descendentes”, conta Dilney

Essa elite, segundo o historiador, procurou divulgar sua cultura pelas associações comunitárias (tiro, ginástica, canto, teatro), escola, Igreja, imprensa e, claro, pela política. E nesse discurso germanista (Deutschthum) todos os imigrantes eram incluídos, fossem suíços, pomeranos, saxões e escandinavos. A ideia aqui é que todos pertenciam a um mesmo povo, com uma origem étnica comum. “Aqui dá pra perceber que isso descambava pro racismo”, comenta Dilney.

Esse discurso acabou entrando em conflito com a cultura dos luso-brasileiros, que mantinham até mesmo escravos por essas terras.

A unificação da administração

Essa condição com dois modos administrativos na região durou até 1869. Era para ser 1866, mas não deu muito certo no começo. Uma lei provincial de 15 de março de 1866 elevou a Freguesia de São Francisco Xavier de Joinville à condição de Vila, o equivalente a cidade, que passaria a ser desmembrada de São Francisco do Sul. Segundo Santiago, essa medida, no entanto, aflorou ainda mais os conflitos da colônia que se desenvolvia com as instituições brasileiras.

A lei que criava o município de Joinville também exigia, pela legislação da época, que fosse construído um prédio onde deveria ser instalada a Câmara Municipal. Essa exigência, segundo a historiadora, iniciou um processo involuntário de integração da colônia ao sistema político e jurídico brasileiro.

Esse movimento gerou protestos da maioria dos associados da Vertreterchaft, que contestavam a exigência de pagamento de impostos sobre todas as propriedades urbanas do município para o governo provincial. Assim, a execução da lei não se efetivou no primeiro momento. Somente em março de 1868, após dois anos de negociações entre as autoridades coloniais e provinciais, concretizou-se a elevação de Joinville a município.

A Câmara passou a funcionar no trecho final da rua do Príncipe, onde hoje fica o palacete Schlemm. Na época funcionava a sede da Colônia Dona Francisca.


Foto: Rua do Príncipe vista do balcão da direção da Colônia Dona Francisca em 1866. Acervo Fundação da Biblioteca Nacional. Fotógrafo Louis Niemeyer,