A política em Joinville: Mente quem diz que lockdown não funciona

Por Felipe Silveira
Foto: Mauricio Vieira/Governo de SC

Quem diz que lockdown não funciona está mentindo. Alguns estão mentindo para o público e para si mesmos, por terem caído em fake news daqueles que não se importam com a vida, mas outros mentem porque não podem ou não querem assumir a bronca que a verdade traria. A segunda opção é o provável caso dos governantes.

O que aconteceria se o gestor público dissesse a verdade, que lockdown funciona, o não o decretasse? Estaria assumindo que vidas são perdidas porque a decisão política é difícil, e é difícil porque a perda econômica será imensa. Ninguém, com exceção de certo crápulas, quer conviver com essa responsabilidade.

Recentemente, dois políticos catarinenses disseram que lockdown não funciona. O secretário estadual de saúde, André Motta Ribeiro, que deixou a jornalista Julia Duailibi incrédula diante da declaração em rede nacional (G1), e o prefeito de Joinville, Adriano Silva, em coletiva de imprensa para anunciar que Joinville entrou na fase mais crítica (O Município).

Confrontado com os fatos apresentados pela jornalista, André Motta Ribeiro mudou o discurso e falou sobre as dificuldades de implantação da medida no Brasil. Ou seja, ele sabe que funciona, mas sabe que a implantação é muito difícil. Para o secretário, é mais fácil dizer à população que o lockdown não funciona e abrir leito, medida que não freia o avanço do vírus, mas tem efeito político. Aquela coisa do “estamos fazendo todos os esforços”.

Vamos falar sobre as dificuldades do lockdown à frente, mas antes precisamos dizer ao prefeito Adriano Silva que lockdown funciona. E funciona em todos os lugares em que foi adotado. China, Vietnã (Veja), Portugal (Folha), Finlândia, Nova Zelândia e por aí vai.

Há, sim, países que obtiveram sucesso no enfrentamento à pandemia sem lockdown, mas dizer que a medida mais drástica não funciona é mentira. E funciona muito bem para segurar o vírus, e não para exterminá-lo.

Algumas pessoas sugerem que o lockdown não funciona porque o vírus não sumiu e porque, em alguns lugares que adotaram o bloqueio, a situação voltou a ficar complicado. Mas o lockdown nunca serviu para sumir com o vírus, já que esta é a tarefa da vacinação em massa. O lockdown serve para freiar o avanço do vírus e impedir o colapso do sistema.

Cobrar de cima

Adriano Silva tem a caneta, mas além da vontade, também lhe falta poder político para decretar um lockdown de verdade. Caneta, vontade e poder político são três coisas totalmente diferentes, não custa lembrar.

Lockdown não é coisa simples, ao contrário do que alguns sugerem. Significa parar a roda da economia por um período, gerando prejuízos incalculáveis que atingiriam em cheio os pequenos e médios negócios. Os ricos, se bobear, dão um jeito de ganhar dinheiro, mas os pequenos e médios seriam muito prejudicados. Desemprego e falências fazem parte dessa conta.

O problema é que, em vez de falar a verdade às pessoas, eles querem dizer que lockdown não funciona, travando o necessário debate e pressão política em torno do tema. Se Adriano Silva diz que lockdown não funciona, por que André Motta Ribeiro vai fazer outra coisa que não seja abrir leito? Se os secretários e governadores dizem que não funciona, por que o governo federal vai fazer alguma coisa? Se o prefeito, o secretário e o governador dizem que não funciona, por que a população vai cobrar o presidente?

O sucesso do lockdown depende de auxílio financeiro para as pessoas e para os negócios. Depende também de muita organização para ter efeito. Por isso, quem faz é quem tem mais poder político, que são as administrações federais. É o governo federal que controla a moeda, que define as regras e tem a força para adotar medida de tamanho impacto. Mas o governo federal não vai fazer nada enquanto a população, o prefeito, o governador e outros poderes não cobrarem.

Enquanto isso, em Brasília, o pior dos seres humanos se deleita com as pilhas de mortos que vão se acumulando, com os doentes amarrados por falta de sedativo, com gente asfixiada sem oxigênio e sem vaga na UTI, com gente que vai perder o fígado por tomar remédio inadequado, com aqueles que perderam a vida para a depressão e com quem está passando fome porque está muito difícil comprar comida.

A economia com e sem lockdown

Quem leu o trecho acima pode pensar que o lockdown não é boa ideia diante da consequência econômica. Por isso é necessária uma ressalva. Sem lockdown, a economia também perece, mas à médio prazo, tanto que o PIB teve um queda de 4,1% em 2020 (G1). Com a doença irrefreável, é impossível que a economia seja retomada minimamente. Nesse contexto, o lockdown ajudaria a brecar a doença e a sair da crise mais rapidamente. Em vez de ficar um ano meio capenga, um, dois ou três lockdowns pontuais poderiam dar um pouco mais de segurança à economia, permitindo mais atividade econômica em alguns momentos e restringindo fortemente em outros.

O problema são os outros

Tanto o secretário de saúde quanto o prefeito insistem na tese de que as pessoas precisam colaborar. Eu concordo. Estamos há um ano chocados com o comportamento irresponsável de tantas pessoas. Festinha, churrasco, shopping, bar, restaurante, futebol clandestino, academia, máscara no queixo, beijo, abraço, suruba, campanha política… São inúmeros exemplos do que fizemos de errado, alguns mais e outros menos.

É por isso que o lockdown se faz ainda mais necessário. As pessoas estão furando a quarentena, de maneira irresponsável, porque não há uma coordenação social sobre o que fazer, de modo que cada um faz o que dá na telha. O lockdown é um acordo entre a sociedade. Por duas ou três semanas não faremos nada para que possamos fazer lá na frente. Sem esse acordo, não tem restrição de pessoa em mercado e em ônibus que dê jeito.

Podemos fazer mais

Esta coluna tem insistido — com as pessoas e com o poder público — na redução de danos. Neste momento, só o lockdown pode frear os números alarmantes do coronavírus em Joinville (quadruplicou o número de novos casos em duas semanas), mas independente disso há outras coisas a serem feitas.

Em primeiro lugar, as pessoas precisam colaborar. Ficar em casa o máximo possível é fundamental. Se precisar sair, usar boas e bem ajustadas máscaras, já que a transmissão ocorre principalmente pelo ar. E, acima de tudo, evitar ao máximo os locais fechados. São neles que o bicho pega. Quem pode explicar em detalhes, com clareza, é o cientista Vitor Mori nesta entrevista que deu ao podcast O Assunto.

Agora, quem pode fazer mais mesmo é a Prefeitura de Joinville. A começar por uma campanha efetiva sobre prevenção, explicando sobre transmissão pelo ar, o perigo dos locais fechados, a necessidade de boas máscaras e a gravidade da situação em Joinville. Até agora, nada disso foi explicitado nas campanhas do município. O joinvilense, de depender da comunicação do prefeito Adriano Silva, pensa que está na Noruega.

E se pode fazer muito mais com a comunicação, pode fazer muito mais com ações. Garantir mais ônibus, incentivar o transporte de bicicletas com intervenções no trânsito, incentivar o home office e suspender as aulas presenciais (muitos professores já estão contaminados), salvando muitas vidas, só dependem da vontade do prefeito.


A política em Joinville é uma coluna de opinativa e informativa sobre o cenário político da cidade. Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha de financiamento coletivo. Quanto mais gente apoiar, melhor o jornalismo vai ficar.