A política em Joinville: Necropolítica da indiferença

Por Felipe Silveira
Foto: Prefeitura de Paris

Cunhado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe para tratar de temas relacionados à violência e ao racismo estatal, o termo “necropolítica” tem se popularizado no Brasil de Jair Bolsonaro, especialmente durante a pandemia de coronavírus, mas não somente. A constante facilitação do acesso a armas tem sido um exemplo, assim como jogar a favor do vírus (contra vacinas, contra máscaras, contra protocolos sanitários) durante a pandemia.

Mas, apesar de estarmos em um país liderado por um sujeito cujo governo e carreira são centrados na morte, este texto não é sobre o presidente. Somos um jornal local e vamos falar de um tema local. E foi pensando sobre o tema que decidi tomar emprestado o conceito do intelectual camaronês, esticando um pouco seu significado.

Dias atrás, em Joinville, um jovem ciclista de 16 anos morreu na violência do trânsito. Não sei qual era a situação do motorista (geralmente o culpado) que o atropelou, mas o fato é que mais um jovem saiu pedalando de casa e não voltou — e este é um problema nosso. Na última década, 13.718 ciclistas morreram no trânsito brasileiro, segundo levantamento da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet).

Estamos falando apenas das mortes, sem contar as sequelas, que podem ser leves ou muito pesadas. Segundo o mesmo estudo, de 2010 a 2020 foram registradas quase 13 mil internações hospitalares causadas por atropelamento de ciclistas. Foram gastos, todos os anos, a média de R$ 15 milhões para tratar ciclistas traumatizados em colisões com motocicletas, automóveis, ônibus, caminhões e outros veículos de transporte.

Quando penso nos números e nas histórias, como a da cicloativista Marina Harkot, não consigo deixar de pensar na necropolítica do nosso cotidiano que as causam. Mas, diferente de Achille Mbembe, que trata de estruturas organizadas para causar a morte de alguns grupos, quero falar de uma necropolítica baseada em indiferença.

Reclamar de radares, de quebra-molas (lombadas) e de ciclovias; acelerar além do limite determinado; dirigir olhando o celular ou bêbado. Tudo isso é necropolítica da indiferença. Quando governos são omissos na oferta de infra-estrutura cicloviária (e para pedestres), baseando as obras naquilo que dá mais voto, que é agradar motoristas, também estão fazendo necropolítica. Quando fazem as ciclofaixas mais vagabundas apenas para cumprir metas, também.

Lembremos da campanha à Prefeitura de Joinville e o debate sobre mobilidade. Se existiu, foi mixuruca, e centrado na questão dos carros. O transporte coletivo, que por lógica deveria ser o tema prioritário do debate público municipal, sumiu das discussões em 2020. Ciclistas e pedestres ficaram com vagas e pouco profundas promessas. E no governo eleito, tudo igual à campanha. Ciclomobilidade está nos planos, mas praticamente escondida sob uma imensidão de projetos para carros.

Coronapistas

Quando o tema é coronavírus, atividades ao ar livre são muito menos perigosas do que qualquer uma em local fechado. Pedalar, portanto, é muito melhor do que ficar dentro de um ônibus ou até mesmo de um uber. Além disso, a bicicleta é um meio de transporte rápido, agradável e barato. Talvez não seja o adequado para algumas situações (chuva forte, longas distâncias), mas se parte das pessoas adotarem a “zica”, poderia ajudar a desafogar o transporte público. Mas quem fará isso diante do cenário apresentado acima?

Talvez pessoas incentivadas pelo governo, que por sua vez pode se inspirar nas medidas tomadas pela prefeitura de Paris, capital da França. No país europeu que há anos investe em ciclomobilidade, mais de 500 quilômetros de pistas para carros foram transformados em “coronapistas”. As vias foram separas por blocos de concreto (em alguns trechos), garantindo mais segurança para quem opte por pedalar.

A inclusão de mais pistas são apenas um exemplo, mas muita coisa pode ser feita. Incentivo por meio de campanhas, criação de um sistema de aluguel de bicicletas, incentivos fiscais e financeiros para compra e manutenção de bicicletas, instalação de bicicletários (de verdade, seguros, e não um ferro colado ao chão em uma praça meio abandonada) e campanhas por segurança no trânsito poderiam ser outras ações. Independentemente da pandemia, seriam medidas para melhorar o trânsito de modo geral.

Disposição

Não adianta ter ideias ótimas para a mobilidade sem disposição para brigar por elas. Um monte de gente não quer ciclovia na frente de casa ou do comércio, não quer dividir pista com ciclista, detesta andar devagar, passar em quebra-mola e esperar o pedestre atravessar a rua na faixa. Essa gente faz necropolítica, às vezes sem saber. Quando morre alguém, se sensibilizam, mas nem se tocam que são, em alguma medida, responsáveis.

Ao governante cabe comprar a briga. Não adianta achar bonito em Copenhague ou Paris, colocar no plano e não colocar em prática. É comprar a briga ou continuar indiferente ao luto das famílias que perdem os seus para a violência no trânsito, fazendo, assim, necropolítica.

Nas ruas de Paris, algumas pistas para carros foram transformadas em pistas para ciclistas e separadas por blocos de concreto – Foto: Prefeitura de Paris

Insuficiente

A pandemia de coronavírus avança de maneira assustadora, embora previsível. A necropolítica domina de cima a baixo, liderada por Jair Bolsonaro, mas impregnada em administrações estaduais e municipais. O prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, chegou a dizer a seguinte frase em uma live: “Contribua com a sua vida para que a gente salve a economia”. O comportamento de boa parte da população também é baseado na indiferença que mata.

Enfrentando imensas filas nos terminais para poder trabalhar, população ainda ouve que é a culpada – Foto: Jéssica Horr

Adriano Silva, em reunião na Acij na segunda-feira (1), disse que a prefeitura fez a sua parte, mas criticou a população que não colabora. “Festinha clandestina não dá”, disse o prefeito.

Mas a Prefeitura de Joinville está longe de fazer a sua parte. Em termos de conscientização, está muito aquém. Falas como a do prefeito me fazem ter dúvida se ele mesmo entende a dinâmica de transmissão do vírus. Não parece que a prefeitura faça algum esforço para que as pessoas fiquem em casa. Não tem uma propaganda na TV sobre isso. Não tem nada sobre o drama dos profissionais de saúde e sobre a gravidade da doença.

E se não faz nada em termos de conscientização, muito menos faz em termos de ação. Até semana passada, os bares e ônibus estavam cheios. Os locais de trabalho, muitos com possibilidade de home office ou pelo menos um sistema de revezamento, igualmente cheios. A transmissão não ocorre somente na festinha clandestina. O ônibus, o bar, a academia, a igreja e o escritório também são vetores muito potentes de transmissão.

Agora, que a situação saiu de controle, a cidade precisa parar. O estado e o país também. A tragédia econômica é terrível, mas tende a se tornar cada vez pior com uma pandemia irrefreável. É preciso contê-la agora.

Subsídio

A Prefeitura de Joinville foi obrigada pela Justiça a pagar uma espécie de indenização milionária às empresas que operam o sistema de transporte público (sem licitação, é sempre bom lembrar), impedidas de operar por causa de decretos acerca do coronavírus. Curiosamente, o subsídio ao transporte público, que poderia fazer muito mais gente usar o ônibus no dia a dia, nunca foi pago. Para o ônibus vazio, dinheiro. Para o ônibus cheio, nada.

Amigos do esculacho

Estamos preparando uma reportagem sobre o tema, mas em uma coluna sobre necropolítica não poderia deixar de mencionar a recém-criada Associação dos Amigos da Segurança Pública de Joinville. Articulada por entidades empresariais, cujos representantes assumiram funções na diretoria, a associação tem o objetivo de dar assistência às forças de segurança atuantes na cidade.

“O objetivo é buscar recursos para ações pontuais, como compra de equipamentos para execução dos serviços públicos de segurança que visem à prevenção e ao combate à criminalidade no município”, diz trecho do texto de divulgação. Ou seja, agora temos empresários dispostos a comprar arma para a polícia, é mole?

Em um país que o Estado policialesco avança a passos largos, a novidade joinvilense é um tiro no [nosso] pé.

Guerra às drogas

Por mais um ano, as drogas venceram a guerra às drogas. Em reunião na Câmara de Vereadores, o tenente-coronel Celso Mianarczyki Júnior, do 8º Batalhão da Polícia Militar de Santa Catarina, apresentou dados da segurança pública em 2020. Segundo o oficial, 500 pontos de drogas foram desarticulados na região. Será que alguém deixou de usar drogas por causa disso?

Representante da PM na região, Celso Mianarczyki Júnior apresentou dados de 2020 – Foto: Mauro Artur Schlieck/CVJ

O representante da PM também contou que 88 armas foram apreendidas, 3.200 pessoas foram conduzidas às delegacias, 210 mandados de prisões foram cumpridos e 701 averiguações de violência doméstica foram realizadas. Segundo ele, a perturbação do sossego é a campeã de chamadas no 190 aos finais de semana.

Protocolo mequetrefe

Com 30 pessoas contaminadas pelo coronavírus, sendo 22 jogadores, o Joinville teve um jogo adiado do Campeonato Catarinense e tenta fazer o mesmo com outros. Conversando sobre o tema, descobri algo que me deixou estarrecido. Tanto a CBF quanto a FCF cobram apenas os testes em jogadores e técnicos, ignorando que delegações contam com diversos profissionais (roupeiro, massagista, assessor de imprensa, diretores) que podem contaminar ou serem contaminados pelo grupo.

Previdência na CVJ

A proposta de reforma da previdência para os servidores de Joinville já tramita na câmara, sob protestos dos trabalhadores do setor. A reforma estipula requisitos mais rígidos para aposentadoria e quatro possibilidades de aposentadoria voluntária que foram detalhadas pela divisão de jornalismo da CVJ. Vale conferir.

Servidoras protestam contra projeto de Adriano Silva – Foto: Mauro Artur Schlieck/CVJ

A política em Joinville é uma coluna de opinativa e informativa sobre o cenário político da cidade. Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha de financiamento coletivo. Quanto mais gente apoiar, melhor o jornalismo vai ficar.