A política em Joinville: Número de leitos não deve determinar medidas contra covid-19

Por Felipe Silveira
Foto: Prefeitura

No dia 14 de janeiro, a Prefeitura de Joinville realizou uma coletiva de imprensa para tratar de dois assuntos importantes. A volta às aulas na rede municipal, com sistema misto de aulas presenciais e pela internet, e a situação da campanha de vacinação na cidade, que naquele momento ainda não contava com as doses da vacina. Naquele dia, fiz uma pergunta ao prefeito Adriano Silva cuja resposta me incomodou.

Primeiro, expliquei ao prefeito que a insistência da Unicef pela volta às aulas presenciais me fez ser favorável à medida, mas lembrei que o organismo internacional pela infância insiste que a volta às aulas segura deve ser uma prioridade, o que exige sacrifícios de outros setores da sociedade para dar condições de segurança às crianças e adolescentes. Perguntei, então, quais medidas estavam sendo tomadas nesse sentido. Salvo engano, sugeri mais restrições em outros setores, como bares.

Adriano respondeu que nenhuma medida seria tomada pelo fechamento e que as restrições estariam condicionadas ao número de vagas em leitos para o atendimento de pacientes com a doença, especialmente leitos de UTI. Para mim, a lógica dessa resposta é a mais preocupante.

A preocupação com o número de leitos é importante. Alguém morrer por falta de atendimento, em um país com tantas riquezas, é uma tragédia inominável. Mas não pode ser o critério determinante das medidas. Não pegue a doença — essa deveria a palavra de ordem. E os governos podem fazer muito mais para levar essa ideia adiante.

Quase nada se sabe sobre os efeitos da covid-19. Algumas pessoas mal sentem sintomas da doença. Outros passam muito mal e se recuperam sem sequelas. Mas também tem aqueles que adquirem sequelas graves. A morte é uma incógnita, que acontece com mais frequência em grupos com comorbidades, especialmente idosos, mas também pode acontecer com pessoas jovens e saudáveis.

Pesquisa recente de um grupo de oito hospitais, divulgada recentemente pelo jornal Folha de S. Paulo, mostra que 25% das pessoas intubadas morrem em seis meses após a alta hospitalar. Uma tragédia inominável.

Sem contar as graves sequelas como falta de ar, dor no corpo, problemas cardíacos e sequelas psicológicas. Ansiedade, depressão e estresse pós-traumático foram bastante presentes nos relatos.

Não pegue a doença. Fuja da doença como o diabo foge da cruz e como Flávio Bolsonaro corre de seus problemas com a Justiça. Não permita que os seus peguem a doença. Evite que os cidadãos da sua cidade sejam vítimas de algo tão ruim, tão grave, tão trágico. Essa é a tarefa do prefeito e de outras pessoas com poder de influência em Joinville. E dá para fazer mais. Muito mais.

Na tarde desta terça-feira (23), a Prefeitura de Joinville realiza nova coletiva para anunciar medidas de enfrentamento ao coronavírus. Mais restrições devem ser anunciadas diante de um cenário muito grave e preocupante, no meio de uma tragédia que tende a aumentar muito mais. As novas restrições, se vierem, serão bem-vindas, mas não podemos nos limitar a elas.

O que mais dá para fazer?

Vitor Mori, o pesquisador que mais me influenciou durante a pandemia, tem insistido em alguns pontos para frear o vírus. Trago alguns para a coluna e indico a leitura de outros, ressaltando que as ideias apresentadas pelo cientista são baseadas nos principais estudos sobre o tema e consenso entre pesquisadores sérios (que não recomendam cloroquina e ivermectina para tratar covid-19, já que isso é charlatanismo).

Vitor Mori é cientista e tem feito um trabalho de divulgação das melhores práticas para evitar a doença – Foto: Universidade de Vermont (EUA)

A tese central é simples: a transmissão ocorre, principalmente (mas não somente), pelo ar. A partir daí você pode tomar uma série de decisões para focar naquilo que verdadeiramente interessa. Vamos a um exemplo. Se a transmissão ocorre principalmente pelo ar, o local mais perigoso para a contaminação são os ambientes fechados e com muita gente, onde todos estão respirando o mesmo ar.

Posso, diante deste cenário, pensar em alguns vetores: salas de aula, escritórios, bares, restaurantes, casas de lazer, supermercados, padarias, lojas e transporte público. E, por que não, a casa de cada um de nós que têm recebido muitas e numerosas visitas. Todos lugares fechados, pouco ventilados, com muita gente respirando o mesmo ar. Assim o coronavírus faz a festa.

A partir do entendimento que a transmissão principal ocorre pelo ar, também podemos pensar também no quanto priorizamos o álcool em gel e a medição de temperatura. É claro que são importantes, mas os protocolos, que não são cumpridos em lugar algum da maneira correta, não podem se resumir a eles. O foco é evitar a transmissão pelo ar.

Vitor Mori, que me inspira a escrever este texto, tem defendido as seguintes medidas: distanciamento social, prioridade para espaços abertos em qualquer atividade e uso de boas máscaras bem ajustadas. O cientista, assim como eu, é um adepto da redução de danos. Ou seja, se não dá para fazer de um jeito, façamos do jeito menos pior. Vou dar alguns exemplos:

Se você vai receber pessoas em casa, evite convidar muita gente e opte pelo espaço mais aberto possível. Mantenha uma boa distância entre vocês. Se não tem lugar aberto, busque o lugar mais ventilado. Se você vai em um bar, opte por uma mesa do lado de fora e não entre. Lá dentro é muito mais perigoso. Não é para receber gente e não é para ir no bar, que são duas situações de risco, mas como as pessoas estão fazendo, que façam do jeito que reduz a contaminação.

Outro exemplo é o ônibus. Se você é obrigado a andar de ônibus (em casos que não dá para ir de bicicleta ou a pé e nem fazer home office), use a melhor máscara possível e da maneira mais ajustada. Máscaras de pano ajudam, mas não são seguras, ainda mais com todo mundo usando com o nariz e a boca de fora. O ideal é o modelo N95/PFF2. Recomendo a leitura deste texto do Observatório COVID-19 BR para entender mais detalhes. Para quem prefere vídeo, aqui está.

A Prefeitura poderia fazer muito mais para implementar medidas que reduzem a contaminação pelo coronavírus. Poderia fazer campanhas de conscientização para que a população e gestores de empresas promovam medidas mais efetivas.

Tem pressão para abrir os bares? Tudo bem, mas que tal realizar o atendimento apenas do lado de fora, com mesas e cadeiras nas calçadas e até em parte das ruas, fechadas para a atividade?

Jair Bolsonaro, presidente da República e “roteador de covid-19”, que sempre dá péssimo exemplo por onde passa – Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Tem pressão por aulas presenciais? Tudo bem, mas que tal medir o CO2 nas salas de aula e promover algumas aulas em espaços abertos da escola?

Tem que ter transporte e comércio aberto? Tudo bem, mas que tal ampliar o número de linhas do transporte público e incentivar o comércio a ampliar o horário de atendimento, visando ter menos gente em cada horário? Que tal insistir que empresas adotem o home office?

Que tal fazer campanha pelo uso de máscaras adequadas, bem ajustadas, frisando que a transmissão ocorre pelo ar? Você já viu algo parecido? Eu não.

Que tal um “lockdownzinho” pontual, bem organizado, visando segurar o avanço da doença? É difícil, mas não é impossível.

Que tal cobrar de verdade o governo federal pela compra e distribuição das vacinas? Quando o presidente vem para o norte de SC não faltam puxa-sacos para bajular, mas para cobrar a distribuição de vacinas — a única maneira de acabar com a pandemia — não tem um.

Não se esqueça: fuja da doença! Caso pegue, você pode dar sorte e passar ileso, mas o contrário também pode acontecer. Fuja do vírus!


Por hoje é isso, pessoal. Ainda tinha muito assunto para tratar na coluna, mas o texto principal ficou longo demais e acho importante que vá logo ao ar. Se você gostou, se descobriu alguma informação nova, entre em contato comigo pelo Twitter e conte com o que achou. Se não gostou, também. Este texto, aliás, foi feito com contribuições de algumas pessoas pela rede social do passarinho azul, às quais agradeço. Sexta-feira tem mais uma edição.


A política em Joinville é uma coluna de opinativa e informativa sobre o cenário político da cidade. Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha de financiamento coletivo. Quanto mais gente apoiar, melhor o jornalismo vai ficar.