A política em Joinville: A cidade e o impeachment

Por Felipe Silveira
Foto: Ivan Storti/Santos FC

Sou um usuário ativo da rede social Twitter e por lá, até duas semanas atrás, passava meus dias focado em defender Rodrigo Maia (DEM) das cobranças pela abertura do processo de impeachment de Jair Bolsonaro. Não tenho nenhum compromisso com o presidente da Câmara dos Deputados, a única pessoa que pode aceitar um dos 61 pedidos de impeachment do presidente da república, mas dividia com ele, provavelmente, o mesmo entendimento sobre o tema: aceitar o pedido resultaria em uma derrota acachapante para o campo progressista/antifascista e imenso prejuízo político em um futuro próximo (2022).

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Rodrigo Maia, mais do que ninguém no momento, sabe contar os votos do Congresso Nacional. Por mais motivos que existam para o impedimento de Jair Bolsonaro, seria muito fácil para ele conseguir os 171 votos necessários para se safar. A lei determina que são necessários 2/3 dos votos para abrir o processo, sendo necessários 342 votos dos 513 totais. Ou seja, com 171, Bolsonaro se livra facilmente do processo.

Por mais que você deteste o presidente (com razão) e ache absurdo tudo que ele faz (porque é), sua indignação não é suficiente para somar votos na câmara federal. A não ser que sua indignação, somada a milhares de outras, seja percebida e assimilada pelos parlamentares que vão votar contra ou a favor da abertura do pedido de impeachment. E você já deve ter entendido onde quero chegar.

Os deputados federais são eleitos pela população dos estados, de modo que todos os 16 parlamentares catarinenses são nossos representantes. Hoje, provavelmente, 15 votariam (a exceção é Pedro Uczai, do PT) para salvar a pele de Bolsonaro, inclusive os três com base eleitoral em Joinville: Rodrigo Coelho (PSB, por enquanto), Darci de Matos (PSD) e Coronel Armando (PSL, por enquanto).

Não são, necessariamente, 15 bolsonaristas. A tradição política mais forte em Santa Catarina é a centro-direita e esses parlamentares, oportunamente, podem ter pendido mais à direita para se eleger em 2018, mas é um erro deixar todos nesse campo ideológico. A questão é que políticos costumam medir a temperatura de onde estão e o clima ainda não é de impeachment. Ou ainda não era.

De uns dias para cá, o clima mudou e o caldeirão do impeachment começou a esquentar. Ainda está longe de ferver, mas o fogo está aumentando. A crise humanitária em Manaus (uma tragédia que demonstra a todos o perigo que corremos sob este governo de negação) e a derrota na “batalha da vacina” marcaram um ponto de virada. O pedido de impeachment, uma insistência da esquerda, começou a tomar conta do centro e aparecer em setores da direita.

Vira voto

Até o momento, 111 deputados se declararam favoráveis ao impeachment (à abertura do processo, no caso) e 55 anunciaram que são contra, segundo um perfil no Twitter que faz a contagem das declarações. Os outros, você já deve imaginar, estão indecisos, medindo a temperatura. Mas, apesar das declarações, temos que entender que os votos podem mudar. Tudo depende da direção para qual o vento sopra. Vamos analisar o caso dos três parlamentares com base em Joinville.

Darci de Matos (PSD) sempre foi a favor de Bolsonaro, tanto que começou a campanha à prefeitura evidenciando a relação. Mas, como viu que não estava surtindo efeito, logo abandonou a estratégia. Quase sempre de situação, Darci gosta de estar bem com todo mundo, mas nem sempre é possível. Em 2019, espalhou um outdoor em que aparecia entre Bolsonaro e Sérgio Moro, então ministro da Justiça. Hoje os dois estão políticos estão brigados e de olho no Planalto em 2022. De qual lado Darci de Matos ficará?

O partido de Darci tambem é flutuante. Compôs o governo Dilma, votou pelo impeachment da petista, compôs o governo Temer e agora compõe o governo Bolsonaro. Se Gilberto Kassab notar que o presidente está naufragando e ver uma possibilidade melhor à frente, as coisas podem mudar.

Outro joinvilense com direito a voto é Rodrigo Coelho (PSB), um dos poucos que já se declarou contra o impeachment. Acredito que é um voto que pode mudar se o clima mudar. Para o meio bolsonarista Coelho, o governo é bom e a sociedade o aprova. Mas acredito que seja mais suscetível à opinião dos seus eleitores e disposto a novas avaliações. No início das discussões da reforma da previdência, em 2019, Rodrigo Coelho apresentou objeções à proposta do governo, o que demonstra que não tem um compromisso cego com Bolsonaro.

O voto de Coronel Armando (PSL, por enquanto) parece impossível de virar, certo? Mas há uma possibilidade. Mais do que bolsonarista, Armando é militar. Se o Exército Brasileiro, que está passando vergonha abraçado com o presidente, abandonar o capitão, o coronel muda o voto. Isso depende menos da pressão popular local, mas ela ajuda.

Darci de Matos (PSD), Rodrigo Coelho (PSB) e Coronel Armando são os três deputados federais com base eleitoral em Joinville

Cidade bolsonarista. Será?

Joinville deu 83,18% dos votos para Bolsonaro no segundo turno de 2018. O expressivo número — 262.556 votos — indica uma orientação política à direita, que a cidade reacionária, conservadora, com muito machismo, racismo, xenofobia e lgbtfobia. É verdade, mas tudo tem um limite, e talvez o bolsonarismo ultrapasse alguns.

Uma parte da cidade, assim como uma parte do Brasil, seguirá bolsonarista. É gente que adotou uma religião. Mas esse não é o sentimento da cidade. Vejamos algumas evidências. Joinville sempre foi muito lavajatista e, quando o lavajatismo casou-se com Bolsonaro, a cidade também o abraçou. Mas agora, com o divórcio entre Moro e Bolsonaro, quem fica com mais joinvilenses? Moro certamente leva um quinhão.

A eleição à prefeitura em 2020 também foi um sinal. A cidade votou na direita, mas o Novo tem suas diferenças com Bolsonaro. Tanto que João Amoêdo, candidato à presidência pelo partido laranja em 2018, tem pedido o impeachment do presidente com veemência nas redes sociais. Por outro lado, os candidatos mais bolsonaristas da disputa não decolaram.

Não parece, mas Joinville tem sua pluralidade. Deu 57% dos votos a Lula em 2002, elegeu Carlito Merss em 2008. Tem o emedebista Luiz Henrique da Silveira entre seus maiores políticos. Um homem de centro-direita que certamente passaria longe do bolsonarismo. A cidade votou massivamente em Bolsonaro, mas não tem compromisso com o erro.

Motivos não faltam

Presidentes caem por causa da situação política, mas são julgados oficialmente por crimes de responsabilidade. No caso de Bolsonaro, não faltam motivos de qualquer tipo (veja matéria na Folha com 23 deles). O Brasil tem mais de 210 mil mortes por covid-19 e um presidente que trabalha dia e noite contra a vacina e desinformando a população acerca dos cuidados necessário para combater o vírus. Defendeu o golpe de 64, ameaçou e ensaiou golpe, hostilizou nação estrangeira, estimulou motim da PM, interferiu na PF, ameaçou procuradores, quebrou decoro, discriminou órgãos de imprensa, atacou jornalistas, promoveu aglomerações, foi omisso em Manaus e muito mais. Precisamos lembrar de Fabrício Queiroz, rachadinhas (um nome leve para corrupção) e milícia?

Todo mundo sabe quais são os crimes, todo mundo sabe que é absurdo, todo mundo sabe que sobram motivos. Você sabe, eu sei, os deputados joinvilenses sabem e Rodrigo Maia também. A questão é que o clima político precisa mudar para o impeachment avançar, como já está mudando. Mas os parlamentares precisam ser avisados pelos eleitores e eleitoras que com Bolsonaro não dá mais.


A política em Joinville é uma coluna de opinativa e informativa sobre o cenário político da cidade. Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha de financiamento coletivo. Quanto mais gente apoiar, melhor o jornalismo vai ficar.