A política em Joinville: Os branquelos

Por Felipe Silveira
Foto: Página de Adriano Silva

Um dos filmes favoritos do prefeito eleito Adriano Silva, conforme ele mesmo disse à imprensa durante a campanha, é “Jamaica abaixo de zero”. Obra-prima de Sessão da Tarde, o filme conta a história de uma equipe de bobsled jamaicana na disputa de jogos olímpicos de inverno — dos treinos no escaldante país caribenho à conclusão da prova olímpica na geladíssima Calgary, no Canadá. Baseado em uma história real, o filme é bastante romanceado.

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Não vou politizar muito um filme de Sessão da Tarde, feito para divertir, mas não posso deixar de lembrar que é um filme sobre racismo e xenofobia. Em jogos dominados pelos países do norte do Hemisfério Norte, em esportes ultra-elitizados, a história dos caribenhos foi um prato cheio para debater o tema tão estruturante da nossa sociedade.

Outra oportunidade para debater o tema é a formação do secretariado de Adriano Silva, finalizado na semana passada. São 16 pessoas brancas. Algo de errado não está certo.

É prerrogativa do prefeito escolher seu secretariado, pelo critério que der na telha. Pode ser processo seletivo, podem ser vozes da cabeça, pode ser ligação partidária e até mesmo a boa e velha confiança. Mas, independente de qualquer critério, trata-se de uma escolha política.

Quando o partido e Adriano organizam um processo seletivo, esse processo tem carga política, tem a definição de quem se quer que chegue ao final, tem entrevistas, e entrevistas têm critérios subjetivos. Sendo assim, não importa o processo, mas o resultado. E o resultado é que nenhuma pessoa negra foi indicada ao secretariado. É aceitável? No Brasil?

Não acho que a questão racial é um problema específico de Adriano Silva. Mas certamente é um problema do partido Novo. Há duas semanas, o partido indicou voto contrário à adesão do Brasil à Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância. Entre vários argumentos frágeis, destacou-se o principal: a adesão poderia resultar no estabelecimento de mais cotas raciais no parlamento. O que o Novo teme?

No domingo (20), o jogador Gerson, do Flamengo, alegou ter sofrido injúria racial durante o jogo contra o Bahia. Segundo ele, o jogador meio-campista Ramírez lhe disse “cala a boca, negro” durante a partida, o que gerou grande indignação. Pelo Twitter, o deputado estadual fluminense Alexandre Freitas, do Novo, classificou o caso como “vitimismo”. Depois de muitas críticas, mudou a versão: “Não foi o que eu quis dizer”.

O Novo pode fazer política como bem entender, mas Adriano Silva vai gerir Joinville e terá que lidar com problemas bem reais da cidade. Um deles é o racismo, uma força-motriz estruturante das nossas desigualdades. Adriano Silva será cobrado por isso, a começar pelo secretariado. Por que não há negros e negras entre seus escolhidos? E o que vai fazer para enfrentar o racismo em Joinville?

Adriano Silva não é mais o candidato do Novo, mas é o prefeito eleito de Joinville. E pelo menos parte de nós quer saber como o escolhido para gerir a cidade vai enfrentar um problema que o mundo não vai mais deixar escondido debaixo do tapete. Começa mal quando escolhe um secretariado totalmente branco.

Diversidade importa

Quando chegou ao poder canadense em 2015, o liberal Justin Trudeau cumpriu uma promessa de campanha: atenção à diversidade. Dos 30 ministérios, 15 foram assumidos por homens e 15 por mulheres. Além disso havia ministros de diferentes religiões (incluindo muçulmanos), ateus, ministros de origem indígena, um ex-veterano de guerra tetraplégico, ministros nascidos fora do Canadá (como um afegão e um indiano), uma ministra deficiente visual, um refugiado, uma cientista e um astronauta.

Ministério canadense nomeado em 2015

Tenho certeza que Adriano Silva quer ser um político mais parecido com Justin Trudeau do que com Jair Bolsonaro. O brasileiro ainda pode se orgulhar de ter um astronauta no ministério, mas é muito pouco preocupado com a diversidade.

Lei

Adriano Silva ainda não infringiu a Lei Municipal 5496, sancionada em 2006 pelo prefeito Marco Tebaldi. “É obrigatória a escolha de pelo menos uma (1) pessoa da raça negra para ocupar cargo de primeiro escalão na administração pública municipal direta ou indireta”, registra o texto. Carlito Merss (PT) e Udo Döhler (MDB) não infringiram. O governo começa no dia 1º de janeiro de 2021 e a partir de então Adriano deve ficar atento à legislação municipal.

Sugestão de leitura

Na Folha, Celso Rocha de Barros falou sobre a escolha que o Novo tem a fazer: ser um partido liberal ou um partido de ricos? O colunista explica que o liberalismo “deveria ser uma defesa da liberdade das minorias contra as maiorias, de um país em que o mais humilde brasileiro não precise temer abusos da polícia, da etnia dominante ou de pessoas com crenças religiosas diferentes”. E mostra que não é o que o Novo tem defendido. Vale muito a leitura.

Desagradou

Curiosamente, as escolhas de Adriano não tem agradado parte do partido e pessoas que participaram da campanha, incomodadas com os progressistas que compõem o secretariado. De fato, é o retrato de Adriano, um sujeito que se entende em parte conservador e em parte progressista, essa última parte ainda muito tímida.

Com isso, aproveito para dizer que Adriano certamente não planejou um secretariado branco. Mas é fato que ele não se preocupou com a diversidade e o que o secretariado representa dentro desse contexto. Precisa começar a se preocupar.

As branquelas

O título do texto alude ao filme “As branquelas”, de 2004. Trata-se de mais uma comédia do cinema negro americano que tira sarro do cinema branco hollywoodiano. Ainda mais popular na Sessão da Tarde do que “Jamaica abaixo de zero”, é outra forma de questionar o racismo no nosso cotidiano. Aquele racismo que mal percebemos nas escolhas cotidianas.


A política em Joinville é uma coluna de opinativa e informativa sobre o cenário político da cidade. Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha de financiamento coletivo. Quanto mais gente apoiar, melhor o jornalismo vai ficar.