A política em Joinville: O novo Moisés pode ser uma lição para Adriano Silva

Por Felipe Silveira
Fotos de Moisés: Julio Cavalheiro/Governo de SC
Foto de Udo: Jaksson Zanco/Prefeitura

Barba na régua…
Caneta carregada…
Articulação política bombando…

Carlos Moisés está de volta ao governo e desta vez, aparentemente, para fazer diferente. Se na primeira fase, antes do afastamento pelo processo de impeachment no qual foi absolvido, faltou humildade ao governador eleito na onda 17, a palavra de ordem atual é o diálogo. Em praticamente todos os registros públicos há menção aos acordos com prefeitos, deputados, poderes e por aí vai.

Nada poderia representar melhor a nova fase do que o nome escolhido para a articulação política do “novo” governo. Logo na primeira coletiva à imprensa, horas depois de ser absolvido no processo que poderia levar ao impeachment, Moisés anunciou Eron Giordani para a Casa Civil. Nos últimos dois anos, atuou na chefia do gabinete do presidente da Alesc, Júlio Garcia. Assim, o conflito entre os dois poderes nos primeiros anos do governo virou namoro. Eron é a aliança.

A nomeação de Eron Giordani é o maior gesto da nova fase, mas está muito longe de ser o único. Na comunicação, assumiu Jefferson Douglas, um jornalista que atuou como diretor em diferentes veículos do estado. O agora humilde governador também visitou a procuradoria-geral e o TCE. E, se havia críticas à baixa quilometragem do chefe do Executivo pelo estado, na primeira semana ele já tratou de rodar, viajando ao oeste, onde passou dois dias, e ao sul, especificamente em Criciúma, que passou por uma noite de terror. Moisés sacou a caneta para anunciar verbas em três áreas: infraestrutura, economia e crise hídrica.

Liderança exemplar no início da pandemia, mas que sucumbiu às pressões no decorrer do processo, Moisés pegou um estado deixado em frangalhos por Daniela Reinerh, uma governadora bolsonarista e por isso negacionista. Quando ela assumiu o cargo, a situação não estava boa, por responsabilidade de Moisés, mas ela conseguiu piorar, deixando quase todas as regiões em estado gravíssimo.

Na nova fase, Moisés tratou de ajeitar o relacionamento com todo mundo. Descobriu, enfim, o jeito catarinense de fazer política. Primeiro, na conversa com os caciques, onde tudo sempre se resolveu. Depois, no melhor estilo dos pinguins de Madagascar: sorria e acene! O novo Moisés sorriu e acenou para quase todo mundo. Agora só precisa continuar, pois a lista é infinita e quem recebe um aceno logo quer outro.

Uma lição para Adriano

Vencedor da eleição joinvilense, com 145.269 votos (55,43%) no segundo turno, Adriano Silva (Novo) entrou na política em uma condição parecida com a de Carlos Moisés em 2018. É o sujeito de fora da política que, impulsionado por uma onda, derrota adversários tradicionais com um discurso antipolítica. O personagem, a onda e o momento são diferentes, mas a lógica é a mesma, de modo que Adriano pode olhar para Moisés e evitar alguns erros.

Isolado em casa, com covid-19, o prefeito eleito Adriano Silva fala sobre o processo seletivo e exibe o broche que ganhou de Udo Döhler – Foto: Redes sociais de Adriano Silva

A primeira semana do prefeito eleito foi marcada por três fatos. O início da transição, com muito entusiasmo da parte do prefeito Udo Döhler; o início do processo seletivo do partido; e a covid-19, com a qual Adriano, a vice Rejane Gambin e integrantes da equipe de campanha foram diagnosticados.

É acerca do processo seletivo que há algo a discutir. Durante toda a campanha, o partido Novo e Adriano Silva sempre insistiram no aspecto técnico na escolha dos comissionados, fazendo a crítica ao aspecto político. Eleito, porém, Adriano abre inscrições para um processo seletivo com critérios políticos. Agora Adriano pode dizer que não era bem assim, que o pessoal não entendeu bem, e que era óbvio o alinhamento político como condicionante na escolha. Mas não foi o que ele disse na campanha. E fazer diferente do que promete tem consequência.

O encontro dos antipolíticos com a política é um deleite para jornalistas. O choque sempre rende alguma história. Mas Adriano pode olhar para os antipolíticos que vieram antes dele para poupar-se e poupar Joinville de erros decorrentes desse encontro. Se não acreditar em mim, pode perguntar para Carlos Moisés.

Adriano, aliás, também pode olhar para Udo Döhler. O empresário têxtil não esperava acabar o mandato com tamanha rejeição, uma consequência da pouca habilidade política, que lhe tirou a chance de concorrer ao governo do estado em 2018. É verdade que foi reeleito em 2016, mas o segundo mandato foi trágico em termos de popularidade.

A história nos orienta para o futuro e Adriano Silva tem exemplos recentes para olhar e aprender.


A política em Joinville é uma coluna informativa sobre o cenário político da cidade. Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha de financiamento coletivo. Quanto mais gente apoiar, melhor o jornalismo vai ficar.