A política em Joinville: Erros e acertos das 15 candidaturas

Por Felipe Silveira
Fotos: Divulgação

O partido Novo foi o grande vencedor da eleição joinvilense, elegendo o prefeito Adriano Silva e três vereadores. Mais do que isso, a sigla conseguiu uma base social (que é diferente de base popular) na cidade, coisa que lhe falta no país. A vitória foi resultado de estratégia, estrutura, trabalho e alguma sorte — sempre um componente importante. A derrota dos outros 14 concorrentes também.

À exceção do último item, podemos nos arriscar a avaliar quais foram os principais erros e acertos de cada campanha. A análise, obviamente, pode contrariar o entendimento de partidos, militantes e simpatizantes. Por isso, destaco que essa é apenas uma visão, de um comentarista político que acompanhou o processo, e convido leitores e leitoras a comentar as próprias impressões. Pode ser pelas redes sociais ou até mesmo por e-mail (veja no rodapé do site). Vamos à análise:

Adriano Silva (Novo)

Resultado
Primeiro turno – 60.728 votos (22,98%)
Segundo turno – 145.269 votos (55,43%)

Acerto
Vencedor da eleição, é claro que Adriano Silva mais acertou do que errou, de modo que é difícil escolher qual foi o principal acerto. Na minha opinião, foi a escolha de Adriano Silva como representante. Ele, mais do que qualquer pessoa, acredita no próprio discurso e no seu bom mocismo. Empresário, membro de uma família tradicional local, bombeiro voluntário e com discurso antipolítica (“não sou político”) — foram esses elementos que tornaram Adriano o candidato ideal nesta cidade que tende à direita, mas não é tão bolsonarista quanto os números de 2018 fizeram parecer.

Erro
Falta traquejo político a Adriano Silva, que nos debates seria engolido por políticos mais experientes e carismáticos, caso tivesse algum no pleito. Imagine Adriano contra Luiz Henrique da Silveira, por exemplo. O candidato do Novo deu sorte que tinha muita gente no bolo (isso tornava difícil o debate), seus principais adversários tinham muita rejeição (de acordo com as pesquisas) e a campanha foi curta. O candidato e o partido não têm experiência política, o que leva a discursos por vezes ingênuos. Agora, momento em que o discurso será confrontado com a política real, talvez algumas coisas mudem.


Darci de Matos (PSD)

Resultado
Primeiro turno – 66.838 votos (25,3%)
Segundo turno – 116.793 votos (44,57%)

Acerto
Darci de Matos explorou bem a rejeição ao prefeito Udo Döhler. Mais preparado para enfrentar o candidato do MDB no segundo turno, tratou logo de colar a imagem do atual prefeito ao principal adversário. No segundo turno tentou fazer isso com Adriano. Colou um pouquinho, mas de maneira insuficiente pra evitar a derrota. Outro acerto de Darci foi construído ao longo da carreira. Ele sempre foi um político de presença nos bairros, de contato com a população, e isso lhe garantiu a votação nas áreas mais periféricas.

Erro
Que movimento político Darci de Matos representa? Apesar de ter alguma penetração nos bairros, como mencionei acima, não dá para dizer que Darci é um representantes das periferias. Quase sempre governista no parlamento, nunca esteve atrelado a nada. Recentemente, tentou colar-se algum bolsonarismo, mas pouco para engajar o eleitor do presidente e muito para quem detesta o sujeito que mora no Palácio da Alvorada. O político que não representa uma ideia está condenado a ser coadjuvante.


Fernando Krelling (MDB)

Resultado
48.886 votos (18,50%)

Acerto
Pode ter parecido errado para alguns, mas Fernando Krelling obteve algum êxito na tentativa de se descolar de Udo Döhler. Tivesse se abraçado ao prefeito, naufragaria bem antes. Era impossível se descolar totalmente, mas ele conseguiu até onde foi possível. O candidato do MDB também tinha a campanha mais estruturada, com equipe e alguma militância — do partido, que é forte, e a própria adesão dos atuais comissionados da prefeitura, de olho na manutenção do emprego.

Erro
Como Darci de Matos já estava no segundo turno, Krelling precisava focar em conseguir a vaga nessa disputa, contra o deputado federal. O emedebista polarizou com Darci desde o começo da campanha e esqueceu de olhar no retrovisor. A maior ameaça sempre foi Adriano Silva e Krelling poderia ter feito mais para barrar o empresário. De qualquer modo, era difícil, pois não poderia enfrentar um Darci muito forte no segundo turno. Mas sobrou foco em Darci e faltou olhar para trás e se garantir na final.

Tânia Eberhardt (Cidadania)

Resultado
17.436 votos (6,60%)

Acerto
A marola rosa quase virou onda. Tânia Eberhardt tinha a candidatura mais de centro entre os quinze e fez uma campanha para abocanhar esses votos. Foi bem na tentativa de se apresentar como opção aos dois lados.

Erro
A fidelidade ao “extremo-centro”, porém, prejudicou Tânia Eberhardt. Com seu perfil, poderia ter sido muito mais ousada. Poderia defender pautas das mulheres e trabalhadores sem medo de perder a direita. Depois compensaria com outros discursos. Tânia não quis se queimar com alguns setores e assim deixou de ganhar outros.


Ivandro de Souza (Podemos)

Resultado
15.195 votos (5,75%)

Acerto
Fazia tempo que Ivandro de Souza ensaiava uma candidatura à prefeitura, mas nunca a consolidava. Mais decidido em 2020, fez uma pré-campanha caprichada, em especial nas redes sociais. Comunicou-se bem com seus eleitores. Chegou, assim, à campanha oficial como um dos candidatos sérios.

Erro
Ivandro quer ser prefeito, mas é muito difícil ser prefeito sem se construir politicamente. Nunca foi eleito a nada, não representa uma classe social, não representa um movimento político, está em um partido com pouca história e sem base social. Assim fica complicado. Também se perdeu no discurso. Queria se mostrar como um candidato ao centro no começo da campanha e foi guinando à direita no decorrer. Pareceu desespero.


Dalmo Claro (PSL)

Resultado
14.113 votos (5,34%)

Acerto
O PSL acertou em trazer Dalmo Claro, um político de fato, para representá-lo no pleito. O partido inflou por causa de Bolsonaro, mas para manter o tamanho que ganhou (ou não perder muito) em 2018, precisa fazer política a sério. Com a candidatura de Dalmo, participou da disputa na parte de cima da tabela. Nunca teve chance de ganhar a eleição, mas não queimou o filme.

Erro
O PSL e Dalmo Claro não tinham nada melhor para apresentar do que seus concorrentes mais fortes. Muitas promessas, discurso contra a burocracia, uma posição à direita que não conquista bolsonaristas nem muitos liberais. Enfim, mais do mesmo. Fez uma campanha morna.


Francisco de Assis (PT)

Resultado
10.495 votos (3,97%)

Acerto
O grande acerto do PT foi mostrar que está vivo, que é a principal força da esquerda na cidade e que seus militantes e simpatizantes têm um partido forte para representá-los. A militância viveu dias difíceis nos últimos anos, com o crescimento do antipetismo, e ter um partido atuante faz diferença.

Erro
Fazer uma campanha para o fixo eleitorado petista ou adotar um discurso mais abrangente? Era uma coisa ou outra, porque são excludentes na Joinville de hoje. Acredito que o PT tentou fazer as duas coisas e ficou no meio do caminho de ambas.  Além disso, talvez por ter militantes envolvidos nas campanhas à câmara de vereadores, faltou militância na majoritária. Faltou fôlego à campanha, coisa que o PT sempre teve porque, diferente da maioria dos partidos, sempre contou com a militância forte.


Anelisio Machado (Avante)

Resultado
8.085 votos (3,06%)

Acerto
Apostou no personagem carismático, com trânsito popular, e até que se comunicou bem nos debates, quase conseguindo subir ao pelotão de cima.

Erro
É muito tênue a linha que separada o personagem carismático do caricato. Fora isso, as propostas eram fracas.


Eduardo Zimmermann (PTC)

Resultado
6.843 votos (2,59%)

Acerto
Não houve acertos.

Erro
A eleição de Jair Bolsonaro ainda não foi explicada, mas ninguém nunca vai me convencer que a massa de brasileiros que votou no atrapalhado capitão é do naipe de Eduardo Zimmermann. Bolsonaristas como o candidato joinvilense formam uma pequena e barulhenta parte do eleitorado do presidente. O erro de Eduardo Zimmermann foi ter achado que muita gente vê o mundo como ele.


Nelson Coelho (Patriota)

Resultado
4.378 votos (1,66%)

Acerto
O Patriota investiu em comunicação e ousou. Contratou até um humorista para fazer esquetes políticas e tentar chamar a atenção. Bolsonarista até o último fio de cabelo arrepiado, Nelson Coelho tentou ir além do bolsonarismo, dialogando com outros setores. Foi um acerto porque, em uma campanha cheia de bolsonaristas, ele precisava buscar público em outros lugares.

Erro
Talvez o Patriota tenha super-estimado seu candidato, considerando que Nelson Coelho é o atual vice-prefeito de Joinville e que seria uma figura política maior do que é. O próprio candidato demonstra grande auto-confiança, mas nunca foi um protagonista da política local.


James Schroeder (PTD)

Resultado
3.718 votos (1,41%)

Acerto
Vereador com três mandatos, o candidato do PDT sempre se destacou por ser muito técnico. A campanha foi bastante propositiva, com ideias mais aprofundadas do que a média.

Erro
Falta energia a James Schroeder, pelo menos em termos de apresentação. Como candidato, com grande domínio técnico, precisava se apresentar com mais vitalidade para atrair adeptos e adeptas ao projeto. Outro problema da candidatura foi a falta de identidade do partido. Ciro Gomes, que concorreu à presidência pelo PDT em 2018, formou um movimento que chega a ser chamado de cirista, mas nada disso se viu em Joinville.


Marco Marcucci (Republicanos)

Resultado
3.089 votos (1,17%)

Acerto
Não houve acertos. Levantar a questão do feminicídio, mesmo de maneira enviesada, foi um leve atenuante.

Erro
Personagem caricato, que teve problemas com a Justiça, e sem propostas. Tinha um tema único, que abordava de maneira inconstitucional, além de ridícula. Marcucci não tem — nem teria se eleito — direito de expulsar ninguém da cidade.


Mayara Colzani (PSOL)

Resultado
3.080 votos (1,17%)

Acerto
Mayara Colzani é uma mulher jovem com domínio do que fala. Você pode discordar da teoria e da proposta, mas não pode dizer que ela não fala com propriedade acerca das suas ideias. Colocar uma mulher jovem na disputa, cheia de homens brancos de meia idade, também foi um fator que diferenciou a campanha socialista. O partido ainda conseguiu se diferenciar de candidaturas de esquerda.

Erro
Da mesma maneira que o PDT, o PSOL Joinville fez uma campanha cuja identidade ficou muito diferente da que o partido apresenta nacionalmente. Explorou muito pouco as pautas identitárias (questões de gênero e raça) e focou o discurso em algo que tem baixa adesão: contra o sistema. Era o que eles queriam fazer, mas o resultado eleitoral era previsível.

Levi Rioschi (Democracria Cristã)

Resultado
1.101 votos (0,42%)

Acerto
Não houve acertos. Talvez insistir que era o candidato que morava na periferia, buscando algum diferencial, tenha valido meio ponto. Mas ficou meio longe de ser um acerto considerável diante dos problemas.

Erro
Foram muitos. O candidato tinha algumas das propostas mais sem pé nem cabeça, não se construiu politicamente com antecedência, não direcionou a campanha para conquistar votos evangélicos e sua comunicação era péssima.


Adriano Mesnerovicz (PSTU)

Resultado
244 votos (0,09%)

Acerto
Não houve acertos. Ficar na lanterninha, com menos de 300 votos, em uma disputa com tantos candidatos ruins, é o que sustenta meu argumento. Mas levantou a pauta LGBTQIA+ na campanha, o que pode ser considerado um ponto positivo.

Erro
O PSTU usou o período eleitoral para levar a sua mensagem revolucionária à população, mas pode fazer isso de um jeito muito melhor no dia a dia, com redes sociais ativas, com atividades públicas etc. Se a mensagem chega apenas na eleição, os eleitores são pegos de surpresa pelo pequeno grupo de militantes que propõem a derrubada do Estado. “Como esses caras querem fazer isso se nem se comunicam direito”, quase todos nós pensamos. É difícil comprar a ideia nessa condição, considerando que o partido não conseguiu sequer lançar candidaturas à câmara.


A política em Joinville é uma coluna informativa sobre o cenário político da cidade. Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha de financiamento coletivo. Quanto mais gente apoiar, melhor o jornalismo vai ficar.