A política em Joinville: As diferenças entre Darci de Matos e Adriano Silva

Por Felipe Silveira
Foto: Divulgação

Apenas filigranas técnicas diferenciam Darci de Matos (PSD) e Adriano Silva (Novo), os políticos que disputam o segundo turno da eleição em Joinville. Ideologicamente — o que importa quando falamos dos rumos da sociedade — não há diferença. Os dois são meio neoliberais (no sentido adquirido nos anos 80 e 90), meio bolsonaristas e alguma coisa “populistas”. Vamos ver item a item:

Em termos de política econômica, os dois são muito próximos, embora isso não fique tão aparente. Adriano Silva é um representante do partido Novo, que tem o neoliberalismo como princípio. Concessões, privatizações, redução do Estado e desregulamentações fazem parte do vocabulário do partido. Darci de Matos está em um partido que não tem o discurso tão marcado, o PSD, mas que permite o discurso e a ação neoliberal entre seus quadros. O deputado federal Darci de Matos, por exemplo, é um costumaz apoiador das reformas propostas pelo neoliberalíssimo Paulo Guedes. Os dois candidatos são, portanto, muito parecidos em termos de política econômica.

Darci e Adriano não são desses bolsonaristas malucos, como certas pessoas que vimos na disputa eleitoral e eventualmente esbarramos na internet. Eles são, como muito joinvilenses, meio bolsonaristas, esperando uma alternativa mais limpinha à direita. Certamente passam vergonha olhando as doideiras do homem, mas passam pano diante do cenário. Entendem que, eleitoralmente, é melhor abraçar do que rejeitar, mas sem abraçar muito, porque aí já dá errado.

Darci passou a campanha lembrando que apoia o presidente, mas sem forçar a barra. Não como em 2019, quando chegou a espalhar um outdoor pela cidade com a foto dele entre Bolsonaro e Sérgio Moro. Quando o presidente e o ex-juiz brigaram, Darci bugou, como boa parte dos joinvilenses que integravam o fã-clube da dupla. “Melhor deixar quieto”, devem ter pensado.

Adriano não falou de Bolsonaro durante a campanha (não vi, pelo menos), mas se viu forçado a expor opiniões na reta final, como resposta a uma fakenews patética que associa o Novo ao PT e ao PSOL, espalhada por setores da direita local. A fake news, que ofende o Novo, o PT e o PSOL, obrigou Adriano a expor opiniões conservadoras (“contra o aborto” e “contra as drogas”) e a falar uma imensa besteira. Disse ele ser contra a “ideologia de gênero” nas escolas, como se fosse algo real.

Eu me recuso a acreditar que uma pessoa bastante razoável, como Adriano Silva, acredite no conceito de ideologia de gênero, inventado por setores reacionários para impedir avanços cívicos de mulheres e da comunidade LGBTQIA+. É inadmissível que seja contra educação sexual adequada à idade na escola, sabendo que isso pode evitar o abuso sexual de crianças e adolescentes, que saberão dizer não, saberão se prevenir e saberão denunciar possíveis abusos.

Em resumo, Darci e Adriano são bolsonaristas, mas não muito. Acreditam em algumas bobagens do presidente, toleram outras e fingem que não veem algumas, como as fartas evidências de corrupção na família e as declarações absurdas que desrespeitam os mortos do passado (pela ditadura) e do presente (pela pandemia e outras violências). Em Joinville, cidade que deu 83% dos votos para Bolsonaro, é mais negócio agir assim mesmo.

Por fim, empresto o termo “populista” para usá-lo em um sentido diferente do tradicional. Darci e Adriano são “populistas” porque prometem tudo. Saúde, educação, mobilidade, segurança, cultura, respeito e valorização do servidor, desburocratização, apoio às empresas, inclusão, atenção ao centro, atenção à periferia e tudo mais que se tem direito para transformar a cidade em um pedaço do paraíso. E a boa vontade também me parece similar. Não tenho dúvidas de que Adriano e Darci acreditam em cada uma das palavras que dizem. Aliás, desejo sorte ao vencedor na hora de enfrentar a realidade.

Detalhes tão pequenos

Darci e Adriano são candidatos com trajetórias muito distintas, que os transformaram em personagens muito diferentes. De um lado, o filho de agricultores que construiu a carreira na política, muito experiente no legislativo. Do outro, o filho de uma família industrial, jovem, que decidiu entrar na política em um projeto bastante ideológico. Na forma, duas pessoas muito diferentes.

E cada pessoa pode se agarrar a essas diferenças para decidir seu voto no domingo (29). Pode ser uma proposta específica que gostou, a simpatia, a experiência, a história, a classe social e o jeito. São infinitas as variáveis que determinam o voto na cabeça de cada eleitor e eleitora.

Mas são variáveis no detalhe, na forma, na apresentação de cada um. No conteúdo, Darci de Matos e Adriano Silva são muito similares.


A política em Joinville é uma coluna informativa sobre o cenário político da cidade. Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha de financiamento coletivo. Quanto mais gente apoiar, melhor o jornalismo vai ficar.