Nando Müller, “o engenheiro de Guaratuba”, ruma à MPB

Texto: Amcle Lima
Foto: Divulgação

Diz a lenda que, nos anos 1980, os integrantes da banda Engenheiros do Hawaii, então estudantes de arquitetura, criaram o nome da banda partir de uma rivalidade com alguns estudantes de engenharia que circulavam com roupas de surfistas nos corredores da faculdade. Era uma troça, enfim. Quem vê Nando Müller, músico paranaense radicado em Joinville, de camisa florida e violão em punho em suas apresentações pela cidade não supõe sua formação: engenheiro mecânico. Nascido e criado no litoral norte do Paraná, Nando tem mar na música e, sem troça nenhuma, bem poderia ser chamado de o engenheiro de Guaratuba.

Essa alcunha, caso fosse usada, poderia revelar a face atual da música do guaratubano: a engenharia introspectiva que suas letras mais recentes se propõem, entretanto, permeada por uma brisa praiana. Nando foi criado apenas pelo pai, um radialista que tinha relação íntima com a música. “Meu pai tocava muito bem violão e piano, tenho total influência dele que trouxe muita coisa pra dentro da minha música”, diz. E não apenas musicalmente foi a ascendência desse período da vida. “Tudo isso conta: a educação só com o pai, numa cidade do litoral, na praia, e de uma geração como a nossa que tinha mais liberdade para viver na rua”, esclarece.

O compositor diz que acabou carregando essa leveza para sua personalidade e para suas canções. “Eu falo muito em mar nas minhas músicas, apesar de tentar evitar ao máximo, mas te confesso que a minha poesia está sempre relacionada à água salgada e à influência que essa natureza tem sobre a gente”, revela. “Está no meu DNA”, completa, bem humorado, acrescentando que vem fazendo uma transição na sua carreira. O primeiro disco, “Acústico”, de 2018, assim como os singles lançados no mesmo ano, tinham uma levada pop. Nando vem aproximando sua música da MPB, sem abandonar de todo o pop em suas melodias.

Dizendo não ser um defensor do enquadramento do artista em determinado gênero musical, sinaliza acreditar que seu primeiro disco ficou “nichado em um pop praia”, apesar de tê-lo levado a tocar em diversos estados do Brasil, como Bahia e Rio de Janeiro. “Não me incomodo, porque as pessoas é que tem que dizer como percebem o meu som, afinal, a gente faz para o mundo, mas não era essa a intenção”, acrescenta. Sem lançar nada desde 2018, o músico lançou no mês passado nas plataformas de áudio a canção “Extraordinário”, que mostra bem essa transição rumo a MPB. E os lançamentos não param.

Recentemente, saiu o material audiovisual feito em parceria com o estúdio joinvilense Rota 66: Nando Müller @ Rota Sessions. Nessa colaboração, Nando apresenta canções de 2018 e uma inédita que vai estar no novo disco: a canção “Mantra”. Para dezembro está programado o lançamento de mais uma inédita: “Casas Coloridas”. “Um indie rock mais agitado, que também vai pro disco e que tem uma pegada Los Hermanos e uma guitarra bem Tame Impala [banda australiana]”, diz, revelando outras influências. O Mirante conversou com Nando Müller, que nos concedeu a entrevista a seguir e nos enviou essa versão exclusiva de “Dias com você”, canção de 2018, composta para seu pai já falecido.

O Mirante – Você lançou recentemente a canção “Extraordinário” em versão demo. Quem produziu essa versão? Aquele som etéreo no começo é um teclado?

Nando Müller – Esse arranjo é meu mesmo. Gravei com Vitor Busarello, professor de guitarra do Conservatório Belas Artes e que também tá fazendo um som dele aí. A versão final eu mixei com o Matheus Sebold, do estúdio Rota 66. Fez dois anos que não lançava nada de maneira geral. Eu lancei para representar essa transição que eu estou fazendo. Do pop, que eu estou saindo, buscando um texto um pouco mais introspectivo, trabalhando um pouco mais com um tempo de música mais lento. Saiu agora dia 9 de outubro. O arranjo é só violão e percussão. Aquele som é um metalofone.

Fala um pouco sobre a letra dessa música “Extraordinário”. Qual foi a inspiração?

Então. A letra foi escrita nesse período de reclusão que a gente viveu. Vive ainda, né? Não mais com tanta intensidade como a gente estava lá atrás. Essa letra representa a gente ter um pouco de paz e sem ter hora para ter isso. Então por isso que a última frase é “a paz sem hora é sorte no agora”. A letra diz então que o extraordinário é a gente poder se enxergar. O novo disco que estou produzindo vai falar desse “ver a si mesmo”. Que é o que eu acho que aconteceu na pandemia. Quem produz algum tipo de arte, seja escrita, pintura e tal, conseguiu, de alguma maneira, por estar mais tempo consigo mesmo, se enxergar, como se fosse um espelho. Um reflexo, sabe? De ter a visão do que eu sou, do que eu escrevo. E a letra de “Extraordinário” é isso. Fala dessa epifania que eu tive. Desculpe se eu falo muito hippie, mas é uma mania [risos].

Essa versão demo de “Extraordinário” já apresenta uma boa qualidade. A ideia é fazer outra versão mais produzida? Pergunto isso porque tem versões demo que ficam melhores que as produzidas.

A ideia é essa mesmo, fazer outra produção para ela. Mas está tendo uma receptividade tão legal dessa versão que eu estou com uma baita dúvida quanto a isso. O Mac DeMarco [músico e compositor canadense] faz muito isso: ele lança um disco todo demo e depois lança outro disco com as versões finais. Versões com pequenas mudanças no arranjo, na mixagem e masterização. Mas é uma dúvida. A ideia era produzir uma nova versão, mais arranjada, alguma coisa assim. Pegar um violão mais encorpado, captar melhor. Mas não sei, o pessoal está gostando tanto da versão… O Alexandre [Giglio] do Minuto Indie [portal sobre música] me disse: “Cara, eu se fosse você não faria outra versão”.

Você já está trabalhando nesse novo disco há algum tempo. Desde quando? Quantas músicas vão ser? Quando pretende lançar?

Eu estou mexendo com ele há alguns meses. Mas a ideia sempre foi lançar um disco fechado. Porque eu lancei um EP com quatro músicas [“Acústico”, de 2018]e depois fui lançando singles separados, como [“Flor do meu Canto”, “Dias com você” e “Sinfonia”, todas de 2018]. Hoje lançado tenho esse EP com quatro músicas e depois mais três singles e agora esse [“Extraordinário”]. No total, são oito músicas lançadas. O álbum é um disco fechado com dez músicas. Vou subir mais um ou outro single, a pretensão é lançar mais um até dezembro, nesse estilo demo. E aí no ano que vem tentar lançar ainda no primeiro semestre o disco todo, porque dá bastante trabalho. Eu estou fazendo com toda a calma do mundo. Já mudei várias vezes a perspectiva do álbum completo. A pandemia fez mudar várias coisas. A dinâmica do disco já mudou algumas vezes. Algumas canções eu estou compondo e algumas já estavam prontas. Então enquanto eu produzo as que eu já escrevi, na questão letra, elas podem destoar do que eu quero dizer dentro do mesmo álbum. Mas não chega a ser uma preocupação, eu sempre tive essa coisa de misturar. Não tenho problema em ter uma música mais agitada e outra mais lenta, de ter um samba-rock junto com um indie lo-fi. Não é uma coisa que me incomoda isso, porque eu fui moldado assim.

Você, no início da entrevista, disse que tem uma fala um tanto quanto hippie. Mas as suas letras, em alguns trechos, têm relação com o misticismo, no sentido primordial da palavra. Nesse seu novo single você diz “extraordinário você ter, a constatação dentro do mar, que se fôssemos todos um grão, a vida iria eternizar”. Parece relatar a experiência mística por excelência, na qual o místico reporta perder a sensação do eu como uma gota se perde no mar. Você também entende dessa forma?

A minha escrita, nesse momento, não sei por qual razão exata, tem confrontado com a existência, com procura de uma paz em um caos nem tão caótico. Mas ter alguém que enxerga essa obra e consegue perceber o que você percebeu é incrivelmente maravilhoso para mim.  Esse disco de fato vai ter algo disso tudo, mas também vou mesclar com músicas mais pop.  Tem uma canção, por exemplo, que se chama “Olá “ e vai ter toda uma percussão afro, ijexá. E isso se deva à influência que tenho recebido das viagens que faço e do meu interesse descomunal pelas religiões afro-brasileiras.

Como é equilibrar uma vida artística com um outro trabalho que não tem relação com a música?

Eu sou um admirador dos que migram 100% ou que tem diversas outras atividades artísticas para incrementar financeiramente. Eu faço uma divisão: durante o dia sou Fernando e executo  minhas atividades de trabalho, pelas quais sou infinitamente melhor remunerado. E nas outras horas, sou Nando, nas “mídias” no palco, na escrita, onde sou infinitamente feliz e realizado. Ambos possuem objetivos diferentes, mas um não sobrevive sem outro. Se você observar diversos artistas mesmo com fama já se dividiram e até mesmo poetas antigos. Meu xará Fernando Pessoa era contador e escritor, por exemplo.

Para finalizar: como foi ver a banda Tuyo cantando “Meu Coração é um Dragão”, canção que você participou na composição com o carioca Daniel Caldeira?

Foi muito bom e ao mesmo maluco porque nessa época eu não tinha noção de composição ou qualquer participação minha em um trabalho pronto. Estamos falando de antes de eu querer algo com meu próprio trabalho, nessa época tocava na noite e as composições eram algo de gaveta. Daniel construiu praticamente toda canção, eu incrementei o verso “Meu coração é um dragão” e parte da segunda estrofe. No disco novo vai ter mais uma em parceria com o Daniel Caldeira.