A política em Joinville: “Davi” de Matos enfrenta alguém do seu tamanho

Por Felipe Silveira
Foto no topo: Fábio Queiroz/Alesc

Darci de Matos (PSD) chegou duas vezes ao segundo turno da eleição municipal joinvilense. Perdeu nas duas, em 2008 e 2016, para dois gigantes. Não, não estou falando do Carlito Merss (PT) e Udo Döhler (MDB). O ex-prefeito e o atual (em final de mandato) merecem créditos pelas vitórias, mas elas não aconteceriam se não estivessem sobre o ombro de gigantes.

O primeiro gigante era a aprovação do presidente Lula no governo federal. A eleição ocorreu em 2008, na metade do segundo mandato petista, e em um dos melhores momentos da economia do Brasil moderno. Os joinvilenses nunca foram lá muito lulistas, mas decidiram dar uma chance ao petista que tentava pela quarta vez e havia se destacado em seus mandatos legislativos.

O segundo gigante era o prefeito que tentava a reeleição. Sempre é uma vantagem muito grande, mas que ainda era combinada com outros elementos. Udo Döhler (MDB) foi eleito pela primeira vez em 2012, quando derrotou Kennedy Nunes (PSD) no segundo turno. O empresário joinvilense — que tinha capital econômico e por isso algum capital político — ganhou um padrinho poderoso, que articulou sua candidatura após fracassar em 2008.

Darci construiu a carreira no legislativo, tendo três mandatos na assembleia catarinense – Foto: Alesc

Governador entre 2003 e 2010, o emedebista Luiz Henrique da Silveira tentou emplacar Mauro Mariani como seu sucessor político em 2008. Trouxe para Joinville o político que era unanimidade no Planalto Norte. Se emplacasse Joinville, Mariani tinha tudo para dominar o estado. LHS colocou toda força na campanha. Eu era estagiário na SDR Joinville e lembro como o então deputado Mauro Mariani era a estrela dos eventos do governo na cidade. Mas o joinvilense não comprou Mariani, que ficou apenas em quarto lugar. Aquela eleição era mesmo do gigante petista, visto que Carlito Merss conquistou mais de 100 mil votos.

Em 2012, após o fracasso da tentativa anterior (2008, no caso), LHS apelou. Fez o que sempre dá certo em Joinville: colocar um empresário de família tradicional na disputa. Udo Döhler, que tinha grande apoio da classe dominante local, foi o escolhido. Com grande moral após deixar o governo, o agora senador LHS era o cabo eleitoral. Foi um desafio imenso fazer Udo Döhler se comunicar razoavelmente, superado pelo jornalista Marco Aurélio Braga, que não à toa foi escolhido secretário de comunicação. Deu certo

Se foi fácil explicar o gigantesco adversário de Darci de Matos em 2008, que era nada mais nada menos do que a força do PT naquele momento histórico do Brasil. O gigante de 2016 exigiu uma explicação mais prolongada. LHS morreu em 2015, mas ainda era um cabo eleitoral in memoriam. Udo Döhler era o prefeito com aprovação razoável, com projetos e obras iniciados, com um partido forte e apoio da classe dominante à qual faz parte. É difícil superar.

Ganhou massa

Darci de Matos é um dos principais políticos de Joinville e construiu sua carreira com habilidade. Filho de agricultores que vieram para Joinville, tornou-se professor e logo envolveu-se com a política. Foi delegado regional do trabalho (uma indicação política) e logo chegou à câmara, em 2000. Presidiu a CVJ em dois mandatos e saltou à Alesc em 2006. Foi reeleito deputado estadual em 2010 e 2014. Chegou à Câmara dos Deputados em 2018, com 68 mil votos.

Nas duas ocasiões que enfrentou gigantes, Darci era deputado estadual que tinha grandes adversários locais. Carlito Merss (era deputado federal), LHS, Kennedy Nunes eram concorrentes duros. Mas hoje o cenário mudou. Os adversários ficaram para trás — LHS morreu, Carlito atingiu o objetivo e Kennedy encolheu — e Darci de Matos ganhou musculatura. É o político forte do momento, já que seus colegas de profissão, entre aliados e adversários, são políticos jovens, como Krelling, Coelho, Fachini e Bornholdt.

Rodrigo Coelho e Rodrigo Fachini, apoiadores de Darci neste pleito, fazem parte da geração de novos políticos que vai protagonizar a política joinvilense em breve. Fernando Krelling e Adriano Silva, adversários em 2020, também. A foto da campanha de Darci de Matos.

O tamanho de Adriano Silva

Adriano Silva, o candidato do partido Novo que enfrenta Darci de Matos no segundo turno de 2020, chegou agora na política. Está em um partido que ainda não se consolidou, que não tem as “manhas” de disputar uma eleição. O candidato também não é conhecido de boa parte da população, diferente do adversário, que tem uma vida de circulação nos bairros. O tamanho de Adriano, portanto, ainda não é sabido, pois quem tem a fita métrica de político é a urna.

Por outro lado, Adriano tem uma cidade relativamente receptiva ao discurso do partido Novo. E tem aquela característica única que rende votos dos joinvilenses: faz parte de uma família tradicional. É um bom candidato, com a imagem associada à solidariedade. É um bombeiro voluntário. Você já viu alguém falar mal de bombeiro na vida?

Mesmo que a urna diga que Adriano está grandão, a análise política não permite. Como político, ele ainda precisa se provar. E confesso que estou curioso para ver como o ideológico Novo, sem experiência de gestão, vai lidar com a realpolitik. Câmara, servidores, comunidade, leis complexas…

Confronto direto

O título do texto brinca com o nome de Darci de Matos e a história bíblica do pequeno Davi contra o gigante Golias. Não preciso contá-la, mas relembro que os cristãos querem dizer que Davi venceu porque Deus interviu, colocando força e direção na pedra que acertou a testa do guerreiro adversário. Sem a intervenção do céu, Golias detonaria Davi.

Como não há registros de intervenção divina na política terrena moderna (e quem usa o nome de Deus para fazer política quer te enganar), os políticos tem que brigar com as forças que tem. Darci de Matos enfrentou gigantes nas duas vezes que chegou ao segundo turno. Seus adversários contavam com uma força que ia além deles. Brigou bem, mas perdeu nas duas, que é o que acontece quando mais fracos brigam com mais fortes.

O cenário é diferente em 2020. Darci de Matos é um político mais forte; Adriano Silva ainda precisa mostrar o seu tamanho. A “onda laranja” pode ser um sucesso em Joinville, mas não é a mesma coisa que um governo federal forte (o cabo eleitoral de Carlito) ou um projeto de reeleição. Neste momento, dá para dizer que será uma disputa justa, entre adversários da mesma estatura. Mas só saberemos mesmo no dia, quando a urna vai determinar a medida de cada um.


A política em Joinville é uma coluna informativa sobre o cenário político da cidade. Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha de financiamento coletivo. Quanto mais gente apoiar, melhor o jornalismo vai ficar.