A política em Joinville: No segundo turno e com três eleitos, Novo vence no dia 15

Por Felipe Silveira
Foto: Divulgação

O Novo é um partido singular. Tem um perfil bastante ideológico, à direita, e uma estética talhada no espírito de uma época, essa coisa meio empreendedor, meio coach. É neoliberal na economia e bastante permissivo com o conservadorismo nos costumes. Agora pense em qual província seria mais receptiva ao discurso do Novo do que Joinville. Não tem, né? Era questão de tempo para o partido, que é bem organizado, criar ninho na cidade.

Mas este é apenas um dos elementos para o sucesso de um partido. Como equipes de futebol que precisam de um camisa 10 para dar liga ao time, partido precisam de um nome de peso que seja a estrela da organização. O PT tem Lula, o MDB catarinense tinha LHS. Em Joinville, o Novo encontrou Adriano Bornschein Silva e logo lhe deu a 10.

Dificilmente a sigla encontraria uma figura mais apropriada para a tarefa, já que Adriano Silva é a cara do partido e uma figura ideal como candidato em Joinville. Afável no trato pessoal, tem o perfil de bom moço, atuante em causa solidárias e nos bombeiros voluntários. Como administrador dos negócios da família, passa uma imagem de “bom patrão”, que promove atividades culturais dentro da empresa, entre outras coisas do tipo.

Desafio do partido Novo é chegar no eleitorado da periferia

Cabe destacar que Joinville elegeu membros de suas famílias mais tradicionais para comandar a cidade ao longo da história, como os irmãos Colin, Wittich Freitag e o atual prefeito Udo Döhler. Adriano é bisneto de Alberto Bornschein, fundador do Laboratório Catarinense (que virou Catarinense Pharma em 2015). Ele preside o grupo atualmente. O que para a esquerda é o ponto crítico, a pura representação do capitalismo, para os grupos familiares que detém os meios de produção e eventualmente grandes quantidades de terra, é o natural.

Com uma cidade possivelmente receptiva ao discurso e um candidato relevante (bastante votável), o partido se estruturou na cidade. Adriano fez parte desse processo. Chamaram a jornalista Rejane Gambin, um rosto bastante conhecido na cidade, que logo passou a participar da estruturação da sigla e das propostas que apresentariam na campanha. Leia o nosso perfil sobre a vice.

Batalha do turno

Ser engenheiro de obra pronta é fácil, mas posso afirmar com certa tranquilidade que, dos 15 candidatos em Joinville, seis tinham chances de chegar ao segundo turno. Um deles estava lá, praticamente. Darci de Matos (PSD) é o político mais experiente e conhecido do pleito. Restava a briga pela segunda posição.

O favorito era Fernando Krelling (MDB), político que ascendeu rapidamente. Jovem, com alguma experiência, um pouco menos conhecido que Darci, mas familiar aos joinvilenses. O partido pesava, que fornecia a estrutura, pesava na balança. Mas havia a rejeição do final do segundo mandato de Udo Döhler. O deputado estadual decidiu arriscar e sempre apareceu na segunda colocação, nas poucas pesquisas divulgadas e as que circulavam no “zap”.

Adriano Silva e Tânia Eberhardt (Cidadania) disputavam a terceira posição. Enquanto analista, nunca soube dizer qual era o favorito. Ora achava que era uma, ora outro. Acreditava que ela poderia se destacar se buscava o voto das mulheres, mas era apenas um palpite. Por outro lado, a candidatura do Novo reunia os atributos que mencionei acima e demonstrou mais fôlego. Ivandro de Souza (Podemos) e Dalmo Claro (PSL) não foram descartados na minha análise, mas corriam muito por fora. Dependeriam de um fenômeno muito grande (acertos próprios e erros dos adversários) para encostarem, o que não aconteceu.

Na reta final já era possível desconfiar que a disputa ficaria entre Fernando e Adriano. Eu achava que seria muito disputada entre os dois, com Darci um pouco mais à frente. Porém, assim que começou a apuração, a pesquisa de boca de urna dos partidos começou a indicar que Adriano despontava. Quando abriu a primeira parcial, ele estava na frente. Muito provavelmente porque as urnas das regiões centrais foram abertas primeiro. Na segunda, Darci virou, mas com leve vantagem. O terceiro anúncio, pro volta das 11 horas, foi do resultado: Darci de Matos recebeu 66.838 votos (25,30%), Adriano Silva ganhou 60.728 (22,98%) e Fernando Krelling ficou com 48.886 (18,50%). Tânia, Ivandro e Dalmo vieram na sequência.

Adriano em campanha

Quem liderou o primeiro turno foi Darci de Matos, mas quem conseguiu o resultado mais positivo foi Adriano Silva. Superou com folga a adversária direta e desbancou o emedebista que tinha um pouco mais de favoritismo ao longo da campanha. Na comemoração, que acompanhei na casa de Adriano Silva, ficou claro que eles acompanharam a apuração como nós, jornalistas e leitores, sem saber o que iria acontecer. Havia confiança na possibilidade, mas o pé estava no chão.

Contra Darci, dá para dizer que o favoritismo passa ao Novo. Adriano Silva não tem a mesma rejeição que o pessedista. Mas também não tem a mesma notoriedade que o deputado federal (especialmente nas periferias); não tem a experiência da disputa eleitoral (conta, sempre); e não tem a mesma estrutura partidária. Então, novamente é impossível apontar um favoritaço. O segundo turno vai ser bom e está totalmente aberto.

Ah, a história de Darci de Matos vai ser contada nos próximos dias, antes que me cobrem. Nesta contamos a partir do personagem Adriano Silva. A próxima será pelo prisma do líder do turno.

Onda

Chamar a campanha municipal de “onda laranja” fazia parte do pacote publicitário. Na política, chamamos de onda os grandes movimentos que arrastam tudo por onda passam. O bolsonarismo foi uma onda em 2018, e ainda segue como uma marolinha. Não havia “onda laranja” em Joinville, mas a campanha foi empolgante para os adeptos e atraiu eleitores. Como é um partido de caráter mais ideológico, os eleitores votam no candidato a prefeito e acabam escolhendo um parlamentar do partido. É algo comum nos partidos de esquerda e, no caso do Novo ou até mesmo no caso de Jair Bolsonaro, à direita.

A chuva da última semana de campanha não impediu Alisson Julio de pedir votos

Esse comportamento não tira o mérito dos vereadores eleitos pelo partido. Com 9.574, Alisson Julio fez a segunda maior votação da história do parlamento joinvilense, a primeira deste pleito. O recorde, aliás, pertence a Fernando Krelling, que conquistou mais de 10 mil votos em 2016.

Érico Vinícius, com 3.504 votos, e Neto Petters, com 2.523, também foram eleitos pelo partido. Se somarmos os três resultados, temos apenas 15.601 votos, número com o qual seria possível eleger apenas um parlamentar. Isso demonstra a importância de outras candidaturas completas e capazes de somar votos no pleito, assim como uma candidatura que chame votos.

Voto é do partido

A situação demonstra que não existe esse negócio de voto na pessoa. “O partido é uma coisa, eu sou legal, sou outra”, dizem muito por aí. Não existe isso e quem fala quer te enganar. Quer dizer, às vezes a pessoa é despolitizada mesmo e também está enganada.

O que transforma a sociedade, para o bem e para o mal, são as instituições. No debate público que orienta os rumos da sociedade, na marcha da história, os partidos e movimentos políticos são importantes. É na disputa de forças entre eles que a cidade, o estado e país vão para um lado e para o outro. Optam por fazer uma concessão ou um serviço público. Esse rumo, entre tantos fatores, é influenciado pelo voto de cada um.

É por isso que o Novo, um partido que busca se projetar no cenário político nacional, foi o grande vencedor da eleição do dia 15 em Joinville.


A política em Joinville é uma coluna informativa sobre o cenário político da cidade. Atualmente, o editor Felipe Silveira é o responsável por ela. Você pode contribuir com pautas, com divulgação e com R$ 1 (ou mais), colaborando com nossa campanha de financiamento coletivo. Quanto mais gente apoiar, melhor o jornalismo vai ficar.