Luiz Bittencourte é o centro na busca constante por resultados

Goste-se ou não, vices estão em alta. O decorativo que virou presidente em um “grande acordo nacional” e a vice bolsonarista que agora comanda Santa Catarina são personagens recentes. O novo presidente americano foi vice de Barack Obama, o que certamente pesou na vitória em 2020. Os vices também têm história em âmbito municipal. Marco Tebaldi herdou a prefeitura de LHS e se tornou uma das principais lideranças políticas da cidade. Além desses casos recentes, a história do país é marcada por figuras que chegaram ao poder pela função. Jango assumiu o governo, começou a implantar reformas e sofreu o golpe. Itamar criou o Plano Real. E a importância dos vices – para o bem e para o mal – é apenas um dos motivos pelo qual O Mirante dedica suas páginas a eles. O outro é que essas fascinantes figuras públicas recebem pouquíssima atenção da imprensa e da sociedade, ainda mais em uma eleição com 15 candidaturas, em que a população mal pode conhecer os candidatos titulares. Bom, até agora, pois neste especial O Mirante vai falar dos vices como você nunca viu. Confira todos os publicados.

Por Felipe Silveira
Fotos: Divulgação

O último perfilado desta série trabalhou à vida toda por mais direitos e benefícios para diferentes grupos. Comunidade, estudantes, trabalhadores, idosos e outros contaram com o apoio de Luiz Bittencourte (Solidariedade), vice na chapa de Tânia Eberhardt (Cidadania), ao longo da vida. Mas engana-se quem pensa que Bittencourte é o cara do piquete. Pelo contrário, ele sempre frisa que é moderado. “Eu sou de centro”, me diz o candidato, afirmando que prefere a moderação e o diálogo. Escolhido em cima da hora para compor a chapa – já que o nome anunciado anteriormente pela coligação precisou desistir –, o líder do partido assumiu a tarefa de, junto com Tânia, apresentar a opção mais ao centro entre as 15 candidaturas da cidade.

Quando a ex-emedebista Tânia Eberhardt colocou o nome na disputa em Joinville, eu disse que ela poderia surpreender por causa de um perfil diferente que apresentaria. Uma mulher, com experiência, ligada à política mais tradicional (e alguns cientistas políticos apontam a tendência do voto nesta categoria) e com uma posição que acenasse ao centro poderia se destacar entre candidatos jovens que acenariam mais à direita. Naquele momento, Darci de Matos e Dalmo Claro ainda não haviam oficializado o nome no jogo, e os principais candidatos eram Fernando Krelling, Adriano Silva e Rodrigo Fachini. A análise excluía os candidatos de esquerda (que enfrentam um cenário bastante complexo) e as candidaturas nanicas.

E, de fato, a previsão se concretizou, ao menos em partes. Bem colocada em pesquisas, a candidata do Cidadania busca a vaga no segundo turno e conta com alguns “votos úteis”, de eleitores que, não vendo potencial no candidato preferido, apostam em um nome que pode desbancar os líderes. Não sei se essa era a estratégia de Tânia, mas, se fosse, ela contou com dois obstáculos. Os líderes nas pesquisas também buscaram uma posição mais moderada, sem forçar a imagem de bolsonarista. Além disso, Darci de Matos é um político mais tradicional, como Tânia, o que acabou dividindo votos.

O alongado parágrafo acima com o contexto eleitoral e o posicionamento ideológico de Tânia Eberhardt não é sem razão neste texto sobre Luiz Bittencourte. Neste perfil vamos mostrar como o vice “pesa para o centro”, com uma história de lutas moderadas ao longo da vida. É defensor da política, mas da política como construção.

“Buscando resultados”

Luiz Bittencourte nasceu em Criciúma, em 1962. Mudou-se para Curitiba ainda jovem e pouco tempo depois voltou para o sul do estado, onde comprou uma casa e montou uma escolinha para dar aula de catequese. O candidato costuma usar o termo “buscando resultado” para falar de suas lutas por direitos e benefícios. Quando falou da escolinha, citou o termo pela primeira vez.

Bittencourte, que trabalhava em segmentos da indústria em Criciúma, contou que sempre gostou de estudar e, em determinado momento, quis expandir os horizontes profissional. No entando, não via oportunidade em Criciúma. Pegou um emprego em Tijucas, em uma grande fábrica do setor ceramista, mas visando os estudos em Florianópolis. Logo percebeu que trabalhar em Tijucas e estudar na capital seria complicado, de modo que começou a namorar Joinville. Deixou o currículo em uma multinacional e meses depois foi contratado, fixando residência em Joinville no final dos anos 1980.

Bittencourte veio para Joinville há mais de 30 anos

Ele, que já tinha formação em elétrica e mecânica, fez graduação em manutenção industrial e pós-graduação. Passou a atuar no movimento sindical, sempre buscando resultados para o trabalhador, afirmou ele. Atuou e ainda atua em uma série de conselhos e sindicatos, como o conselho nacional de segurança alimentar e o sindicato nacional dos aposentados. Ligado à central Força Sindical, foi um dos fundadores do Solidariedade, há sete anos.

Cabe um comentário sobre a Força Sindical, entidade qual nosso perfilado é um dos dirigentes. Quando falamos em sindicatos, setores da direita já encrespam o couro para xingar os comunistas, sempre colocando tudo no mesmo saco. Mas há profundas diferenças ideológicas entre movimentos de trabalhadores. A Força Sindical é uma central considerada à direita, especialmente pelos membros de outras centrais, como a CUT. Tem como seu nome mais famoso o político Paulinho da Força.

No contexto das disputas políticas, as centrais sindicais costumam estar sob área de influência de agremiações políticas, que também são influenciadas por ela. É comum você relacionar o PT e a CUT, por exemplo. As relações são mais complexas, mas são mais ou menos assim. Desse modo, diferentes agremiações políticas disputam a direção de sindicatos. Quando ganha um sindicato, a agremiação política fica mais forte, consegue colocar mais gente na rua e chega com mais corpo às mesas de negociação. A política é assim.

Desigualdades

Quando perguntei sobre o principal problema de Joinville, Luiz Bittencourte afirmou que o principal problema ainda é a demanda de saúde, mas engatou uma longa lista que passou por educação, mobilidade, meio ambiente, e terminou com a indignação com a quantidade de pessoas em situação de rua.

“Você passa em qualquer marquise e vê gente dormindo na rua. Você passa pelo farol e vê gente com fome, outras pedindo ajuda porque estão desempregadas. O que é que o governo está fazendo com essas pessoas que estão nesse conflito social, passando fome, não tendo onde dormir… Essa preocupação humana, minha e da Tânia, é a que temos que ter com a sociedade”, respondeu.

Segundo ele, o plano é chegar no governo e, em primeiro lugar, limpar a casa: “Vamos olhar a demanda reprimida, o que mais está pegando, e resolver. Nossa preocupação é essa, a de dar condições aos munícipes de viver”.

O candidato ainda afirmou que as subprefeituras devem ser estruturadas para resolver os problemas dos cidadãos nos bairros, mas neste momento da conversa se empolgou com a pergunta e listou uma série de problemas e propostas de soluções que durou cerca de todo mundo. Ao final, me disse: “Se tu deixar, eu fico o dia todo aqui, de tanta coisa que tem para fazer”.

Quando coloquei o tema da desigualdade social na mesa, Bittencourte fez um discurso para sustentar a sua posição de centro, destacando que algumas das pessoas com maior poder aquisitivo chegaram na cidade antes, de modo que elas acumularam mais capital ao longo do tempo. Quem chegou antes, comprou o terreno mais barato. Quem chegou depois, com uma mão na frente e outra atrás, ainda tem que pagar o aluguel e outras coisas, e isso tudo dificulta. “Eu não vejo como uma desigualdade social para o meu. Eu vejo como uma desigualdade [oriunda] do poder aquisitivo”

Apesar do esforço do candidato de permanecer ao centro, ele tocou em um ponto importante, do quanto a desigualdade está ligada à questão da terra. Para quem quiser entender a brutalidade da desigualdade em Joinville, basta olhar para a distribuição da terra e as assinaturas nos títulos de propriedade. Que fique claro que a frase é do repórter, porque o moderadíssimo Bittencourte, eu imagino, não diria isso. Ele só deu, mesmo sem querer, a dica.

Tânia e Bittencourte são a opção mais ao centro em Joinville e evitam sair dela

Em suma…

O leitor e a leitora já sabem que nesta série tentamos extrair a essência de cada candidatura, a captando pelo olhar e pelas palavras do vice, tentando reconhecer pontos positivos e expondo o que julgamos negativo. Ao final da conversa com Bittencourte, penso que a essência da candidatura Tânia e Bittencourte é uma opção consciente pelo centro que toma muito cuidado para não escorregar a um lado ou outro. Acredito que seja um excesso de cautela, visto que o centro política se caracteriza por visitas à direita e à esquerda.

Eu gostaria, por exemplo, que Tânia Eberhardt acenasse mais às mulheres e fizesse um contraponto maior ao bolsonarismo. Como as outras chapas fortes da disputa não flertaram muito com o movimento de extrema-direita do presidente, ela nem teve a chance de fazer. Mas também perdeu a chance de se consolidar como diferente dos demais. Penso que Luiz Bittencourte também poderia arriscar mais, pois, como destaquei na primeira linha do texto, ele passou a vida se dedicando a ajudar os outros, construindo movimento, participando de reuniões, dando palestras e cursos. Ninguém pode tirar dele a própria história. E ninguém nunca vai achar que alguém da Força Sindical é de esquerda. Então, diante de tudo isso, Tânia e Bittencourte podem ficar tranquilos, que o centro é deles.