Ricardo Lautert quer a cidade governada por conselhos populares

Goste-se ou não, vices estão em alta. O decorativo que virou presidente em um “grande acordo nacional” e a vice bolsonarista que agora comanda Santa Catarina são personagens recentes. O novo presidente americano foi vice de Barack Obama, o que certamente pesou na vitória em 2020. Os vices também têm história em âmbito municipal. Marco Tebaldi herdou a prefeitura de LHS e se tornou uma das principais lideranças políticas da cidade. Além desses casos recentes, a história do país é marcada por figuras que chegaram ao poder pela função. Jango assumiu o governo, começou a implantar reformas e sofreu o golpe. Itamar criou o Plano Real. E a importância dos vices – para o bem e para o mal – é apenas um dos motivos pelo qual O Mirante dedica suas páginas a eles. O outro é que essas fascinantes figuras públicas recebem pouquíssima atenção da imprensa e da sociedade, ainda mais em uma eleição com 15 candidaturas, em que a população mal pode conhecer os candidatos titulares. Bom, até agora, pois neste especial O Mirante vai falar dos vices como você nunca viu. Confira todos os publicados.

Por Felipe Silveira
Fotos: Divulgação

Quis o destino que na eleição de 2020 em Joinville, essa mesma que tem 15 candidaturas à prefeitura, duas candidaturas sejam de orientação marxista-leninista-trotskista. Dentre toda diversidade à esquerda, duas das quatro candidaturas desse campo são bastante similares. Frustrante para o repórter, que gostaria de desfilar seus parcos conhecimentos sobre política, apresentando mais uma das ramificações ideológicas. Fica para a próxima. Diante dessa situação, o leitor e a leitora vão perceber que parte das reflexões sobre essas candidaturas se repetem, como a motivação para participar do processo e a postura do jornalismo diante delas. E, apesar das similaridades e das partes que vão se repetir, a matéria vai mostrar o que é específico da candidatura de qxcl0Ricardo Lautert, vice de Adriano Mesnerovicz na chapa pura do PSTU. Porque, por mais que se filiem a projetos maiores (como uma revolução internacional), cada organização tem a sua história, está inserida em um contexto e é construída por indivíduos livres.

A conversa com Ricardo Lautert foi muito agradável, até porque somos amigos, embora distantes, daqueles que se veem algumas vezes por ano em manifestações de rua e aniversários dos filhos de amigos em comum. A entrevista, naquelas mesas de concreto do jardim do Maj, foi provavelmente nossa conversa mais longa e fiquei satisfeito por conhecê-lo melhor e entender um pouco mais do pensamento que move o PSTU. Reformistas como eu, nas disputas à esquerda pela preferência social, costumam ser críticos de revolucionários como Ricardo – embora não mais do que eles são com a gente. Estamos lado a lado nas ruas e eventualmente em algumas festinhas, mas as diferenças são grandes e importantes.

Esta reportagem é mais uma tentativa de explicar ao leitor e à leitora sobre as diferenças substanciais que existem na esquerda. Quando algum desavisado vier perguntar por que o PT, o PDT, o PCdoB, o PSOL e o PSTU não saíram juntos em uma coligação forte, você já sabe o que deve fazer: imprimir o texto, fazer uma bolinha de papel e atirar na pessoa. Chamar todo mundo de comunista é coisa de olavista, de mente vazia. Chame de comunista apenas aqueles que são mesmo, como o nosso perfilado da vez.

Militante que assume a tarefa

Ricardo Walter Lautert nasceu em Francisco Beltrão, no interior do Paraná, em 1981. Os pais foram agricultores na juventude, até que o Seu Lautert se formou no magistério e seguiu a carreira como servidor público. A mãe ficou na lida da casa. Quando chegou a hora de entrar na faculdade, o jovem Ricardo conseguiu uma vaga no curso de educação física na Universidade Federal de Santa Catarina, onde se formou. Como muitos jovens, Ricardo foi apresentado efetivamente à esquerda durante a faculdade, e logo começou a participar das lutas populares da esquerda na capital catarinense. Depois de formado adentrou às fileiras do PSTU.

Permito-me um parênteses na história de Ricardo para fazer um comentário sobre o que é jocosamente chamado de esquerda universitária. Muitos jovens, como Ricardo, entram na faculdade, conhecem a causa de esquerda e se tornam militantes. Assim como muitos entram e se tornam ativistas de centro e direita. A universidade é esse lugar plural, do pensamento livre, em que o debate e a disputa política são constantes. Ocorre que muitas vezes os adolescentes vão para a faculdade e voltam para casa com um pouquinho menos de preconceito e com outras ideias sobre o mundo. “Meu filho está defendendo gays? Virou comunista!”; “O que aconteceu com o meu guri que não ri mais das minhas piadas de preto? Virou comunista, essa desgraça”; “A faculdade acabou com a minha filha, que agora bebe igual a mim”. Não é comunismo, não. É apenas bom senso, civilidade, essas coisas. Alguns seres rastejantes, que chegam até a ocupar o Ministério da Educação, querem demonizar a universidade justamente pelo que ela tem de melhor: a liberdade de pensamento.

Mas voltemos a Ricardo Lautert, que virou comuna mesmo na faculdade. Logo que deixou o curso, Ricardo Lautert começou a trabalhar em uma escola pública de Florianópolis. Envolveu-se ainda mais na luta sindical, em um período de grande tensão entre os governos da Tríplice Aliança [a agremiação de partidos que elegeu e reelegeu os governadores Luiz Henrique da Silveira (PMDB) e Raimundo Colombo (primeiro no DEM e depois no PSD)]. Ricardo entrou para o PSTU, o partido revolucionário criado em 1993, que é forte (no contexto da esquerda) na capital do estado.

Depois de um tempo em Florianópolis, o professor militante se mudou para Curitibanos. Durante três anos, ficou um pouco afastado da atividade partidária e militante, até que surgiu a oportunidade de vir para Joinville, em 2011, com a tarefa de construir o partido na maior cidade do estado.

Partido tem poucos militantes em Joinville, mas são aguerridos

O PSTU

O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, como já dissemos, foi criado em 1993, a partir de uma cisão do PT. O dirigente José Dirceu estabeleceu, a época, que uma grande corrente/tendência (assim são chamadas as divisões internas dos partidos) se adequasse a algumas regras que impediriam críticas públicas à direção do maior partido de esquerda brasileiro. Naquele momento, saíram do PT e formaram o PSTU aquela grande corrente/tendência, algumas menores e militantes independentes. Esta nova agremiação socialista-marxista-leninista-trotskista-morenista, aliás, decidiu não se dividir em correntes internas, o que é um diferencial do partido em relação a outros, como o PT e o PSOL. Quem também não tem tendências, aliás, é o Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Algumas das principais ideias que orientam o PSTU foram escritas e difundidas pelo revolucionário russo Leon Trótski. Falamos dele na matéria sobre Chico Aviz, do PSOL, já que a corrente Esquerda Marxista também tem um farol no intelectual russo. Relembremos:

Quando os bolcheviques tomaram o poder na Rússia em 1917, dois homens lideravam a revolução: Vladimir Lenin e Leon Trótski. O primeiro se tornou o alto comissário do país e até hoje é unanimidade em toda a esquerda que se reivindica revolucionária (com exceção dos anarquistas, que também são revolucionários). Trótski, que era um intelectual, se tornou o comandante do Exército Vermelho na principal potência do Velho Mundo. Com a morte de Lenin em 1924, ascendeu ao poder o membro do partido Joseph Stalin, que passou a comandar a União Soviética. Partiu dele a ordem para matar Leon Trótski, que estava exilado no México quando foi assassinado na porta de casa, em 1940. A biografia e os textos do revolucionário russo deram origem ao “trotskismo”, a teoria-movimento à qual o PSTU se filia.

Em campanha na porta de fábrica

O partido ainda é morenista. Ou seja, também guiado pelas ideias do revolucionário argentino Nahuel Moreno, um dos principais nomes da chamada Quarta Internacional. As “internacionais” é como são chamadas as organizações de agremiações comunistas que visam a revolução em todo mundo, justamente por entender que elas não podem ocorrer isoladamente, seguindo um princípio escrito por Karl Marx. Na adesão à Internacional vemos uma diferença entre os dois partidos revolucionários que disputam a eleição em Joinville. A Esquerda Marxista, do PSOL, é a seção de um movimento internacional, mas não se reivindica ligada a uma Internacional. Já o PSTU, sim, à Quarta Internacional.

Este é um resumo muito precário que serve apenas para situar os leitores sobre o contexto ao qual está inserido nosso personagem. Pode até escorregar em algum erro teórico, inclusive. Se você entende a gramática de esquerda, pode passar por cima, mas, se não entende, tem uma base para começar – agora só é preciso começar a ler.

O jornalismo e os revolucionários

O jornalismo é uma instituição liberal, nascida no seio da revolução burguesa e desenvolvida no século de consolidação do capitalismo. As eleições como as conhecemos também. É natural, portanto, que o modus operandi do jornalismo tradicional trate as candidaturas comunistas como as demais, nos marcos da democracia liberal, a qual também chamamos de Estado Democrático de Direito. Quando vejo entrevistas de candidatos e candidatas marxistas na TV, sempre penso que é uma conversa fora de sintonia. Um repórter pergunta como o candidato vai administrar o sistema, ao que o entrevistado responde que vai derrubá-lo.

Ao tratar as candidaturas comunistas dessa maneira, jornalistas perdem a oportunidade de compreender — e reportar ao público — o que aquele candidato está querendo dizer. Não imagino que exista alguma solução fácil para este problema, se é que é um problema, pois os jornais têm o compromisso, ainda mais nessas entrevistas curtas de rádio e TV, de oferecer um tratamento isonômico. “Se querem disputar a eleição do sistema, serão tratados como o sistema trata a todos”, podemos resumir assim o pensamento da maior parte da mídia hegemônica. Muitas vezes as candidaturas de esquerda são tratadas injustamente pela mídia do sistema, mas noutras é apenas o que acontece quando alguém de dentro do sistema conversa com quem quer derrubá-lo – ou transformá-lo gradativamente, como no caso dos reformistas.

A proposta do jornal O Mirante, no entanto, é diferente. Quem acompanha este especial já percebeu que a ideia, além de contar a história de cada sujeito, é entender o modo como ele pensa. Ao conversar com um revolucionário, quero entender como ele pretende fazer a revolução e saber porque, se ele não acredita no processo eleitoral aos moldes atuais, resolve disputá-lo. Vamos ver o que Ricardo nos diz.

Participação eleitoral

Ricardo e outros militantes vieram para Joinville com o objetivo de construir o partido. Eles têm participado de lutas sociais e sindicais, produzindo materiais, somando em manifestações e outras atividades. Mas, mesmo após dez anos, a sigla conta com poucos militantes. Algumas dezenas, sendo um pouco menos os militantes mais aguerridos.

O partido teve candidatos em 2004 e 2008, mas não era uma relação orgânica com o partido. Em 2020, conta Ricardo, é a primeira vez que apresenta uma candidatura que defende o programa do partido. Como tem poucos militantes e o objetivo de usar a eleição para divulgar a causa, os militantes optaram por concentrar as forças apenas na campanha à prefeitura.

“A gente não vê uma perspectiva de mudanças no processo eleitoral, que não representa algo democrático, que está longe disso […] A gente utiliza as eleições, o momento em que as pessoas estão mais dispostas a discutir política, para fazer a denúncia de que é uma falsa democracia, que as eleições não vão mudar as nossas vidas, que a gente precisa organizar os trabalhadores nos bairros, nas fábricas […] Não é esse sistema democrático e falido que vai mudar as nossas vidas”

Dentro desse contexto, Ricardo menciona o mote da campanha, que é a organização dos trabalhadores em conselhos populares, que seriam instaurados nos bairros, nas escolas e nos locais de trabalho. Esses conselhos, segundo ele, determinariam 100% do orçamento da cidade.

A saída de Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão tem sido a palavra de ordem do partido no atual período histórico e a participação na eleição também tem o objetivo de levar à frente essa pauta. “É uma necessidade nossa de acabar com quem está nos jogando para a morte, porque os governos têm feito isso na pandemia. Nenhum governo fez uma quarentena geral e séria, fechando todos os segmentos. Para a gente é uma necessidade tirar Bolsonaro e Mourão porque, neste momento, eles representam a morte de parte da classe trabalhadora”, explicou.

“Fora Bolsonaro e Mourão” tem sido uma das palavras de ordem do partido no período

Desigualdades

Quem acompanha a série já conhece a dinâmica. Perguntamos a todos os entrevistados sobre qual é o principal problema da cidade para ouvir o que cada um pensa e para depois inquiri-lo sobre o problema real, que é a desigualdade social. Ocorre que perguntar isso para comunistas é chover no molhado, já que a crítica às desigualdades vêm no pacote.

“Distribuição de renda”, respondeu o candidato, explicando na sequência que poderia listar problemas pontuais, como buracos no asfalto, falta de espaços públicos, escolas de qualidade, atendimento de saúde, mas optou por mencionar a causa. Ele aponta a concentração de renda, citando as grandes empresas, os bilionários da região e as mansões como evidências do problema.

“É absurda a distribuição de renda que a gente tem, em uma cidade que produz muita riqueza. E essa riqueza quem produz somos nós, os trabalhadores da cidade. E nada fica aqui. Ou são multinacionais e o dinheiro vai para fora ou fica para uma ou duas famílias. É um grande absurdo que não dá pra aceitar como natural”, afirmou.

Ricardo ainda explica que, no projeto revolucionário do PSTU, as prefeituras podem ter um papel importante, baseada no programa de transição proposto por Trótski. No nosso programa a gente coloca possibilidades de mudanças neste regime. Entre os exemplos estão os impostos fortemente progressivos (cobrar mais dos mais ricos) e a municipalização do transporte coletivo. Essas ações desenvolveriam um senso coletivo em torno da necessidade revolucionária.

Em suma…

Como já explicamos no texto sobre a candidatura do PSOL e ao longo deste sobre a do PSTU, o objetivo com esses perfis foi explicar a ideia em torno dessas candidaturas e responder algumas perguntas comuns acerca delas. Por que a esquerda não se junta? Por que esses caras participam de um processo que chamam de fraude? Por que defendem serviços gratuitos com o orçamento tão limitado? Agora você já sabe a resposta para essas perguntas e tem ferramentas para concordar ou discurso, rejeitando ou aderindo ao projeto. Eu, por exemplo, que me considero social-democrata, um liberal de esquerda, tenho acordo na análise sobre o capitalismo, sobre o injusto sistema que amplia as desigualdades com uma fome de gente implacável. Porém, tenho total desacordo na estratégia. Não quer dizer que estou certo. Daqui a pouco estoura uma revolução e lá vou eu dizer: “Veja bem, não foi o que eu quis dizer, blá, blá”. Enfim, o nosso compromisso, da esquerda à direita, era com explicação sobre as ideias-mestras de cada candidatura. Ricardo Lautert explicou as suas e agora cabe ao leitor e à leitora decidir o que fazer com elas.